As 36 melhores músicas de Elis Regina, a maior cantora do Brasil

*por Raphael Vidigal

“O amor, conforme acreditava, devia chegar de repente, com grandes tumultos e fulgurações – furacão dos céus que desaba sobre a vida, transtorna-a, arranca as vontades como folhas e arrasta o coração inteiro para o abismo” Gustave Flaubert

Não é preciso muito para compreender que Elis Regina (1945-1982) é a maior cantora brasileira de todos os tempos: basta ouvi-la. Nascida em Porto Alegre, a gaúcha morreu aos 36 anos, vítima de uma overdose de álcool e cocaína. O disco “Tom & Elis”, de 1974, é considerado pelo crítico musical Hugo Sukman como “uma homenagem da nossa maior cantora ao nosso maior compositor”. Em 2020, a baiana Illy lançou o álbum “Te Adorando Pelo Avesso”, homenagem a Elis. Selecionamos 36 músicas antológicas da intérprete, cujo temperamento forte lhe rendeu o apelido de “Pimentinha”, e que deixou, ao longo da intensa carreira, 25 discos de estúdio e ao vivo, registrados entre os anos 1961 e 1982.

“Fascinação” (valsa, 1905) – Fermo Dante Marchetti e Maurice de Féraudy
Escrita em 1905 por Fermo Dante Marchetti e Maurice de Féraudy, a valsa francesa “Fascinação” rodou o mundo e se tornou uma das mais populares de todos os tempos. Em 1943, recebeu uma versão em português criada por Armando Louzada e gravada no mesmo ano por Carlos Galhardo em companhia de sua orquestra. O cantor ficaria conhecido como o “Rei da Valsa”. Três décadas depois, em 1976, Elis Regina a resgatou para o espetáculo “Falso Brilhante”, em uma interpretação arrebatadora. A música entrou para a trilha da novela “O Casarão” e recebeu as versões de Nana Caymmi e Ney Matogrosso.

“Na Batucada da Vida” (samba, 1934) – Ary Barroso e Luiz Peixoto
O Flamengo foi o primeiro time a ter seus gols comemorados no rádio através de uma gaita. Invenção do fanático Ary Barroso, que não se preocupava em disfarçar o amor pelo clube. Fazia de tudo: invadia o campo, xingava o juiz e até recusava propostas de se mudar para o exterior, sob a alegação: “Lá não existe Flamengo de Futebol e Regatas”. Anos mais tarde, em 1960, ele se tornaria vice-presidente do departamento cultural e recreativo do clube. Nascido desse estilo acalorado, tomou forma um samba que teve na passional Elis Regina a sua intérprete mais festejada. A música foi lançada por Carmen Miranda em 1934 e regravada por Dircinha Batista em 1950, com acompanhamento de Ary Barroso ao piano. “Na Batucada da Vida” relata as batalhas de uma mulher destemida.

“Aquarela do Brasil” (samba-exaltação, 1939) – Ary Barroso
Lançada por Araci Cortes no teatro de revista, em junho de 1939, a música só se destacou um mês depois, quando voltou a ser apresentada, desta vez pelo barítono Cândido Botelho, no espetáculo “Joujoux e Balangandãs”. A primeira gravação em disco foi feita pelo cantor Francisco Alves, acompanhado por uma orquestra que executava o arranjo de Radamés Gnattali. Daí por diante, nomes como Sílvio Caldas, Carmen Miranda, Tom Jobim, Gal Costa, João Gilberto, Caetano Veloso, Bing Crosby e Frank Sinatra a regravaram. Durante a ditadura militar, Elis Regina interpretou a versão mais sombria da canção, acompanhada por um coral que reproduzia os cantos dos povos indígenas do Brasil.

“É Com Esse Que Eu Vou” (samba, 1948) – Pedro Caetano
Pedro Caetano nunca foi compositor, pelo menos era isso o que a formalidade lhe falava. Ele manteve seu lar com o dinheiro dos calçados e vestidos que vendeu por toda a vida, só aparecendo de corpo e alma para gravar um disco aos 64 anos. Mas a essa altura suas músicas já eram cantadas por muitos outros, sempre com popularidade. “É Com Esse Que Eu Vou” conclama o espírito carnavalesco a pisar na avenida sem distinções de raça ou classe. Uma festa que começou no caderninho de Pedro Caetano durante uma viagem de trem de Vitória para Belo Horizonte, passou pelas vozes dos Quatro Ases e um Coringa e chegou até Elis Regina, regravando-a 25 anos depois do lançamento.

“Exaltação a Tiradentes” (samba-enredo, 1949) – Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado
“Exaltação a Tiradentes” nasceu de um sonho do sambista Mano Décio da Viola, que agregou, aos versos recebidos durante a noite, outros propostos por Estanislau Silva e Penteado. Antes da consagração, Décio e Silas de Oliveira haviam oferecido três sambas com o mesmo tema para a Escola de Samba do Império Serrano. Passada a frustração, a música foi cantada na avenida em 1949, mas só chegou ao disco em 1955, na gravação de Roberto Silva. Outros intérpretes não menos tarimbados a registraram posteriormente, dentre os quais Jorge Goulart, com seu vozeirão, e a irrepreensível Elis Regina, além de Maria Creuza, Cauby Peixoto e Mestre Marçal. Pioneiro, como o seu inspirador, é considerado o primeiro samba-enredo a ultrapassar os limites carnavalescos.

“Vida de Bailarina” (samba-canção, 1954) – Américo Seixas e Chocolate
Atuando no programa “A Praça da Alegria”, o músico Chocolate ficou mais conhecido como comediante. Apesar disso, ele criou canções que fizeram muito sucesso, como “Canção de Amor”, parceria com Elano de Paula lançada por Elizeth Cardoso, e “Vida de Bailarina”, feita com Américo Seixas para Angela Maria, que se tornou um enorme sucesso no ano de 1954. Fã confessa de Angela Maria, a gauchinha Elis Regina regravaria a música dezoitos anos depois, em 1972, no famoso álbum em que ela aparece na capa sentada em uma cadeira. Ao repetir o êxito, a música também se tornou marcante com Elis.

“Iracema” (samba-canção, 1956) – Adoniran Barbosa
Dono de um estilo único que associou o chamado samba paulista eternamente à sua figura, Adoniran Barbosa (1910-1982) foi um dos mais importantes compositores da música brasileira. Além de imprimir o sotaque, em parte caipira, em parte italiano, com o uso de expressões corriqueiras e gírias da região, Adoniran tinha ainda outra qualidade única: era capaz de, com uma só tacada, apreciar drama e comédia na mesma frase. O melhor exemplo desse talento certamente aparece em “Iracema”, samba de 1956 que conta o trágico acidente que levou à morte a esposa do viúvo que canta a música. A interpretação dramática para essa obra veio com Elis Regina, quando a canção já estava consagrada pelos Demônios da Garoa. Adoniran também a regravou.

“O Morro Não Tem Vez” (samba, 1964) – Tom Jobim e Vinicius de Moraes
“O Morro Não Tem Vez”, samba de andamento diferenciado, foi lançado no álbum “O Samba Como Ele É”, mas só alcançou reconhecimento quando Jair Rodrigues o cantou em dueto com Elis Regina no LP “Dois Na Bossa”, de 1965, acompanhados pelo Jongo Trio num pot-pourri que reunia ainda “Feio Não É Bonito” (de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri), “Samba do Carioca” (de Lyra e Vinicius de Moraes), “Este Mundo É Meu” (de Sérgio Ricardo e Ruy Guerra), “A Felicidade” (de Tom Jobim e Vinicius) e muitas outras canções de sucesso. Composta pela dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes, a composição chegava ao Brasil junto com o nefasto regime militar, que perduraria vinte anos, até 1985.

“Amor Até o Fim” (samba, 1966) – Gilberto Gil
Na década de 1960, Elis Regina foi convidada para apresentar, com Jair Rodrigues, o programa “O Fino da Bossa”, na TV Record de São Paulo. O sucesso da atração rendeu três discos que repetiram o êxito da empreitada, intitulados “Dois na Bossa”. Ao estrear a série, Elis e Jair tornaram-se detentores do primeiro disco da música brasileira a ultrapassar a barreira de um milhão de cópias vendidas. Num desses álbuns, a dupla interpretou “Amor Até o Fim”, samba entusiasmado de Gilberto Gil, um novato compositor baiano que, em breve, se destacaria com a Tropicália. Elis regravou a música em 1974 e também a cantou em um dueto descontraído com Gal Costa, conterrânea de Gil.

“Corrida de Jangada” (baião, 1967) – Edu Lobo e Capinam
No mesmo ano, entusiasmados com o sucesso de “Ponteio”, Edu Lobo e Capinam deram continuidade à parceria, que rendeu pérolas como “Cirandeiro”, “Viola Fora de Moda”, “Limite Fora das Águas” e “Rosinha”. Uma, no entanto, se destaca entre todas estas por ter recebido a prevalência de ser lançada por uma cantora da tarimba de Elis Regina. Em 1967, a gauchinha entregou toda a energia e técnica de sua voz para “Corrida de Jangada”, outro baião estilizado pela dupla de compositores. “Meu mestre deu a partida/ É hora, vamos embora”.

“Lapinha” (afrosamba, 1968) – Paulo César Pinheiro e Baden Powell
Valdemar de Tal ficou conhecido na Bahia como Besouro e também Cordão de Ouro, graças à sua valentia e habilidade como capoeirista. Figura lendária, ele inspirou o afrosamba “Lapinha”, que Baden Powell compôs com o, à época iniciante, Paulo César Pinheiro, um dos mais requintados letristas da música brasileira. Besouro foi assassinado por um golpe de faca, e seu nome correu ainda mais forte na Bahia a partir de sua morte. “Lapinha” fala sobre a passagem do herói para lenda. Lançada por Elis Regina na 1ª Bienal do Samba, promovida pela TV Record, venceu o concurso. A “Lapinha” da letra seria um local de festas.

“Madalena” (MPB, 1970) – Ivan Lins e Ronaldo Monteiro
Ivan Lins fazia parte do MAU (Movimento Artístico Universitário), que, durante a resistência cultural à ditatura reunia futuros astros da música popular brasileira, casos de Gonzaguinha, Aldir Blanc e César Costa Filho. Esse grupo se reunia na casa do psiquiatra Aloísio Porto Carreiro e de sua esposa Maria Ruth. Foi lá que surgiu “Madalena”, um samba com toda a pinta de MPB, composto por Ivan Lins e Ronaldo Monteiro. Atenta às novidades, Elis Regina logo pescou a pérola e gravou a música em 1970, que recebeu um arranjo especial de Chiquinho de Morais, com destaque para o toque de seu piano. “Oh Madalena, o meu peito percebeu/ Que o mar é uma gota/ Comparado ao pranto meu…”, interpreta Elis.

“Black Is Beautiful” (música soul, 1971) – Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle
Em plena ditadura militar no Brasil, no ano de 1971, os irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle lançaram um hino à beleza e força dos negros. Para tanto, fizeram uso de um dentre os inúmeros ritmos identificados com a causa, a “soul music”. Neste mesmo ano, Elis Regina, como era de costume ao interpretar qualquer canção, acrescentou ainda mais charme e vigor à música. “Black Is Beautiful” reage com indignação e coragem a todo o histórico de discriminação contra os negros, aos estereótipos e condições petrificadas pela escravidão, e ainda arremata com versos de erotismo e sensualidade pungentes: “Eu quero um homem de cor/ Um Deus negro/ Do Congo ou daqui/ Que se integre no meu sangue europeu…”.

“Casa no Campo” (rock rural, 1972) – Zé Rodrix e Tavito
Durante uma viagem de ônibus pelo interior de Goiás, Zé Rodrix escreveu, em uma folha perdida de papel, o poema que daria origem à canção “Casa no Campo”. Os versos foram entregues para Tavito, acompanhados de uma melodia sugerida. Quando escreveu a letra, Zé Rodrix contemplava a paisagem através da janela do ônibus, enquanto pensava que sua esposa Lizzie estava grávida e, em breve, ele seria pai. No hotel, Tavito venceu o tédio dedilhando ao violão a melodia da música que se consagraria em 72, lançada por Elis Regina. “Eu quero uma casa no campo…/ Onde eu possa compor muitos rocks rurais…”.

“Águas de Março” (bossa nova, 1972) – Tom Jobim
Por sua sofisticação melódica, pela inteligência dos versos e agilidade da interpretação, “Águas de Março” é um ícone da canção brasileira de todos os tempos, mas, sobretudo, pelo sentimento inebriante que transmite, pela sensação de algo novo e renovador. A função das chuvas que trazem “promessa de vida no teu coração” não poderia ser representada de maneira mais feliz por Tom Jobim, autor da letra e da melodia, e Elis Regina, que, ao cantar em dueto com o maestro, contribui para dar novos contornos à canção. Escrita inicialmente num pedaço de papel de pão, pela ausência de outros recursos, “Águas de Março” anuncia, numa análise mais minuciosa, o triunfo da vida sobre a morte, a importância fertilizante das águas, da chuva, para o recomeço. “São as águas de março fechando o verão…”.

“Bala com Bala” (MPB, 1972) – João Bosco e Aldir Blanc
Poderia ser um choro clássico, dada a velocidade imprimida à música, não fosse a assinatura singular da dupla João Bosco e Aldir Blanc. “Bala com Bala” é, até hoje, um desafio para qualquer intérprete, encarado com domínio e desenvoltura por ninguém menos do que Elis Regina, que lançou a canção em 1972, no LP “Elis”. Naquele mesmo ano, Bosco e Blanc estrearam a parceria com “Agnus Sei”, gravada na primeira edição do Disco de Bolso, semanário do jornal O Pasquim que, do outro lado, trazia simplesmente “Águas de Março”, de Tom Jobim. Voltando a “Bala com Bala”, a música capta o instante de uma sessão de cinema e a felicidade do espectador diante daquele momento de ilusão, que logo será findo. Depois da gravação magistral de Elis, foi regravada por João Bosco.

“Folhas Secas” (samba, 1973) – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
No ano de 1973, lembrando com nostalgia sua mocidade, Nelson Cavaquinho compôs ao lado do parceiro, Guilherme de Brito, a essencial “Folhas Secas”, que prestava uma homenagem à querida Estação Primeira de Mangueira, onde ele conhecera o samba que o levaria por toda a vida. A música foi alvo de uma polêmica jamais resolvida entre Elis Regina e Beth Carvalho, que a lançaram no mesmo ano. Inicialmente dada para Beth gravar, foi levada pelo arranjador César Camargo Mariano para Elis. O resultado foram dois registros belíssimos para a música brasileira e uma desavença severa entre as duas intérpretes.

“Atrás da Porta” (MPB, 1972) – Chico Buarque e Francis Hime
Entre os inúmeros talentos de Chico Buarque, um que lhe costuma garantir elogios entusiasmados é a capacidade de calcar letras segundo o ponto de vista feminino. É o caso da dolorida canção “Atrás da Porta”, parceria com o não menos talentoso Francis Hime, gravada em 1972 por Elis Regina com a devida emoção. É difícil encontrar na história da música brasileira um registro mais dilacerador do que aquele de Elis dando voz a “Atrás da Porta” no palco, sem conseguir conter as lágrimas que derramam-se de seus olhos. Melodia, letra, interpretação, tudo contribui para elevar “Atrás da Porta” a um clássico da MPB.

“Joana Francesa” (MPB, 1973) – Chico Buarque
Dando um salto temporal na história, Chico Buarque provou a sua exímia habilidade poética com “Joana Francesa”, canção de 1973 feita sob encomenda para o filme de mesmo nome dirigido por Cacá Diegues e protagonizado pela estrela francesa Jeanne Moreau. A trilha ainda conta com interpretações de Fagner e Nara Leão. A narrativa passional da letra entremeia prazer e dor da mesma forma com que amalgama o português ao francês, em versos preciosos. Elis Regina a cantou em disco lançado em 1979, à sua revelia, pela Polygram, após uma saída conturbada da gravadora. Alcione e Angela Ro Ro a regravaram.

“Meio-de-campo” (samba, 1973) – Gilberto Gil
Em 1973, Gilberto Gil homenageia o jogador Afonsinho, habilidoso meia do Fluminense que tinha uma combativa postura contra a ditadura militar instaurada no Brasil desde 1964. Voltando do exílio imposto pelos militares em Londres, no ano de 1972, Gil mistura, com a habitual inteligência, versos que fazem referência tanto ao esporte como ao momento político vivido, além de reflexões existenciais. Lançada com sucesso por Elis Regina no álbum “Elis”, a bordo de um instrumental de primeira, a música faz referência a outros ídolos dos gramados, como o Rei Pelé, atacante do Santos, e Tostão, do Cruzeiro, dois importantes nomes na conquista, pela Seleção Brasileira, do Tricampeonato Mundial no México três anos antes, em 1970. Também foi regravada pelo autor em seu álbum de 1973, “Cidade do Salvador”, e, anos depois, com o acompanhamento de Dominguinhos.

“Cabaré” (MPB, 1973) – João Bosco e Aldir Blanc
Elis Regina é até hoje considerada por muitos a maior cantora brasileira de todos os tempos. Neste veredito aliam-se diversos fatores. Além da técnica apurada, do domínio de voz, gestos, da interpretação teatral e da entrega sem precedentes no palco, Elis sempre foi uma cantora ousada, inovadora, que buscava temas fortes e compositores novos. Graças a essa intenção, ela descobriu e selecionou, para o álbum de 1973, uma música do aspirante e já admirado por ela, João Bosco, em parceria com o veterano poeta Aldir Blanc. “Cabaré”, também gravada por Célia em outro registro primoroso, atina-se ao que há de obscuro e desconhecido em cada ser humano, esse enigma que, talvez, seja o grande responsável pela sedução, nas palavras de Milan Kundera, escritor tcheco de “A Insustentável Leveza do Ser”, a “promessa sem garantia”.

“Dois Pra Lá, Dois Pra Cá” (bolero, 1974) – João Bosco e Aldir Blanc
Nas décadas de 1940 e 1950, o principal gênero estrangeiro a dominar as rádios brasileiras era o bolero, vindo diretamente do México e com influência direta sobre o samba-canção. O projeto de dominação cultural norte-americana em breve se apropriaria do samba e de Carmen Miranda para reverter essa história. Prestando tributo ao bolero, João Bosco e Aldir Blanc compuseram “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”, que, ao mesmo tempo, tirava sarro dos habituais derramamentos do gênero. Com habilidade única, Blanc consegue levar, para a letra, a elegância de um universo pautado pelas paixões lancinantes. Nunca, na música brasileira, alguém soube utilizar tão bem a palavra band-aid, no improvável verso “e a ponta de um torturante band-aid no calcanhar”. Ao lançar a música, em 1974, Elis Regina também deu a sua parcela de contribuição. A intérprete acrescentou, ao final da letra, versos em espanhol do bolero “La Puerta”, sucesso do cantor chileno Lucho Gatica, que teve regravações de Altemar Dutra e Nana Caymmi.

“Caça à Raposa” (MPB, 1974) – João Bosco e Aldir Blanc
Formada pelo mineiro de Ponte Nova, João Bosco, e o carioca da gema, Aldir Blanc, essa dupla fez história na música popular brasileira. Dentre tantos sucessos, algumas preciosidades escaparam desse rol. Um exemplo é “Caça à Raposa”, que deu título ao disco de Bosco de 1975, lançada um ano antes por Elis Regina, intérprete soberba. Com a perspicácia de Blanc, a letra narra uma caçada à raposa sem citar o animal que, em 1945, foi adotado como mascote do Cruzeiro em alusão à astúcia do então presidente do time celeste, Mário Grosso.

“O Mestre-Sala dos Mares” (samba, 1975) – João Bosco e Aldir Blanc
João Cândido Felisberto, conhecido como “Almirante Negro”, foi um militar da Marinha Brasileira que, em 1910, liderou a Revolta da Chibata, movimento que se rebelou contra os cruéis castigos, originários da época da escravidão, que continuavam a ser aplicados contra os marujos negros, mesmo após a abolição. Cansados de terem os seus corpos retalhados pela chibata, os marinheiros se revoltaram. Expulso, discriminado e perseguido pela Marinha, João Cândido morreu aos 89 anos, vítima de câncer, pobre e esquecido, no município de São João de Meriti, no Rio, onde se recolheu. Para saudar sua memória, João Bosco e Aldir Blanc compuseram, em 1975, o samba “O Mestre-Sala dos Mares”. A música foi lançada pelo próprio Bosco e regravada com primor por Elis Regina.

Como Nossos Pais” (MPB, 1976) – Belchior
Elis Regina, embora identificada noutro momento com a tradição da canção brasileira, gostava de pinçar novos compositores e descobrir músicas novas. Numa dessas procuras, ela descobriu Belchior, vindo de Sobral, no interior do Ceará, deparando-se com as dificuldades e asperezas da cidade grande. O relato verborrágico e narrativo do compositor, que se cristalizaria como marca registrada ao longo dos anos, pegou de jeito não só a intérprete, como multidões de jovens, crianças, adultos e idosos de todas as idades que repetiam inflamados os versos de inconformidade e desalento presentes na moderna elegia de Belchior. “Como Nossos Pais” ganhou prestígio imediato em todo o território nacional, por seu poder de identificação, centrado na simplicidade do tema, salpicado de frases precisas.

“Doce de Pimenta” (rock, 1976) – Rita Lee e Roberto de Carvalho
Para Elis Regina nunca houve dissociação entre música e vida; por isso a força de suas interpretações e a capacidade de chorar, rir e esbravejar no palco sem que pareça um artifício de convencimento da plateia ou pura demagogia. Em 1976, Rita Lee e Roberto de Carvalho compuseram um rock para saudar Elis, que visitara Rita na cadeia quando esta, grávida, havia sido detida por posse de maconha. Começou ali uma amizade improvável, já que as duas andavam em lados opostos na música brasileira, com Rita próxima da modernidade, e, Elis, da tradição. Num dueto impagável das duas, elas cantam a forte personalidade de Elis Regina, uma mulher livre que escolhia o que queria seguindo seu bico.

“Romaria” (toada, 1977) – Renato Teixeira
Elis Regina estava grávida de sete meses quando pisou no palco do “O Fino da Música”, série de shows idealizada por Zuza Homem de Mello, para cantar “Romaria”, composição até então desconhecida que se tornaria um de seus maiores sucessos. Elis conheceu Renato Teixeira, autor da música, durante a passagem por um estúdio de São Paulo ao lado do marido, César Camargo Mariano. A toada teria os versos elogiados pelo poeta concretista Augusto de Campos, e colocaria Renato Teixeira e a chamada música caipira e sertaneja imediatamente no radar da MPB, graças ao faro para novidades de Elis Regina.

“Maria, Maria” (clube da esquina, 1978) – Milton Nascimento e Fernando Brant
Foi em 2018 que, finalmente, a música “Maria, Maria” ganhou um videoclipe à altura de seu sucesso. Clássico incontestável da obra de Milton Nascimento e símbolo do Clube da Esquina, a produção audiovisual trouxe Camila Pitanga, Zezé Motta e Sophie Charlotte no elenco, entre outras atrizes. Lançada em 1978 no não menos histórico LP “Clube da Esquina 2”, a música nasceu a pedido de um balé do Grupo Corpo, com roteiro de Fernando Brant (1946-2015). Por conta disso, a história sobre várias mulheres negras que trabalharam na casa de Brant, no tempo em que ele morou em Diamantina, inspirou a letra do poeta mineiro. Elis Regina gravou a música no ano de 1980.

“Meio Termo” (MPB, 1978) – Cacaso e Lourenço Baeta
Poeta ligado ao movimento marginal, o mineiro Cacaso, de Uberaba, migrou para o Rio de Janeiro e logo passou a estreitar conexões com a música, travando parcerias com Edu Lobo, Sueli Costa, Nelson Angelo, Elton Medeiros e outros. Em 1978, ele teve a honra de ser gravado pela maior cantora em atividade do país, Elis Regina, que registrou “Meio Termo”, parceria com Lourenço Baeta, no apoteótico espetáculo “Transversal do Tempo”, depois transformado em disco. A música era acoplada no show a “Corpos”, de Ivan Lins e Vítor Martins. Ambas perpassavam as questões inerentes à morte, que, segundo Cacaso, era radical.

“O Rancho da Goiabada” (MPB, 1978) – Aldir Blanc e João Bosco
“O Rancho da Goiabada”, música composta por Aldir Blanc e João Bosco em 1978, fala sobre a triste realidade dos boias-frias brasileiros e as dificuldades que eles encontram até para se alimentar. Para esses boias-frias, bife a cavalo, batata frita e “goiabada cascão com muito queijo” não passam de sonhos, e eles mal têm acesso a um digno prato de comida. Com a exuberância já conhecida de sua voz, Elis Regina canta o outro lado da fome, que, ao invés da fartura, traz a falta, e, ao invés da satisfação, reflete dor e sofrimento. Ao ouvirmos essa canção, o que podemos esperar é que, um dia, a beleza da voz de Elis Regina e a beleza da composição de Aldir Blanc e João Bosco possam também rechear o prato de todos os brasileiros, todas as pessoas do mundo.

“Querelas do Brasil” (samba, 1978) – Aldir Blanc e Maurício Tapajós
Apesar de ter morrido precocemente, com apenas 51 anos, Maurício Tapajós assinou importantes canções da música brasileira, dentre elas “Mudando de Conversa”, com Hermínio Bello de Carvalho, “Pesadelo” e “Tô Voltando”, ambas com Paulo César Pinheiro, e “Carro de Boi”, com Cacaso, gravada por Milton Nascimento. Não menos relevante é a parceria com Aldir Blanc em “Querelas do Brasil”, de 1978. Lançada por Elis Regina, no álbum “Transversal do Tempo”, a canção parte do icônico samba-exaltação de Ary Barroso, “Aquarela do Brasil”, para subverter o sentido. “Querelas do Brasil” é uma queixa diante da americanização cultural do país. Para combater esse processo, os compositores se valem do ritmo e da palavra, e resgatam inúmeras expressões tipicamente brasileiras, algumas de origem indígena, como “pererê, camará, gororô, olererê”.

“O Bêbado e a Equilibrista” (MPB, 1979) – João Bosco e Aldir Blanc
O ano de 1979 ficou marcado pelo lançamento de “O Bêbado e a Equilibrista”, uma canção inesquecível por três motivos. A interpretação de Elis Regina, sempre visceral, a melodia de João Bosco e a letra de Aldir Blanc que retratavam um momento de dificuldade e superação pelo qual passava o país, em plena ditadura militar, mas, sobretudo, os personagens retratados nesta parábola do real. Dentre eles, o sociólogo Betinho, simbolizado pela “volta do irmão do Henfil”, após o exílio, era um dos nomes mais reverenciados naquela anistia política. A ele se juntavam personagens famosos como Carlitos, interpretado por Charlie Chaplin nos cinemas, e outros facilmente identificáveis, anônimos, mas, apesar disto, conhecidos, como os bêbados e equilibristas do Brasil.

“Bolero de Satã” (bolero, 1979) – João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Levada à casa de João Nogueira pelo amigo Paulo César Pinheiro, a cantora Elis Regina ganhou de presente a música “Bolero de Satã”, com letra de Pinheiro e melodia de Guinga. Elis decidiu convidar para a faixa, gravada no álbum “Essa Mulher” (1979), Cauby Peixoto, que ela considerava o melhor cantor do Brasil. Como se sabe, Elis tinha um temperamento competitivo e era avessa a dividir os holofotes. Ela não gostava de duetos. De fato, o que se viu foi outra coisa, mesmo com seu ídolo maior. Ao longo dos 3 min 25s da canção, a presença de Cauby se resume a 32 segundos, sendo que, em boa parte deles, Elis faz vocalises ao fundo, e, nos cinco segundos finais, os dois, enfim, unem suas belas vozes.

“Essa Mulher” (MPB, 1979) – Joyce e Ana Terra
Joyce e Ana Terra são duas das compositoras mais proeminentes e pioneiras da música brasileira. As duas tomaram as rédeas da composição feminina em uma espécie de segunda onda desse movimento, após o aparecimento de nomes como Dolores Duran e Maysa nos anos 1950. Não foi por acaso que, em 1979, a música “Essa Mulher”, parceria da dupla, deu nome ao disco de Elis Regina, que trazia uma belíssima flor na capa. Segundo Elis, as compositoras “conseguiram traduzir o dilema das mulheres que”, assim como ela, “trabalham e cuidam da casa e da família”. A música é uma das mais fortes desse repertório.

“Alô, Alô, Marciano” (rock, 1980) – Rita Lee e Roberto de Carvalho
Depois de liderar uma famigerada Passeata Contra a Guitarra Elétrica, em que teve a companhia de outros não menos ilustres baluartes da MPB, como Gilberto Gil, Edu Lobo, Geraldo Vandré e Jair Rodrigues, a intrépida Elis Regina deu uma guinada na carreira e se entregou sem reservas ao rock de Rita Lee, graças à amizade criada entre elas. Em 1980, Elis se encantou com o debochado rock “Alô, Alô, Marciano”, de Rita e seu parceiro Roberto de Carvalho, e resolveu gravá-lo abusando do deboche e dando uma ênfase ainda maior à crítica contra o decadente “high society” da sociedade brasileira, com a voz pra lá de afetada.

“Aprendendo a Jogar” (MPB, 1981) – Guilherme Arantes
Um dos motivos sempre apontados para alçar Elis Regina ao posto de maior cantora brasileira é, não somente a qualidade da voz, a afinação, a entrega nas interpretações, mas a escolha do repertório. Elis gostava de recolher e pesquisar tanto temas então esquecidos pelo público e compositores relegados ao ostracismo, como Adoniran Barbosa, quanto jogar luz sobre desconhecidos do grande público. João Bosco, Renato Teixeira, Milton Nascimento e Zé Rodrix são alguns deles, mas, também, Guilherme Arantes, de quem Elis captou todas as nuances da rítmica e sinuosa “Aprendendo a Jogar”. Em consonância com a melodia, o compositor aplica o recurso do drible, para lançar à plateia versos que embaralham os ditados populares do Brasil. A música foi lançada em 1981.

Foto: Arquivo/Divulgação.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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