Crítica: Vencedor do Oscar, “Birdman” coloca em cheque papel da arte

“uma coisa é uma coisa, não o que é dito dela” Alejandro Iñárritu

Birdman

Diferente de outras atividades a prática da arte não é funcional. O que oferece são sentimentos, sensações, mensagens, nada de físico ou material, embora se utilize de plataformas; o produto da arte segue flutuante, impalpável: uma música, um poema ou um filme não se podem tocar. São os mesmos algozes e ases de qualquer comunicação, afinal outro fundamento da arte é a expressão de algo que, submerso, almeja colocar a cabeça para fora, ou outro membro ainda menos mostrável. No entanto há diferenças entre passar uma informação e, a partir dela, interferir no panorama. Alejandro Iñárritu, diretor e roteirista de “Birdman”, faz um corte bastante nítido entre o que considera arte e o que relega ao plano do entretenimento, da cultura de massa. Ainda que se possa alegar que essa visão pertence ao sistema, Iñárritu não deixa de compra-la. Mas tem como mérito contestar as duas, embora não consiga escapar de um dos caprichos da profissão. Ao caricaturar e usar de forma saborosa o humor negro atinge em cheio o primeiro alvo: o de um universo banal, grosseiro, tosco, onde os mais “geniais artistas” não passam de pessoas patéticas, egoístas e egocêntricas.

Mas é quando tece a discussão mais complexa que o diretor mexicano acaba enovelado na própria teia. Emerge uma certa pretensão, de quem fala “de cima para baixo”, presente, inclusive, no subtítulo da película, “A Inesperada Virtude da Ignorância”, tudo porque é difícil desmontar essa estrutura hierárquica. O que é fruto, paradigmaticamente, desta consciência e inquietação existencial pouco comum na população quando observada em massa. Ao rejeitar a maçante narrativa super-realista do modelo cultural norte-americano em vigência e propor uma construção lúdica, surreal em alguns momentos, Alejandro sai do campo da contestação e parte para a proposta, ou seja, busca caminhos novos para essa arte da qual ele mesmo ainda tem dúvidas se serve. E se é para servir, assim como a existência humana, a um número maior de indivíduos, como solucionar a conta que nunca fecha entre uma cultura onde somente uma parcela restrita da sociedade se interessa e tem acesso e outra que atrai milhões? Qual das duas pode ser mais irrelevante? Daí considera-se o problema da hierarquia, pois é preciso que pessoas influentes e, em tese, mais abastadas em termos de consciência, sempre transmitam essa mensagem, ou essas sensações, de cima para baixo.

A opção por um enredo sobre um super-herói, um homem pássaro, e o fato de vencer o Oscar de melhor filme, direção, roteiro e fotografia, são a embalagem para atrair um grande público e dar a ele um presente de grego, ou seja, uma arte escultural. Essa talvez seja a principal ação de Alejandro nas contestações que propõe. As artimanhas de praxe da contemporaneidade estão presentes, como a confusão entre real e imaginário e a fragmentação. A trilha sonora minimalista atua como crítica aos excessos da atualidade e contribui para aumentar as tensões, sendo um dos grandes trunfos da película. Os diálogos são responsáveis por vários dos melhores momentos do filme. Michael Keaton é correto no papel do protagonista, ancorado pela boa atuação de Edward Norton e, sobretudo, Emma Stone e a perturbação de sua personagem que ela capta tanto a partir de sua exuberante presença física como da manipulação de seus gestos. Todos os efeitos técnicos exaltados, como fotografia, figurino, cenários e as longas tomadas de plano sequência contribuem para o essencial: a ousadia de propor algo novo e sublinhar a gama de questões discutidas a partir de um ponto central: as significações; afinal aquela que se discute, quer, como ninguém, dar um sentido à vida, não apenas uma direção.

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Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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