Carmélia Alves (Cantoras brasileiras)

“Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida.
Um som d’água ou de bronze e uma sombra que passa…” Eugénio de Castro

Rainha do Baião

Por ser carioca, Carmélia Alves, uma menina criada em Petrópolis, no interior do estado, apareceu para os holofotes da Rádio Nacional, a mais famosa da década de 40, onde conseguira contrato, cantando sambas e imitando Carmen Miranda.

Sinceramente, o sucesso foi escasso. Não que o repertório fosse fraco, nem que Carmélia Alves não possuísse traquejo, talento, faro. Bem, talvez desse último pudéssemos considerá-lo, em parte.

No início Carmélia Alves engajou-se a reproduzir o que se ouvia na maravilhosa cidade, o que se pedia, o que era tátil. No entanto, como Luiz Gonzaga, um pernambucano de Exu cismado em tocar no acordeom fox e trotes e valsas e samba-canção, foi olhar para o próprio umbigo que Carmélia desvendou a questão.

Carmélia era carioca, sim. Mas filha de pais nordestinos. Pai cearense, mãe baiana. O que lhe corria no sangue era algo recém inventado, ousado, novo. Rei do baião, inventor, ninguém melhor do que ele, que simbolicamente trocara o acordeom pela sanfona, para coroar a rainha. E a escolhida por Luiz Gonzaga foi Carmélia Alves.

Com o epíteto colado ao nome, Rainha do Baião, a cantora morena, de voz cintilante, alternando agudos e graves, desfilou pelas passarelas do sul músicas compostas por Hervé Cordovil (Sabiá lá na gaiola, Cabeça inchada), Roberto Martins (Coração magoado), Ary Kerner (Trepa no coqueiro), e, claro, Gonzagão (Juazeiro, Asa Branca, Paraíba), além de dedicar álbum às canções dos ritmistas Jackson do Pandeiro e Gordurinha, esse último um satírico compositor de verve regionalista – autor de “Chiclete com banana” e “Súplica cearense”.

Não há como negar que nos últimos anos Carmélia, descobridora do instrumentista Sivuca (morto em 2006 aos 76 anos), não era mais ouvida, mesmo antes da derradeira despedida dos palcos, em último voo de andorinha no qual se arvorou a interpretar êxitos de outrora com o legítimo grupo “As Eternas Cantoras do Rádio”, acompanhada de Ademilde Fonseca, a Rainha do Choro, que também se foi esse ano em 27 de março, Ellen de Lima e Violeta Cavalcante.

A subtração de mais um nome do clã das rainhas da música brasileira fulmina de dor, saudade e tristeza essa melodia, e porque não dela nascer a beleza? Lembrar a menina a cantar com malícia e sotaque as entonações da terra? Se é do choro que nasceu o samba e da necessidade cresceu o baião, temos a oportunidade de reverenciar, na morte, uma voz intocável de vigor e vida.

cantora Carmélia Alves

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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