‘Não Olhe para Cima’ explica o capitalismo moderno através do absurdo

*por Raphael Vidigal

“O capitalismo sobreviveu ao comunismo. Hoje, ele se devora a si mesmo.” Charles Bukowski

Há uma cena exemplar e didática em “Não Olhe para Cima” que explica bem o funcionamento das democracias modernas no mundo ocidental. A presidente dos Estados Unidos, vivida por Meryl Streep, está distraída e não ouve o chamado do bilionário Peter Isherwell, tão infantilizado quanto perverso, na bela atuação de Mark Rylance, e que, dada a sua personalidade, fica irritadiço. A subserviência da presidente ao poder privado demonstra por A + B que há tempos vivemos o que se poderia chamar de estado empresarial. Modernidade.

O governo deixou de estar a serviço do povo para se prestar a uma minoria que o financia, e, obviamente, ameaça caso as suas vontades não sejam correspondidas. No Brasil, o exemplo mais recente está na reforma trabalhista de Michel Temer, que, tutelado pelo empresariado, ascendeu ao poder após a deposição de Dilma. Na Argentina, o povo provocou quebradeiras nas ruas que impediram que a precarização amplamente anunciada do trabalho passasse. Aqui, quase não houve reação, a não ser pelos aplausos. A conversa-mole do “menos direito e mais trabalho” convenceu os incautos e favoreceu os algozes.

Destruição. O mais espantoso é o motivo pelo qual o magnata da tecnologia vivido por Rylance convoca a presidente. Ele decidiu explorar os bilhões de dólares que, em minérios e preciosidades, irão enriquecer a pátria – a dos bilionários. Detalhe: toda essa fortuna virá de um meteoro que corre em direção ao planeta Terra para destroçá-lo, levando embora, inclusive, os humanos. Pasmem – o filho e auxiliar da presidente (Jonah Hill, muito bem no papel, dominando os tempos da comédia) resolve, então, rezar pelas coisas: ele não quer que desapareçam relógios e outras riquezas materiais. Estamos no campo do absurdo. Mas, afinal, não nos é absurdo eleger Trump e Bolsonaro?

Evidentemente que o filme fala diretamente sobre a realidade, abusando do humor cáustico, exagerando na dose? A pensar se o exagero já não dominou o cotidiano. Os programas de TV supostamente parodiados são fichinha perto da imprensa sensacionalista que abarrota o mundo – do Reino Unido às Ilhas Canárias. A regra é viver sob o signo da aparência, da imagem. No melhor estilo filtro do Instagram. Nesse liquidificador de coisas, o longa-metragem dirigido por Adam McKay se vale de alguns recursos que critica para passar sua mensagem. É necessário assimilar e ocupar o mundo pop para ter alguma chance de reversão desse cenário nebuloso de negacionistas brutos, ignóbeis.

Heróis. Quem assume o heroísmo é a dupla de cientistas protagonizada por Leonardo Di Caprio e Jennifer Lawrence. Ele é o intelectual bonitão, que rapidamente é engolido e seduzido pelas facilidades do show business, enquanto ela mantém a independência, com uma postura de rejeição daquele espetáculo de horrores e falsidades, assumindo a postura de uma adolescente gótica. Os dois são ciceroneados pelo chefe da NASA, interpretado por Rob Morgan. Questões de racismo e machismo tão estruturais na sociedade norte-americana como na nossa são mencionadas. É um caldeirão de assuntos do qual o filme dá conta, com a sua proposta cômica de entreter e cutucar a ferida.

Não deixa de estar em cena o militarismo ianque, tão corrupto quanto paspalhão. Mais identificação com o Brasil quando um general se presta ao papel de ridículo, de enganador. Cate Blanchet, Tyler Perry, Melanie Lynskey também oferecem boas atuações, assim como Timothée Chalamet, em um papel menor para seu talento, que parece meio deslocado no conjunto da trama. Ao fim, é um filme com seus méritos e suas qualidades, mas que dificilmente faria tanto burburinho caso não tivesse sido lançado no momento em que o mundo se debate com uma série de absurdos e situações apavorantes, patrocinadas, sobretudo, por seus representantes – ainda que haja um vírus letal, que deveria ser o principal responsável pelo temor do povo.

Fotos: Netflix/Divulgação.

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Email

Comentários pelo Facebook

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade

[xyz-ips snippet="facecometarios"]