Crítica: Em ‘Ataque dos Cães’, a morte aparece à espreita por toda a parte

*por Raphael Vidigal

“o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário.” Machado de Assis

Há uma personagem-principal que não aparece na tela – ao menos, não nitidamente – mas ronda todos os personagens de “Ataque dos Cães”, filme dirigido pela neozelandesa Jane Campion, de “Um Anjo em Minha Mesa”, também baseado em um romance. Trata-se da Morte, que espreita os devaneios nostálgicos de Phil, vivido com galhardia por Benedict Cumberbatch, em relação ao mestre Bronco Henry; a lenta degradação da viúva Rose, em mais uma atuação exemplar de Kirsten Dunst; o deslocamento de George, interpretado com rigor por Jesse Plemons; e a perturbação que o órfão de pai, Peter, a cargo do promissor Kodi Smit-McPhee, provoca em si e até nos outros.

A paisagem árida e interiorana dá a sensação de que tudo ali já acabou, e espera apenas a consumação deste fim. Afinal de contas, estamos diante de um faroeste em um período em que as disputas violentas parecem ter ficado para trás. Mas como a casca da aparência nunca dá conta de tudo, descobriremos que há outros conflitos em relevo, de ordem um tanto mais sutil, porém com igual poder de causar dor e sofrimento. Phil é quem procura manter intactos os restos mortais desse mundo que a poeira dos tempos faz questão de enterrar. Ele se recusa a tomar banho-quente na rica mansão que possui, preferindo o banho-gelado no rio, com direito a lama sobre o corpo. Os hábitos ensinados pelos antepassados são glorificados como os dum mundo superior.

Nesse mundo, não cabem os trejeitos afeminados de Peter, que ajuda a mãe a servir a mesa no restaurante e demonstra uma incrível habilidade para criar flores de papeis. O encontro entre esses dois mundos incongruentes dará a deixa para hostilidades que, ainda assim, criam uma relação de aproximação, onde o que se rejeita faz tanto parte de si quanto aquilo que se assimila. George, o irmão mais novo de Phil, procura deliberadamente se afastar desse universo baseado na força física, em que as grosserias fazem parte do cardápio. Ele se veste como um dândi e assim procura se portar para a sofrida viúva, que agarra qualquer réstia de possibilidade de felicidade. Só que a falta de sal do marido e a misoginia do novo genro a aprisionam no velho desalento.

Aos poucos, com um roteiro redondo, a trama ganha contornos de suspense, entrelaçados a um romantismo homossexual que permanece na iminência. Como é iminente a morte e a pulsão pelo desejo proibido em um ambiente de regras heterodoxas determinadas por cadáveres insepultos que aprisionam as contradições de uma vida tão ilimitada e indiferente à moral do homem quanto a Natureza, com seus desertos e pastos ásperos, secos, intimidadores. Alie-se a este enredo invulgar a seleção de atores capazes de extraírem o melhor e o pior de suas personagens, moldando-os com carne e crânio. Em tempos de banalização da morte, em “Ataque dos Cães” ela se agiganta com substância.

Fotos: Netflix/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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