Crítica: Filme ‘Azor’ aborda horrores da ditadura argentina de maneira original

*por Raphael Vidigal

“Dentro de vinte anos – diz – vou contar para ele as coisas de agora. Vou falar para ele dos amigos mortos e presos e de como era dura a vida nos nossos países, e quero que ele me olhe nos olhos e não acredite e diga que estou mentindo. A única prova será que ele esteve aqui, mas já não vai recordar nada disto. Eu quero que ele não possa crer que tudo isso foi possível algum dia. Quero que me diga que este tempo não existiu nunca.” Eduardo Galeano

Em “Azor”, longa de estreia do diretor Andreas Fontana, o distanciamento é levado a um nível poucas vezes experimentado em filmes que abordam ditaduras. Essa maneira original de abordar um assunto recorrente é a principal aposta desse lançamento argentino cujo título expressa “cuidado com o que diz” na linguagem subliminar de amigos suíços. De fato, muito pouco é dito e menos ainda mostrado. Estabelece-se um jogo de aparências entre os envolvidos, em que o principal permanece na iminência que guia a tensão narrativa. A peça presente que guia as ações – ou, antes, se vê guiado por elas – é Yvan De Wiel, banqueiro suíço mandado à Argentina para substituir o colega desaparecido, Keys – a peça ausente responsável pelos laços da trama.

Nesse roteiro de subterfúgios, armadilhas e labirintos, os horrores se revelam lentamente e nos parecem quase imperceptíveis, com uma naturalidade assustadora – assim como a transformação pela qual passa o protagonista, e que quase nem notamos. A imagem do clérigo é das mais perturbadoras, tanto por sua fisionomia encerrada em vincos e escuridões quanto pelas palavras que professa. O que se ameaça abre o tamanho do buraco no qual o banqueiro se encontra. As alternativas que se apresentam para ele parecem pouco promissoras. De todo modo, há sempre algo por trás daquilo que se apresenta. As atuações seguem esse mesmo rigor da direção altamente controlada de Fontana. As personagens são cínicas, grosseiras, indiferentes e até oprimidas. Essa elite capaz dos piores atos e que nada assume tem militares e religiosos.

É no cotidiano que a crueldade se alastra. Embora localizado em um período dito de exceção, os encontros, jantares, reuniões de gala e negócios ambicionam o lugar-comum. Não existe acontecimento notadamente excepcional. É antes pelo acúmulo de dias terríveis e repressores que as pessoas tentam sobreviver, juntar os cacos de suas vidas cheias de problemas a serem solucionados e com nenhuma perspectiva de resposta definitiva no horizonte. A esperança que soa ter minguado aparece em raros momentos de olhares suplicantes e gestos medidos, sempre controlados. Os ambientes assépticos sugerem a sujeira varrida para debaixo do tapete. O que se precisa dizer normalmente é dito a sós. Mas, afinal, estão todos entregues e solitários…

Estamos na ditadura argentina e De Wiel comenta que é impossível saber o que se passa naquele país, pronto a ser explorado pelo interesse estrangeiro. Tudo é suspeita e nada recebe o carimbo da certeza. O horror, por ser apenas sugerido, não desperta julgamentos peremptórios do diretor. O que torna tudo ainda mais incômodo no clima arrastado com que se conduz esse filme sem dúvidas original, pesado, com diálogos complexos que requerem disposição e entrega. Eis aí o grande paradoxo do filme. Ao mesmo tempo em que ele repele e mantém distante o espectador, será necessária uma postura francamente determinada por parte deste para se inteirar do que se passa na tela. A dureza e a frieza diante daquela tragédia revira o estômago tensionado. O medo permanece à espreita, presente como a personagem ausente do filme.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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