Crítica: Falta humor e improviso para a atual geração pop da música brasileira

“…é na intenção que está o supremo encanto (…). Gaitinha de boca bem tocada não é gaitinha de boca. E outra coisa: falta-lhe o poder da sugestão, a graça melancólica do inatingido…” Mario Quintana

pop-musica-brasileira

A atual geração pop da música brasileira me parece de muito “bom gosto”. O que no jargão do alcoólatra é um porre. Como diria Arrigo Barnabé: ao contrário de Lupicínio Rodrigues eles não compõem guarânias. E quando o fazem é com a magnânima humildade do ser que estende os braços aos necessitados. Afinal pertencem à modernidade e ao descolamento dos chicletes de tutti-frutti. Sem nenhuma referência à música de Little Richard ou à banda de Rita Lee. Perto dos antepassados eles são minúsculos.

Assisti ao programa “Som Brasil”, da Rede Globo, apresentado por Patrícia Pillar e dedicado aos artistas contemporâneos, na última sexta-feira. Nos palcos desfilaram estilismos, poses e pretensões. Representantes da cara séria, do ar mais profundo, do roteiro amarrado, do papel neste mundo. Herdeiros daquele blasé de Oscar Wilde, porém sem o brilho o que resta é o tédio. Como disse o outro da herança de Paulo Francis: muitos pegaram a arrogância, mas não há luz nenhuma.

Arrisco a dizer que tem gente botando “chinfra” de reacionário sem a astúcia de Nelson Rodrigues. Vamos e venhamos que o que falta a esta geração, sobretudo, é humor. Ou se sofre de verdade ou ri-se desse sofrimento pagão. Mas sofrer com óculos arredondados e cigarrilha prata? Imperam pasmos, estéreis, bem comportados. Onde está a esculhambação? O deboche? O escárnio? O drible? O improviso? O fora de hora? O inesperado? Porque só se critica o criticável? Por que gostam de tudo e assim misturam?

São uma prova de respeito à diversidade, tudo é legal, bacana, desde o axé ao experimental. Não respeitem. Ouçam o calor e a inteligência de Angela Ro Ro ironizando Carlos Gardel no “Tango da Bronquite”, a irreverência de Eduardo Dussek, o achincalhe de Cazuza no palco, a desafinação, o escândalo, provoquem, pirracem. Talvez o eterno valha mais que o novo. Alguém precisa alertar a estas responsáveis e pouco incoerentes crianças: nada tem importância, muito menos olhos pintados de azul por sobre a barba ruiva.

Cazuza-musica-brasileira

Raphael Vidigal

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15 Comentários

  • Não sei por que botar tanto boneco na MPB… os tempos mudam gente, nunca a música de hoje vai ser igual a do passado. Isso vale para o cinema também. Acho todos esses cantores ótimos. Muito melhores que modinhas sertanejas e o funk do Rio de Janeiro e músicas ”Eletrônicas” e tantas outras que só falam em putaria e que nunca vão levar ninguém a nada… gosto, respeito e admiro os cantores e os filmes do passado, mas também amo filmes e músicas da minha geração. Não considero eles ”sem emoção”, muito pelo contrário. Esses é que serão lembrados no futuro. Esses é que vou dizer: eu estava lá e vi tudo!

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  • Só complementando o que o Andrei disse, que está certíssimo, falta de UM grande nome não é pela constante injeção de gente no meio, e sim pela própria escolha dos ouvintes, que ressaltam, em geral, os fracos. Podem existir N cantores. (muitos com potencial e talento), mas a população prefere a leva dos mais ”fracos”, por várias vezes. E esses, tenha certeza que vão mesmo que estouem, saem do cancioneiro. Quem rege o sucesso é o povo, e esse sim se tornou incompetente para tal função. . O dia que tivermos algum com talento absurdamente melhor, também, certeza de que vai se sobressair também. Não tanto quanto os de modinha, infelizmente, e menos quanto alguns cantores antigamente faziam sucesso.

    Ah, e outra, não sei se já notaram, mas a MPB era a música do povo. Era… O “povão”, em geral, não liga mais pra MPB. A música popular está mais pertencente aos intelectuais, ou à própria elite que aos ”populares”, mesmo. Estes se ocupam em ouvir essas porcarias sem conteúdo musical que ficam no topo das paradas de sucesso. Se continuar assim, MPB vai virar artigo de luxo.

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  • Isso mesmo… o que estamos vendo hoje em dia é que a música de outrora está sendo completamente AVACALHADA por pessoas sem cultura nenhuma, e sem saber, verdadeiramente, o que é música. E que, infelizmente, estão ganhando mais sucesso com suas letras de duplo sentido, que hoje faz um enorme sucesso numa sociedade que só pensa em sexo… Sempre ouvi dizer que “As Crianças são o futuro da nação”, então como será o nosso futuro, se hj em dia, crianças já bebem e já fumam, e escutam essas “modinhas” que são só uma forçada inculturação das músicas de antes… Não quero dizer que, não existam cantores bons, Claro que tem, mas será que eles também buscam a verdadeira música? As músicas atuais é igual a NADA, e como disse um grande Papa da Igreja: “Basta um nada para excitar a paixão dos Jovens”

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  • “… desfilaram estilismos, poses e pretensões.” Raphael, cara, você sabe tuuudo, sério! Tem uma grande clareza de ideias e as expressa com coragem. Tenho orgulho de ser tua “seguidora”… rsss Abs!

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  • Não concordo muito com seu ponto de vista, mas você soube expressar bem seus argumentos e gostei do texto.
    Abraço !

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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