Crítica: peça “O Marido da Minha Mulher” sustenta papéis consagrados

“As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora.” Groucho Marx

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Datada de 1987 a peça “O Marido da Minha Mulher” conta a história linear do homem que morre em um acidente e volta para atazanar a vida da viúva, do amigo e de um potencial desafeto. Com mudanças pontuais no enredo que contextualizam e se valem de bordões e situações contemporâneas e simpáticas ao espectador da cidade, o período de lançamento do espetáculo tem muito a nos dizer sobre ele. Os quase 30 anos em cartaz são parte importante para analisar o nível de transformação social que ocorreu no país, e, preponderantemente, a falta de uma política efetiva de educação e incentivo à cultura, que a modificasse na essência, não a que se atém às suas margens.

O texto de Sérgio Abritta, que também dirige, reforça e sustenta papéis consagrados na sociedade brasileira, em que o machismo e a homofobia, além de costumes de praxe, eram práticas comuns e bem aceitas, referendadas entre todas as classes. Se naquela época a história já buscava afrouxar e modificar esses estereótipos, para os tempos de hoje eles soam ainda mais inconvenientes e conservadores. Nesse sentido, o riso que desperta soa como um assentimento da montagem a esses papéis outrora bem mais estabelecidos. Há um sentido moral da peça que representa nichos ainda bastante protuberantes na sociedade moderna, e que se incomoda de ter que dividir cada vez mais espaço com as novas tendências.

A trilha sonora apresenta ótimos números, e sublinha o desenrolar da trama. Embora “ensaiados”, os improvisos se destacam nesse conjunto da obra, e garantem os melhores momentos do espetáculo. A Dudu, especialista no trato com a plateia e excelente apresentador do programa de rádio “Grafitte”, que lhe vale o sobrenome artístico, cabe a inglória missão de interpretar aquele que personifica o estereótipo do malandro metido a garanhão que trata e vê a mulher apenas como objeto, dirigindo-lhe, sem o menor constrangimento, repetidas ofensas e não admitindo para ela outra vida que a subjugada condição de aparador do marido. Bárbara Nunes consente com essa humilhação, e torna-se impossível para qualquer atriz apresentar-se digna com abordagem que a relega somente a estridências e infantilidades.

Rafael Mazzi tem a incumbência de costurar as frágeis conexões entre as personagens, e é quem mais se utiliza desse humor físico, pautado nas patifarias e naquela que ficou conhecida, e consagrada por plateias no mundo inteiro, como “comédia pastelão”, haja vista o sucesso de seriados como “Os Três Patetas”, “O Gordo e o Magro”, “Os Trapalhões”, “Chaves” e muitas outras versões do estilo. É a esse tipo de recurso que os envolvidos na peça se utilizam para alcançar o riso, com maior ou menor êxito. A performance de João Ferreira traz à lembrança tipos célebres do humor nacional, como Zé Trindade e Grande Otelo, e, embora metido na encrenca de texto com o viés destacado, soa menos espalhafatoso, e até mais sutil e exato.

É possível que todos os atores da peça, munidos de diálogos com melhor qualidade, tenham desempenho superior ao apresentado. No mais, o espetáculo é um sucesso incontestável de público, fato que também revela muito sobre os valores da população, ou, pelo menos, a tradicional família mineira. No entanto, é possível, sim, propor uma comédia popular que não reforce preconceitos latentes e já instalados, e, sim, os combata, como prova, à sua maneira, a trupe da “Porta dos Fundos” e, em tempos remotos, Chaplin e os “Irmãos Marx”. “O Marido da Minha Mulher” provavelmente está na mesma categoria das primeiras performances do cinema nacional, de que se dizia: “Ninguém gostava da chanchada, exceto o público”.

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Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo e Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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