O Humor Romântico de Eduardo Dussek

“Escutar é uma coisa perigosa, sabe. Quem escuta pode ser convencido, e um homem que se deixa convencer por um argumento é uma pessoa completamente insensata.” Oscar Wilde

Dussek-Humor.jpg

Eduardo Dussek é um dos astros do espetáculo “Sassaricando – E O Rio Inventou A Marchinha”, posto em cena, há sete anos, por Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral. O elenco reúne, na atualidade, Inez Viana, Juliana Diniz, Pedro Paulo Malta, Beatriz Faria e Pedro Miranda. Isso porque desde a estréia o musical não saiu mais de cartaz. A recente temporada começou no dia 10 de janeiro e fica até 3 de março. A grande novidade é o local, uma casa de shows reaberta no Rio de Janeiro, o “Imperator”, também chamado Centro Cultural João Nogueira, no Méier, zona norte da cidade.

“O subúrbio foi o principal responsável pela sobrevivência do carnaval de rua”, afirma Dussek, que cita os tradicionais blocos carnavalescos e os conhecidos “clóvis”, palhaços cujo nome teria surgida de uma confusa leitura da palavra em inglês “clown”, tradução literal para os animadores de circo. A experiência tem lhe proporcionado um reencontro com as origens. “Embora tenha nascido em Copacabana, fui criado na Tijuca, e sempre freqüentei carnaval de periferia. Eu adoro aquela animação suburbana, típica das grandes agremiações, escolas, blocos, como o ‘Bafo de Onça’, ‘Cacique de Ramos’, e tantos outros”.

PORTUGAL
Antes de aportar no Méier, “Sassaricando” percorreu plagas internacionais, e chacoalhou confete e serpentina ante os colonizadores brasileiros. “Os portugueses são responsáveis por boa parte da nossa formação cultural, e isso inclui o carnaval e principalmente as marchinhas, egressas da polca e da marcha européia”, afirma. A receptividade em Portugal parece ter sido a melhor possível, como se insinua no caso que Dussek conta: “Cantei ‘Cidade Mulher’ do Noel Rosa, com forte sotaque aportuguesado, e no final troquei a palavra ‘Corcovado’, por ‘Chiado’, bairro cultural de Lisboa. O público veio abaixo!”.

Motivo de orgulho para todos os envolvidos no projeto. Essa não é a primeira vez que a platéia os aplaude de pé. O músico escolhe um culpado para o forte sucesso da empreitada. “Acho que o musical restaura a memória afetiva. Todos, de uma certa forma, tem uma lembrança atávica dos carnavais de infância”. Sobre os próximos passos do show que conclama os espectadores a cantarem, juntos, marchinhas das décadas de 30 até meados de 60, o entrevistado é enfático: “Pelo jeito isso ainda vai longe, nós morreremos, mas o ‘Sassaricando’ fica!”, gargalha.

SÁTIRA
Eduardo Dussek está entre os artistas que não se colocam em compotas. O fato configura inegável êxito para carreira que, mesmo não cedendo a fórmulas prontas, totaliza 30 anos de sucesso e muito trabalho. Advindo do “Teatro do Besteirol”, movimento cênico que instaurou o humor de deboche e escracho na dramaturgia brasileira dos anos 70 e 80, ele se afirma “um palhaço, e como todo tal, também faço música romântica, afinal o circo nasceu na ‘Commedia dell’arte’”. A forma de teatro popular improvisado com início no século XV, na Itália, “mistura de sátira com o canto lírico dos trovadores”, é a sua bússola.

Embora ilimitado, o campo em que sempre transitou manteve certos parâmetros, como aliar humor, música e teatro. Pode parecer penoso definir Eduardo Dussek, afinal cantor, comediante ou ator? “Posso dizer que Lamartine Babo, um dos mais debochados autores que o Brasil já produziu, meu ídolo maior, é um grande compositor romântico!”. Para explicar as próprias raízes de sua arte, Dussek recorre a conhecimentos históricos. “A música popular brasileira nasceu nos becos do Império e início da República e nos teatros musicados de variedades. Nos dois ambientes prevalecia a sátira”.

TRADIÇÃO
Dussek insere-se entre os grandes nomes da “música de gozação brasileira”. Segundo diz, o caminho percorrido por ele teria se iniciado com “Donga, Sinhô, Lamartine Babo, Noel Rosa, Almirante”, passado por “Billy Blanco, Moreira da Silva, Adoniran Barbosa, Juca Chaves”, sido renovado por “Rita Lee, Os Mutantes, Raul Seixas”, além de fartamente usado por sambistas do porte de “Bezerra da Silva e artistas populares como Genival Lacerda, até cair nas mãos dos roqueiros moderninhos da Blitz, Joelho de Porco, Premeditando o Breque, Léo Jaime e Os Miquinhos Amestrados, etc.”

Intérprete aguçado das dores de amores capaz de desembocar em dramalhões que por tanta histeria despertam o riso nos que assistem de fora a história, Eduardo Dussek coleciona atuações no teatro, cinema e televisão, tanto no papel de ator como soltando a inconfundível voz carioca. “Meu primeiro trabalho profissional foi como pianista do Marco Nanini, um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos!”. No currículo, constam os cinco anos na companhia da atriz Camila Amado, onde foi colega de Marieta Severo, André Valli, Wolf Maia e Antônio Pedro.

BESTEIROL
Colaborou, também, com Miguel Falabella, Vicente Pereira, Mauro Rasi e Luis Carlos Góes, que se tornou parceiro nas principais composições musicais, como “Quero Te Beber No Gargalo”, “Folia No Matagal”, “Barrados No Baile” e “Aventura”. Colocadas em alta rotação por vozes de respeito, além da própria, como Ney Matogrosso, o compositor elege o convívio com “esses artífices da comédia nacional”, como base indispensável ao rigor e critério aferidos. “Eles me ensinaram que humor sem fundamento não sobrevive, fica datado e se esvai. É preciso profundidade mesmo, verdade e sentimento”.

Depois de despontar no insipiente cenário do rock nacional que esgueirava a fuça para os refletores na década de 80, principalmente em razão do álbum conceitual “Brega Chique”, e de receber as vaias do intolerante público do ‘Rock In Rio’ em 1985, sendo confortado pelos amigos do Barão Vermelho, como Roberto Frejat e Cazuza, Dussek especializou-se, a partir dos anos 90 e 2000, em compor para trilhas de novelas e filmes. Veio então o convite para aparecer em frente à grande tela do cinema, em 2010, no papel do traficante Beque, em “Federal”, dirigido por Erik de Castro.

CINEMA
Com performance muito elogiada pela crítica, voltou a atuar em 2012, em “Os Penetras”.  “Só uso mesmo meu recurso de ator, que é o da observação e da forma de viver uma personagem, no sentido de estar dentro dessa pessoa imaginária, como se recebesse uma entidade”, compara. Para ele, a principal diferença encontrada em relação às outras atuações reside na necessidade de se “soar minimalista, caso contrário fica exagerado e perde-se qualidade”. A receita do bolo é entregue sem meias palavras. “Faz-se isso estando atento aos seres animais e humanos, muito parecidos entre si”.

Em relação ao gênero que o consagrou, o qual segue defendendo com unhas, dentes, brilhantinas e paetês, Eduardo Dussek, também famoso por sentar-se ao piano trajando smoking e shorts coloridos, assume a importância de sua contribuição e da cantora Maria Alcina, mas com objetiva ressalva. “Ninguém ainda suplantou o João Roberto Kelly”. “Infelizmente as marchinhas pouco aparecem, pois os que detêm o poder, donos de televisão, rádio e jurados de concursos, ou a consideram um produto pouco vendável ou não entendem absolutamente nada de cultura popular”.

CENÁRIO
O cenário atual de divulgação da música produzida no Brasil é outro alvo certeiro para a mira de Eduardo Dussek. Ele considera os “pesquisadores uma raça necessária, mas completamente desprovida de talento para a criação artística”. O preciosismo destes seria um dos entraves para a renovação de conteúdo. “A malícia politicamente incorreta das antigas marchinhas era vestida de muita cultura. Até os anos sessenta e setenta, quando eclodiram os movimentos da Bossa Nova e Tropicália, o Brasil era burro, mas vivia em meio à cultura própria”, alfineta.

A falta de investimento cultural por sucessivos governos teria sido o principal propulsor da queda de qualidade artística do país. “Podemos dizer que respirávamos de maneira errada, mas mantínhamos o fôlego. Hoje nosso povo se alimenta de importações, mistura sertanejo com country, ou relê o hip hop com funk carioca, mas devido à escassa informação genuína, o resultado, na maioria dos casos, é fraco”. Assim como nem tudo são flores no horizonte de Eduardo Dussek, igualmente não só de espinhos vive o homem. “Acho que as marchinhas sobreviverão, mantidas por aparelhos, os blocos de rua”.

DISCOGRAFIA:
1981 – Olhar Brasileiro
1982 – Cantando No Banheiro
1984 – Brega Chique
1986 – Dusek Na Sua
1991 – Contatos
2000 – Adeus Batucada, Eduardo Dussek Sings Carmen Miranda
2009 – O Tao De Dussek
2011 – Eduardo Dussek É Show (CD/DVD)

Eduardo-Dussek-Entrevista.jpg

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 25/02/2013.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

22 Comentários

  • Muito boa a matéria. Só falta um CD nessa discografia que ele lançou em 2009, “O Tao de Dussek”. =)

    Resposta
  • Tô esperando ele voltar em Bauru, no Alameda. Fui 3 vezes, más se vir á Botucatu será bem melhor!!

    Resposta
  • E eu aqui em são Paulo! ai que maldade !!!ve se vem com esse musical pra cá Eduardo Dussek!

    Resposta
  • Discordo meu amigo,pra me convencer tem q ter muito argumento,pois sou muito dificil de se convencida !!

    Resposta
  • demais…a unica coisa ruim é que precisava desse show aqui Ribeirão Preto

    Resposta
  • PORTUGAL, SÁTIRA, TRADIÇÃO, BESTEIROL, CINEMA, CENÁRIO E MUITO HUMOR, fazem de Eduardo Dussek um dos artistas mais queridos do Brasil, encantando por onde passa, a cada ano, mais e mais!
    NÃO DEIXEM DE LER A ENTREVISTA FEITA POR Raphael Vidigal, ao “Hoje em Dia”, está excelente com características marcantes do nosso ídolo!

    Resposta
  • Caríssimo Raphael saudações pos carnavalescas
    Quero lhe pedir desculpas por esse enorme atraso na entrega da entrevista, que era para o carnaval, obviamente. Mas, em minha defesa, devo dizer que fui vitima de verdadeiras tissunamis e avalanches de trabalho, insanas nestes dois meses que não permitiam de maneira ditatorial terminar trabalho a tempo de ser publicado antes do Carnaval.

    Embora ache que talvez sua editoria propria não ache mais sentido em publica-la, o que compreenderei, eu resolvi terminar a parte principal e envia-la mesmo assim
    Ocorre que você é uma pessoa inteligentissima e mandou muito bem nas perguntas,que exigiam respostas inteligentes e completas. O que fazer se não há mais espaço fisico pra esse tipo de preciosismo na vida vuilgar que levamos? rsrsrs
    O que se deve de fazer é: lutar contra a corrente e responder com categoria mesmo assim!!!
    Foi o que eu tentei fazer: dar respostas à altura de sua entrevista proposta. Eu respondi 70% das perguntas, foio o que consegui fazer, espero que vc goste. Virou um verdadeiro tratado nossa parceria!!!!! rsrsrs ( …que acredito poderemos aproveitar mais tarde em outras publicações. Eu lhe consulto, caso isso aconteça.
    Prometo no futuro acabar de responder à tudo
    Não deixe de me avisar, caso ela seja publicada, ok? … e deixe contatos para futuras “parcerias” Adorei seu talento jornalistico
    abraços
    EDUARDO DUSSEK

    Resposta
  • DEAR AMIGO RAPHAEL…ADOREI A MATERIA. PRESTA UM BOM SERVIÇO À MPB. E POR TABELA, À MINHA CARREIRA E AOS FAS. VC SOUBE SINTETIZAR MUITO BEM MINHAS PROLIXAS FILOZOFADAS!! rsrsr GRATO AMIGO
    PARABENS PELO “ESQUINA” E PARABENS AO HOJE EM DIA, SEMPRE BOM
    ABS A TODOS
    EDUARDO DUSSEK

    Resposta
  • O Dusek é ótimo! Fui ver o Sassaricando. Ele arrasa. E canta muito tb! sem dúvida!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade