As 12 melhores músicas brasileiras sobre casamento

*por Raphael Vidigal

“Somente ela, em seu vestido branco de casamento, olhando em frente com seus olhos proeminentes, parecia insolúvel como um pingente de gelo.” Virginia Woolf

A união de pessoas que se amam encontra no casamento a sua mais tradicional forma de celebração. Nem sempre, no entanto, as expectativas correspondem à realidade, como nos alerta Chico Buarque. De outras vezes, a cerimônia é interrompida antes mesmo de sacramentada, diante do formal e conhecido aviso do padre: “Fale agora ou cale-se para sempre”. Wanderléa não conteve o grito. Mas há, também, os amores idealizados, eternos enquanto duram, de que nos falou Vinicius de Moraes. Dessa fonte de inspiração beberam Tim Bernardes, Marcelo Jeneci, Vanessa da Mata e outros contemporâneos. Seja como for, a música popular brasileira é pródiga em enlaçar nossos pombinhos apaixonados.

“Dois Corações” (samba-canção, 1942) – Herivelto Martins e Waldemar Gomes
O romance entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins foi tão intenso quanto profícuo, e rendeu vários clássicos da canção brasileira. Infelizmente, a fase de maior criação acerca do relacionamento foi justamente aquela em que eles andavam às turras, antes de um desfecho triste para ambos os lados, com mútuas acusações e um ressentimento que permaneceu até o fim da vida. No entanto, quando ainda estavam perdidamente apaixonados, Herivelto compôs, em parceria com Waldemar Gomes, uma ode ao amor que não deixa dúvidas: “Quando dois corações/ Se amam de verdade/ Não pode haver no mundo/ Maior felicidade/ Tudo é alegria/ Tudo é esplendor”. A música foi lançada em 1942 num dueto de Dalva com Francisco Alves, os dois maiores intérpretes daquela época.

“Eu Sei Que Vou Te Amar” (samba-canção, 1959) – Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Considerada ainda hoje, com justiça, uma das mais românticas canções do repertório nacional, “Eu Sei Que Vou Te Amar” costuma embalar pombinhos apaixonados de todas as gerações. Composta pela dupla Vinicius de Moraes e Tom Jobim, a música foi lançada pela cantora lírica Lenita Bruno, em 1959. No mesmo ano, recebeu outras regravações, sendo a mais destacada delas a da intérprete paulista Elza Laranjeira. Os versos de Vinicius ganharam a adesão de uma declamação feita por ele próprio do “Soneto de Fidelidade”, mais conhecido pelo afamado verso “que seja infinito enquanto dure”, numa gravação feita por Maria Creuza em 1972, com o acompanhamento do violão de Toquinho. “Eu sei que vou te amar/ Por toda a minha vida, eu vou te amar/ Em cada despedida…”.

“Pare o Casamento!” (rock, 1966) – Kenny Young e Arthur Resnick em versão de Luiz Keller
Mineira de Governador Valadares, criada no Rio de Janeiro, Wanderléa já era a grande vedete da Jovem Guarda, movimento que incluiu a juventude no cenário da canção nacional, quando, em 1966, lançou o seu quarto LP, “A Ternura de Wanderléa”, que fazia referência ao apelido que ela ganhara comandando um programa de TV ao lado de Roberto Carlos e Erasmo Carlos na TV Record: “Ternurinha”. Habituada a gravar versões de sucessos para rocks norte-americanos, a cantora voltou a apostar no gênero e obteve êxito. “Para o Casamento!”, versão de Luiz Keller para rock de Kenny Young e Arthur Resnick, parodiava uma inusitada situação sobre a qual as cenas de casamentos em filmes costumam alertar: “Fale agora ou cale-se para sempre”, nos avisa o padre.

“Como É Grande o Meu Amor Por Você” (balada, 1967) – Roberto Carlos
Roberto Carlos vinha, aos poucos, de descolando do título de ídolo da garotada para se consagrar como o Rei da música brasileira. Um dos principais ativos nesse movimento foi apostar em canções mais maduras, que deixavam para trás o espírito juvenil e rebelde, em busca de declarações de amor capazes de acalentar corações de todas as idades. “Como É Grande o Meu Amor Por Você” destoa do repertório de “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, LP lançado em 1967, exatamente por esse motivo. A balada se eternizou como uma das mais tocadas em festas de casamento país afora, e empilhou regravações de nomes como Nara Leão, Fagner, Ivete Sangalo, Fábio Jr., Sandy, Lulu Santos, Roberta Miranda, Nelson Gonçalves, Joanna, Oswaldo Montenegro e muitos outros mais.

“Amor de Índio” (balada, 1978) – Beto Guedes e Ronaldo Bastos
Beto Guedes nasceu em Montes Claros, no interior de Minas Gerais, e participou ativamente do movimento que ficou conhecido como Clube da Esquina desde o início, ao lado de Milton Nascimento, Fernando Brant, Lô Borges, Toninho Horta, Márcio Borges, Wagner Tiso e outros agregados, caso do carioca Ronaldo Bastos, que se tornou seu parceiro em uma de suas mais emblemáticas canções. “Amor de Índio” deu título ao LP lançado por Guedes em 1978, o segundo de sua carreira solo, na esteira do sucesso de “A Página do Relâmpago Elétrico”. A balada combina com maestria versos de um lirismo romântico a observações reflexivas sobre o comportamento da natureza. Os versos iniciais atingem em cheio a mente e o coração do ouvinte: “Tudo que move é sagrado”.

“O Casamento dos Pequenos Burgueses” (MPB, 1979) – Chico Buarque
Chico Buarque se vale de uma expressão originária do “Manifesto Comunista” de Karl Marx e Friedrich Engels para dar título a uma divertida música composta para a sua “Ópera do Malandro”. “O Casamento dos Pequenos Burgueses” tira onda com as expectativas matrimoniais concernentes a essa moderna classe média, ao apresentar uma realidade bem diferente da idealizada. Gravada em dueto pelo autor com Alcione – que se revezam no papel de marido e mulher –, a música parte de uma relação baseada na hipocrisia das aparências, até desandar em agressões pra lá de explícitas, com um verso que se repete e adquire a forma de punição: “Vão viver sob o mesmo teto”. A imagem final é a de uma típica crônica de costumes de Nelson Rodrigues: “A Vida Como Ela É…”.

“Dia Branco” (balada, 1981) – Geraldo Azevedo e Renato Rocha
“Dia Branco” ostentou durante muito tempo o título de canção brasileira mais executada em casamentos e, talvez, ainda hoje, esteja entre as primeiras nesse ranking romântico. A história de sua criação é curiosa. O batismo teria sido inspirado pelo famoso “Álbum Branco” dos Beatles, que, naquela época, fazia a cabeça de Geraldo Azevedo, pernambucano que rumou para o Sudeste a convite da cantora Eliana Pittman em busca de oportunidades para seu trabalho. A travessia, no entanto, não foi das mais fáceis. Azevedo levou nove anos até conseguir gravar o seu primeiro LP. Pode-se dizer que “Dia Branco”, parceria com Renato Rocha, ajudou a asfaltar o caminho que havia sido aberto com “Bicho de Sete Cabeças” dois anos antes. A canção dolente ainda toca corações.

“Bem Que Se Quis” (balada, 1989) – Pino Danielle em versão de Nelson Motta
Marisa Monte era uma cantora lírica em turnê pela Itália quando foi descoberta e convencida por Nelson Motta a investir no universo da canção popular. A estreia não poderia ter sido mais animadora. Lançado em 1989, o disco que continha as iniciais da debutante (“MM”) vendeu mais de 700 mil cópias e ganhou elogios entusiasmados da crítica, transformando Marisa em um fenômeno imediato. Além de regravar canções de Tim Maia, Os Mutantes, Titãs, Candeia e Luiz Gonzaga, ela deu voz a uma versão de Nelson Motta para o sucesso de Pino Danielle, rebatizado como “Bem Que Se Quis”. Romântica, a canção entrou na trilha sonora da novela “O Salvador da Pátria”, foi regravada por Nelson Gonçalves e tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Marisa Monte.

“Você É O Mel” (jazz, 2000) – Cole Porter em versão de Augusto de Campos
No primeiro ano do novo milênio, o letrista, produtor e jornalista Carlos Rennó colocou na praça um projeto ousado: músicas de Cole Porter e George Gershwin, dois dos maiores estandartes do jazz norte-americano, traduzidas para o português em versões interpretadas por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Mônica Salmaso, Jussara Silveira, entre outros. Coube ao tropicalista Tom Zé dar conta de “Você é o Mel”, versão para clássico de Cole Porter concebida pelo poeta concretista Augusto de Campos. Tom Zé, aliás, era íntimo do movimento Concreto, tanto que Décio Pignatari concebeu a mais polêmica capa de sua discografia. Sem fugir ao atrevimento que pautou sua trajetória, o baiano dá voz a essa desconcertante tradução dum amor romântico.

“Ainda Bem” (balada, 2004) – Vanessa da Mata e Liminha
Natural de Alto Garças, cidade no interior do Mato Grosso, Vanessa da Mata estourou nacionalmente com o primeiro álbum, de 2002, que arrebatou, de cara, disco de ouro pelas mais de 150 mil cópias vendidas. O desafio era provar que o sucesso não se tratava de “fogo de palha” no segundo disco, que confirmou o talento da intérprete ao redobrar a aposta: disco de platina com mais de 250 mil cópias vendidas. “Essa Boneca Tem Manual”, de 2004, foi calcada na parceria entre Vanessa e o produtor Liminha. Juntos, eles assinaram a maior parte do repertório, que trazia regravações para sucessos de Chico Buarque e Caetano Veloso. “Ainda Bem”, que abria os trabalhos, confirmou a vocação para hit e garantiu lugar no coração dos casais apaixonados com sinceros versos de amor.

“Pra Sonhar” (balada, 2010) – Marcelo Jeneci
Músico polivalente, Marcelo Jeneci decidiu passar de coadjuvante a protagonista com o lançamento do primeiro disco solo, “Feito Pra Acabar”, em 2010, que arrebanhou elogios da crítica e um público cativo. No repertório, parcerias com nomes consagrados, como Chico César, Arnaldo Antunes, José Miguel Wisnik e Luiz Tatit. Mas foi uma canção só de Jeneci que se destacou das demais. O conteúdo romântico de “Pra Sonhar” levou a música a embalar tantos casamentos pelo país que o compositor resolveu fazer um clipe só com cenas das cerimônias enviadas pelos próprios noivos. O sucesso da empreitada pode ser conferido com as mais de 30 milhões de visualizações no YouTube. “Se a gente se casar domingo/ Na praia, no sol, no mar/ Ou num navio a navegar”, diz.

“Só Nós Dois” (balada, 2019) – Tim Bernardes
“Grande amor da minha vida…”, Tim Bernardes não deixa dúvidas, logo de cara, do que vem por aí: uma autêntica canção de amor, na tradição romântica da música brasileira. Tim, aliás, é um conhecedor privilegiado desse universo, o que pode ser constatado no trabalho moderno que ele desenvolve com a banda O Terno. Filho de Maurício Pereira, que fundou, com André Abujamra, o grupo Os Mulheres Negras, Tim já regravou a clássica valsa de Lamartine Babo, “Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda”, compôs e cantou com Jards Macalé a ótima “Buraco da Consolação” e fez um dueto com Gal Costa em “Baby”, de Caetano. “Só Nós Dois” elabora todas essas influências no estilo próprio de Tim, com um canto melancólico que acentua a bonita e sensível harmonia de “Só Nós Dois”.

Foto: Site oficial/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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