Crítica: A vida de Teresa D’Ávila ganha o palco do CCBB BH

“Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.” Adélia Prado

Ana Cecília Costa e Joca Andreazza na peça "A Língua em Pedaços"

No ano passado, a atriz Ana Cecília Costa teve o insight de levar aos palcos brasileiros um pouco da vida e da obra da espanhola Teresa D’Ávila (ou Santa Teresa de Jesus – 1515/1582). O que ela descobriu, na seqüência, é que esse, digamos assim, “chamado”, acontecia justamente às vésperas das comemorações alusivas aos 500 anos de nascimento da poetisa e freira, canonizada em 1622 pelo papa Gregório XV. Uma coincidência “pra lá” de feliz, portanto. “A Língua em Pedaços”, espetáculo baseado no texto (inédito no Brasil) do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, sob a direção do competente Elias Andreato, chega agora ao CCBB BH (Circuito Cultural Praça da Liberdade), cumprindo temporada até início de setembro. Em cena, Ana Cecília mostra o embate entre a religiosa e um inquisidor, apresentado como “arauto da poderosa Igreja Católica no final da Idade Média, e que a acusa de heresia” e interpretado por Joca Andreazza (que substituiu Marco Antônio Pâmio, da montagem original). A estreia, na quinta-feira, 11, foi dedicada à memória do cantor e compositor mineiro Vander Lee, falecido (precocemente) há pouco mais de uma semana.

Em cerca de uma hora de espetáculo, os dois atores defendem com galhardia seus personagens, que se localizam no primeiro monastério que abrigou a nova ordem fundada por Teresa, a das Carmelitas Descalças. Como num duelo no qual as armas são as palavras, os dois apresentam seus argumentos, em falas que, ainda que não sejam didáticas, fornecem ao espectador um repasse dos acontecimentos que levaram Tereza a romper com a ordem – Carmelo da Encarnação – em cujo claustro até então vivia. A relação com os pais, o apreço aos livros, o grave problema no coração (na verdade, consta que ela teria tido malária) que fez com que procurassem ajuda junto a defensores de práticas abominadas pela Igreja e seu desapreço ao material, são alguns dos momentos colocados em revista, assim como sua polêmica visão de Jesus.

O texto é caudaloso, mas há uma fluência, e o espectador não se sente atordoado ou mesmo cansado – contribui para isso o fato de não se tratar de um espetáculo estendido além do necessário. Interessante notar que as questões pontuadas pela peça permanecem pertinentes porque são, de fato, atemporais no sentido de estarem atavicamente ligadas à história da humanidade. A rejeição diante do novo, do que afronta o establishment, por exemplo. Ou a intolerância frente ao que pensa de modo diverso. Não bastasse, a colocação do papel da mulher na sociedade reverbera nós ainda não desatados na contemporaneidade. E há frases lapidares de Teresa acerca deste tema que tanto suscita interesse em tempos nos quais “empoderamento” é palavra de ordem.

Há, na montagem, um ou outro aceno para o riso, que encontra respaldo naqueles que procuram, mesmo no teatro dito mais sério (digamos assim), esse espaço. Mas trata-se de algo discreto, que não chega a atrapalhar o incitamento à reflexão que o texto propõe, super-pertinente aos dias atuais, nos quais a intolerância e o extremismo dão as caras nas sociedades ocidentais e orientais. A iluminação e figurinos são acertados, e dignos de nota. O cenário cumpre com competência a proposta de se coadunar com o que é levado em cena.

Mentora da empreitada, Ana Cecília, 45 anos, é uma atriz cujo belo rosto já foi visto em novelas (como “Joia Rara” e “Cordel Encantado”), sem, no entanto, ter suas feições prontamente atreladas à TV, o que se configura como um ponto positivo. É notável sua entrega à personagem, a paixão pelo que se propôs a fazer. Certamente, um dos motivos de a empreitada ter sido bem recebida nos locais por onde já passou, como São Paulo e Brasília.

Serviço
“A Língua em Pedaços”
Texto de Juan Mayorca
Direção: Elias Andreato. Com Ana Cecília Costa e Joca Andreazza.
CCBB BH (Praça da Liberdade). Até 5 de setembro, de quinta a segunda-feira, às 20h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada, para categorias previstas em lei)

Espetáculo reconta trajetória de Santa Teresa D'Ávila

Patrícia Cassese – Convidada especial do blog Esquina Musical

Fotos: Laércio Luz/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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