Bizet (Música clássica)

“e das profundezas da escadaria subia um sopro úmido e obscuro.” Albert Camus

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Bizet! Bizet! O músico pula no rio Sena e ninguém o ouve…no entanto uma voz suspirando, abafada, toca no ouvido do compositor como as correntes de Carmen. A cigana do romance levado ao palco não recebera aplausos, nem recebera vaias. Agora a indiferença do músico que se afoga e ninguém o ouve. A cigana afaga de leve seus torneados joelhos por baixo das ceroulas.

Bizet! Bizet! Grita a mãe do músico no leito de morte. Como Dom José, rejeitado, o músico largou as troças, traças e túnicas, todo o ouro de Salvador Dalí, outro espanhol ilustre do mundo dos sonhos (Muito embora o retratado seja da França), para velar a morte. Varar a noite, arder de açoite, as costas da cigana Carmen, morenas e nuas, queimam no chicote do toureiro e os chifres de boi. O sacrifício azul em sangue de prata corre.

Os chamados cessaram. Já ninguém o chama. Ninguém o ouve. Ninguém comove. Ninguém inflama o desperdício de tempo do músico afogado nas águas do rio Sena. Talvez porque ele não tenha morrido ainda. Está deitado, agora, em seu leito. Sua em 33º de febre. Um pano cobre-lhe a testa, ao lado, no criado-mudo, além do termômetro vê-se a partitura de Carmen. Cigana traidora. Responsável por sua morte.

Bizet está morto. Foi enterrado sem muito requinte nem crueldade, faltou-lhe pompa e circunstância. Como um qualquer, Bizet descansa. Ainda é hora de encontrar a prima amada, filha de seu mecenas, o Messias duma empreitada que não deu certo. A psicótica esposa sibila para o amante enviesada, cheia de ódio e cobrança. “Bizet falhou, Bizet falhou”, gralha. O músico não deu em nada. O homem está morto.

Por alianças tortas, mal calculadas, a ópera de Carmen alcançou o topo, fama, glória. Mas Bizet está morto. De que adianta o vôo do pássaro sem quem lhe soltou da gaiola? Adianta tudo. Bizet está morto. Azar, oras! Na natureza o que é do povo a ele volta. O que é do fogo, a ele esmola. O que é da nuvem, ajoelha e implora, uma chuva, mesmo ácida, mesmo de cetim, até mesmo com os restos e trapos duma cigana pecadora.

O toureador voltou à cena, ele não canta grosso, se ao menos impostasse a voz. Nem isso. Falta. Calma. Ingrata. Bizet teve uma vida ingrata. Casou-se. Teve filha com a empregada. Velou a mãe. Velou a esposa. Velou a amante. Quem velará por sua alma desapropriada? Bizet pertence ao povo. E sua ópera ressoa, ecoa, corvo, abutre, urubu, condor, Carmen. Dança recolhendo os vidros picados e presos na sola do pé enfermo.

Georges Bizet – Compositor de música clássica (Paris, 1838 – 1875). Autor da célebre ópera “Carmen”, apresentada com êxito, após sua morte, ao redor do mundo. Também transposta para o cinema, em filme de Carlos Saura, além de outras versões. Compôs peças operísticas, sinfônicas, para piano solo e alguns outros instrumentos.  Foi um dos mais brilhantes alunos do Conservatório de Paris. 

Raphael Vidigal

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  • “Por alianças tortas, mal calculadas, a ópera de Carmen alcançou o topo, fama, glória. Mas Bizet está morto. De que adianta o vôo do pássaro sem quem lhe soltou da gaiola? Adianta tudo. Bizet está morto. Azar, oras! Na natureza o que é do povo a ele volta. O que é do fogo, a ele esmola. O que é da nuvem, ajoelha e implora, uma chuva, mesmo ácida, mesmo de cetim, até mesmo com os restos e trapos duma cigana pecadora.”

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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