Opereta: A Viúva Alegre

“Jamais deves buscar a coisa em si, a qual depende tão somente dos espelhos. A coisa em si, nunca: a coisa em ti.” Mario Quintana

Opereta Franz Lehár

A dúvida se impõe logo de cara: “A Viúva Alegre”, direção geral de Jorge Takla e musical de Silvio Viegas, é ópera ou teatro? O dever dos definidores já nos favoreceu e impediu o prosseguimento dessas perguntas insossas.

Trata-se de uma “opereta”, misto de apresentação onde estão reunidas as matizes de um e outro, pois os atores se dividem entre o canto e a dramaturgia, e a língua encenada pode ser a nativa. Além disso vislumbra-se os figurinos de Fabio Namatame e a cenografia de Paulo Corrêa, curvilíneas e ordeiras.

Acontece que neste momento estou sozinho no auditório amplo do Palácio das Artes, remoendo dúvidas, ressentimentos, observações amorosas. Então entro atrasado, a montagem começou, e passo na frente de todos atrapalhando olhares curiosos.

Não é a mim que eles querem ver, mas ao desfecho trágico da história de amor, cobiça, ciúme, ódio, entre uma rica donzela de vermelho e um incurável galã de bigode preto. Inverto a intenção dos autores, Victor Léon e Leo Stein: na verdade isto é cômico, prova a tradução de Millôr Fernandes.

O casal canta primorosamente, Hanna e Conde Dánilo, vivido por Homero Velho, pois me acalma o coração aflito, apreensivo, esperançoso. Há uma esperança. Notaram como os assuntos vão direto aos nossos ensaios (anseios)?

Todos queremos amor, mas ás vezes plantamos ódio, repelimos o ciúme, ao cobiçarmos a fortuna alheia, e, afinal, é um clássico, não? Aí está o embriagar comum, reles, banal, mesquinho de sermos tão iguais em auspiciosas questões.

Livrei-me do pessoal e colo-me agora ao trabalho de artistas: Cássio Scapin salta às têmporas, com o humor lúdico e caricatural do serviçal Njégus (uma ode à homossexualidade reprimida), Rosa Lamosa é a protagonista a melhor transitar por canto e carma, os demais são mesmo nada críveis liricamente, levam-nos dengosos a conhecer fantasias matreiras, sestrosas, ao passo em que pecam de leve na interpretação avulsa.

Reservo um parágrafo especial a Carla Cottini, no esplendor de uma Valencienne bela e malévola, condensando sensualidade, graça, antipatia, descaso, com inegável torpor para quem a assiste. Perfeita. Fabulosa. Força da natureza numa mulher em viço e volume de saia rodada e pernas de fora. Simplesmente apaixonante o seu desempenho.

Escândalos daquela sociedade francesa a repercutir hoje, com a força dum bumbo firme, um tiro seco, na brasileira, como as traições matrimoniais, a pureza moral advinda da virgindade física, as veias e os desvios para se chegar aos meios, não importa o fim, lá estão, intactas, as mesmas.

Percebo sem repreensão ao texto a falta do fundamental: o fundamento dos antigos: herança nossa: música. A música de Franz Lehár é, na sombra das canções, a safira a amainar a dor no meu órgão bombeando sangue: verde e imaturo.

Cantemos!

Clássico de Franz Lehár

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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