‘Salve o Prazer’ retrata Cafi, fotógrafo do Clube da Esquina, e estreia na TV

*por Raphael Vidigal

“Que estou fazendo ao te escrever? estou tentando fotografar o perfume.” Clarice Lispector

Cada pedaço de tijolo velho transformou-se em uma máquina fotográfica quando as crianças indígenas, travessas e sorridentes, a apontaram para Cafi, mimetizando o gesto do visitante. Sem falar a mesma língua, eles se entenderam mutuamente. Provavelmente aqueles moleques viram em Cafi o mesmo que Lírio Ferreira via. Segundo ele, o amigo fotografava “com a luz do olho”. Lírio dirige “Salve o Prazer”, ao lado de Natara Ney, documentário que estreia hoje no canal Curta!, e acompanha o périplo do protagonista por cidades que marcaram a sua vida, como Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, onde revê comparsas de longa data, casos de Alceu Valença, Ronaldo Bastos e Lô Borges. Cafi nunca para. “Uma das definições de cinema é a imagem em movimento”, justifica Lírio.

Uma versão estendida do filme deverá ser exibida em festivais. Para quem não liga o nome à pessoa, ou, nesse caso, à imagem, o que é comum, Carlos Filho, o pernambucano Cafi, foi o fotógrafo responsável por mais de 300 capas de disco da música brasileira, dentre elas a do icônico “Clube da Esquina”, de 1972, com os dois meninos sentados numa beira de estrada sob um arame farpado, o que chamou sua atenção enquanto ele viajava no banco de passageiros. No mesmo ano, eternizou um par de tênis de Lô Borges, que não queria mostrar o rosto. Então o irmão, Márcio Borges, resolveu a pendenga: “se não quer pôr a cara, põe o pé!”. No longa, Cafi define seu ofício como uma “sacralização de solidões”. As primeiras cenas enfocam um reencontro com o maracatu rural de sua terra.

Sombra. Conterrâneo, Lírio conhecia Cafi de nome e sabia onde ele morava por ouvir falar. Além disso, a música de Alceu Valença, “Leque Moleque”, o citava: “Chirumba-bá/ Gê-gererê/ Amim sem Dadá/ Cafi com você”. Certo dia, Cafi perambulou pelas ruas com Alceu vestido de Lampião. Só no final dos anos 90, Lírio se mudou para o Rio e inevitavelmente se deparou com o artista no Jardim Botânico. “Foi paixão à primeira e última vista”, relata. Piscianos, eles dividiram a mesma casa e passaram a frequentar bares e blocos de carnaval juntos, firmando “um aprendizado de amor, afeto e um pouquinho de cachaça, porque ninguém é de ferro”. Numa das inúmeras vezes em que ficou hospedado no lar de Cafi, ele construiu uma cama para Lírio, pois também era “meio marceneiro”.

“Desde que conheci o Cafi, ele sempre morou sozinho”, conta. O fotógrafo foi casado com a bailarina e coreógrafa Deborah Colker, mãe de seus três filhos. “Cafi é de uma geração que tinha a mulher como o ideal da sublime beleza”. Idealizado por Deborah, o espetáculo de dança “Cão Sem Plumas”, baseado na obra do poeta João Cabral de Melo Neto, rendeu alguns dos cliques mais impressionantes da carreira de Cafi. “Ele incorporava completamente essa ideia da solidão. A única pessoa que não aparece é o fotógrafo”, resume Lírio. Na contramão desses holofotes, o homenageado foi hábil em fazer amizades por trás das câmeras. “Pela quantidade e pelo calibre de amigos do Cafi, tivemos que eleger alguns que simbolizavam seus encontros na arte”, explica o cineasta.

Luz. Débora Colker representa o lado familiar e a dança; Alceu, Lô e Jards Macalé – para quem clicou sua última capa de disco, com “Besta Fera” (2019) – trazem a música; Ronaldo Bastos introduz a literatura e a poesia do movimento que ficou conhecido como Nuvem Cigana; a própria fotografia e as artes plásticas têm o colega Miguel Rio Branco; o cinema conta com Lírio, “ali pertinho, construindo essa teia”; e, o teatro, a figura de Zé Celso Martinez Corrêa, que, maroto, canta para Cafi os versos da canção que dão título ao longa-metragem. “Bruxo que é, o Zé captou o desejo do Cafi e fez essa leitura dionisíaca”. O batismo da empreitada foi dado por Cafi, que adorava “Alegria”, de Assis Valente: “Inventou a batucada/ Pra deixar de padecer/ Salve o prazer, salve o prazer…”.

“É um nome que extrai muito do sentimento que Cafi nutria perante a vida. Ele teve uma existência colorida, curtiu pra caramba”. Cafi teve a oportunidade de assistir ao corte final e, segundo Lírio, “se emocionou, ficou todo feliz”. “E, menos de um mês depois, nos deixou”. Nascido em uma família de artistas, sobrinho de Nelson Rodrigues e Mário Filho – “A Mesma Rosa Amarela”, de Capiba e Carlos Pena Filho, foi composta na sala de sua casa – Cafi teve na prima Dani Hoover o empurrão para resgatar a intensa trajetória. A produtora imaginou uma grande exposição, misturando capas de disco a desenhos e pinturas. “Capa de LP era quase obra de arte, pelo tamanho e o formato. Com o advento da modernidade, perdeu-se esse alumbramento e Cafi foi se reinventando vida afora”, avalia Lírio.

Brasil. A exposição previa um vídeo, que cresceu até tornar-se o filme que chega à TV no dia do aniversário de Tim Maia, Domingos Oliveira e da mãe de Lírio, como ressalta, cheio de graça, o diretor. O pontapé inicial aconteceu em 2016, na cidade de Olinda. “O primeiro emprego do Cafi foi dado pelo Dorival Caymmi, na revista ‘O Cruzeiro’. Ele convivia com o (designer gráfico) Aloísio Magalhães. Quem o levou para conhecer o Maracanã foi o (escritor) Paulo Mendes Campos. Só pessoa foda!”, exalta Lírio. De acordo com ele, o fotógrafo só não gostava de estudar e, ao ganhar uma câmera da irmã, descobriu logo de cara o seu barato. “Antes de conhecer o mundo, quero conhecer o Brasil”, dizia Cafi para Lírio. Imbuído dessa vontade e “sempre munido de suas armas”, ele foi até o Xingu.

O carioca Ronaldo Bastos, que tinha ido a Recife estudar, encontrou o pernambucano Cafi ao regressar para o Rio. E apontou para ele que a nova onda estava em Belo Horizonte. “O acaso é o grande fazedor de encontros”, acredita Lírio. “Poderia ter sido outra pessoa que batesse e voltasse no mesmo dia, poderia não ter dado liga. Se o Brasil tivesse a mesma mania dos americanos, teriam registrado vários rolos de Super-8 daquele momento. O making-off do ‘Clube da Esquina’ foi feito pelo Cafi”. O fotógrafo tornou-se tão parte do movimento que foi considerado sócio fundador por seus pares. E criou capas para discos célebres de Milton Nascimento: “Milagre dos Peixes” (1973), “Minas” (1975), “Geraes” (1976). “Cafi falava sempre: ‘Pernambuco é pai, Minas é mãe’”.

Despedida. Sentado na areia, na beira do mar, Cafi deu seu último suspiro na praia do Arpoador. Ele morreu na madrugada do réveillon de 2018, aos 68 anos. “É uma morte muito simbólica. Momentos antes de o Bolsonaro assumir. Parece que foi até programado. Ele fez questão de não viver a época do verme e do vírus”, declara Lírio, em menção à pandemia do novo coronavírus, responsável pela morte de 140 mil brasileiros, e que o presidente, em pronunciamento oficial à nação, chamou de “gripezinha”. O cineasta afirma que Cafi “era uma pessoa progressista, tinha o olhar da beleza e da sensibilidade, a preocupação com os índios”. E que “questionou veementemente o governo Dilma” por conta da polêmica construção da usina de Belo Monte, no Pará. “Foi uma pessoa crítica”.

Eram umas oito horas da manhã quando Lírio chegou em casa, após comemorar o ano novo no sítio de amigos em Olinda. Ele e Cafi haviam trocado mensagens de felicitações pela passagem de 2018 horas antes. Depois de abrir a geladeira à procura de água e encontrar mais quatro garrafas de cerveja gelada – o que significava uma “sorte da gota”, no jargão pernambucano – resolveu se reconectar ao celular, ao qual nunca foi muito chegado. “Só passei a ter porque minha filha me azucrinou tanto”. Havia ligações, inclusive, do Marrocos. Todas traziam a mesma triste notícia sobre a partida de Cafi. “Abriu um buraco na minha frente. E tome choradeira. Fui chorando até onde aguentei. Aí capotei”. Dois dias depois, ele estava no velório, no Rio. No último fevereiro, Cafi celebraria 70 anos.

Legado. A aspiração de Lírio é que o documentário “abra possibilidades de conhecerem mais o universo do Cafi”. O artista jamais teve um agente ou alguém para administrar a carreira. “Ele foi inventando a obra. Você ia na casa dele e encontrava aquele acervo riquíssimo, de 45 anos de fotografia. Faltava uma pessoa para organizar. Não está catalogado, mas tudo muito bem arrumado. Ele morreu ainda com esse projeto. Foi tomando consciência da dimensão incrível do trabalho que realizou. Se você prestar atenção, ele está em quase tudo: na abertura do Circo Voador, na criação da Nuvem Cigana, na peça ‘Os Sertões’, do Zé Celso, no Teatro Oficina, sempre em movimento”, destaca Lírio. Invisível, Cafi congelou os instantes com seu olhar generoso, voltado para o prazer e a fé.

Fotos: Cafi/Reprodução.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com