As 10 melhores músicas brasileiras sobre Vacina

*por Raphael Vidigal

“A cicatriz não tenho mais;
o inoculado, tenho ainda;
nunca soube é se o inoculado
(então) é vírus ou vacina.” João Cabral de Melo Neto

A pandemia do novo coronavírus matou milhões de pessoas pelo mundo, sendo mais de 200 mil brasileiros em menos de um ano. A esperança para conter o avanço da doença, que devastou inúmeras famílias e obrigou o planeta a mudar uma dinâmica estabelecida há décadas, veio na forma de uma vacina capaz de vencer o vírus. Vacinas produzidas por países como Rússia, China, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos começaram a imunizar as populações de mais de 50 nações. O Brasil segue na fila para começar a salvar vidas em seu território, mas como a música está sempre atenta, selecionamos 10 canções sobre vacina.

“Na Subida do Morro” (samba de breque, 1952) – Geraldo Pereira e Moreira da Silva
A história de um desentendimento entre dois malandros, recheada de machismo, é o pano de fundo do samba de breque “Na Subida do Morro”, composto por Geraldo Pereira para uma peça estrelada por ele mesmo no Morro de Mangueira, onde morava na época. Cantor identificado com o gênero, Moreira da Silva comprou a composição de Geraldo por um conto e trezentos e a registrou em seu nome e no de Ribeiro Cunha, fabricante dos chapéus que ele usava. Posteriormente, Moreira, que a lançou em 1952, admitiu que a música era de Geraldo. Mas não há como não identificar a presença do improviso de Moreira nos versos falados que tentam ressuscitar o morto e citam até uma vacina Salk.

“O Riso e a Faca” (tropicália, 1970) – Tom Zé
Depois de estrear no mercado fonográfico com “Grande Liquidação”, que trazia a música “São, São Paulo”, vencedora do Festival da Record de 1968, Tom Zé colocou no mercado um segundo álbum, batizado apenas com seu nome na capa. Ele aproveitava a ocasião para reclamar, no encarte, da falta de pagamento pelo prêmio conquistado pela prefeitura de São Paulo. Sexta faixa do álbum, “O Riso e a Faca” seria regravada em “Todos os Olhos”, álbum da mais polêmica capa da discografia de Tom Zé. Investindo nos paroxismos tanto na letra quanto na estrutura, a canção une uma parte ácida a outra mais lírica, entendida como refrão. “Eu sou a raiva e a vacina”, definia ele numa das estrofes.

“Ciranda da Bailarina” (ciranda, 1983) – Chico Buarque e Edu Lobo
Incumbidos de compor a trilha sonora do balé “O Grande Circo Místico”, inspirado em um poema homônimo do alagoano Jorge de Lima, a dupla Chico Buarque e Edu Lobo deu vazão a alguns clássicos da música popular brasileira. Dentre eles, está a “Ciranda da Bailarina”, de teor infantil, lançada originalmente por um coro de crianças de Córdoba, na Argentina. Embora nunca a tenha gravado em disco, Chico a registrou em especiais de TV. A ciranda voltou a fazer sucesso em 2004, quando Adriana Calcanhotto, investida da personagem Adriana Partimpim, a relançou. Sandy e a Orquestra Filarmônica de Paraisópolis a revisitaram em 2015. “Todo mundo tem marca de bexiga ou vacina”, diz a letra.

“Dona Zica e Dona Neuma” (samba, 1990) – Nei Lopes, Carlinhos 7 Cordas e Zé Luiz
Duas personalidades do Carnaval carioca, ligadas à Estação Primeira de Mangueira, são homenageadas no samba “Dona Zica e Dona Neuma”, composto pela tríade formada por Nei Lopes, Carlinhos 7 Cordas e Zé Luiz. Última esposa de Cartola, Dona Zica tornou-se conhecida Brasil afora quando fundou com o marido o histórico bar Zicartola, que recebia bambas como Paulinho da Viola, Zé Kéti, Nara Leão, Nelson Cavaquinho, dentre outros. Fundadora do Bloco dos Arengueiros, que deu origem à Mangueira, e considerada Primeira-Dama da escola, Dona Neuma recebia em casa Noel Rosa, Villa-Lobos, Tom Jobim, Chico Buarque. Nesse samba contagiante, de 1990, Alcione diz: “Foi descoberta a vacina que vence e domina, cura e fortifica”.

“Vacina” (brega, 1995) – Vicente Dias, Cleide e Almyr
Houve um tempo em que o Brasil se orgulhava de ser um país campeão de vacinação, com campanhas que percorreram todo o país com inegável sucesso, imunizando milhares de crianças, adolescentes e adultos. Nesse período, o cantor goiano Amado Batista era um dos recordistas de vendas de discos, com seu estilo assumidamente brega e popular. “Vacina” é uma dessas peças atreladas ao repertório de Amado. Composta por Vicente Dias, Cleide e Almyr, ela fecha o álbum “Tum Tum de Saudade”, de 1995. A letra não poderia ser mais explícita, e traz um terno agradecimento ao pai e à mãe, para, mais à frente, concluir: “Não esqueça da vacina/ Não quero que essa menina/ Sofra como eu”.

“Gripe do Amor” (rock, 2003) – Rita Lee e Roberto de Carvalho
A expectativa por um disco novo de Rita Lee foi confirmada em 2003, com o lançamento de “Balacobaco”. Saudado pela crítica, o álbum faturou o Disco de Ouro pelas milhões de cópias vendidas, e teve a participação do DJ Memê na produção, famoso pela contribuição com Lulu Santos. Além de “Hino dos Malucos”, parceria com Fernanda Young que entrou na trilha sonora do filme “Os Normais”, e “Amor e Sexo”, feita a partir de texto do colunista Arnaldo Jabor, outro destaque foi “A Gripe do Amor”, rock ao estilo do casal Rita e Roberto de Carvalho, que, logo na abertura, determinava: “Não há vacina/ Nem vitamina/ Pega só de olhar/ Não tem benzedeira/ Chá de erva cidreira/ Capaz de curar…”.

“Vacina na Veia” (balada, 2007) – Ana Cañas e Fabá Jimenez
O disco de estreia de Ana Cañas já delineava a temperatura elevada da personalidade da artista. Paulistana formada em Artes Cênicas pela USP, a cantora aliava suas qualidades performáticas a um texto com mensagens bem direcionadas. Em “Amor e Caos”, ela dá voz a músicas de Caetano Veloso, Bob Dylan e Jorge Mautner, em faixa com a participação de Naná Vasconcelos. Como compositora, ela assina a maior parte do repertório, com destaque para a balada pop “Vacina na Veia”, uma parceria bilíngue com Fabá Jimenez que começa em inglês e logo parte para um português direto, sem meias palavras. “Vacina na veia para não cair na teia”, afirma o refrão cantado com vigor por Ana.

“Lá Vem a Cidade” (MPB, 2008) – Lenine e Bráulio Tavares
Desde que surgiu para o cenário da MPB com “Baque Solto”, disco lançado em parceria com Lula Queiroga, o pernambucano Lenine se consolidou como um dos mais inquietos artistas desse cenário. O álbum “Labiata”, de 2008, que rendeu uma bem sucedida turnê por países da Europa, África e Ásia retifica essa percepção. Composto por canções autorais, traz parcerias do anfitrião com Chico Science, Arnaldo Antunes, Paulo César Pinheiro, Carlos Rennó e outros. A faixa “Lá Vem a Cidade”, composta com o parceiro de longa data Bráulio Tavares, chama atenção pela incrível atualidade ao descrever o cenário das metrópoles pelo mundo. “Rugia como um incêndio/ Era veneno e vacina”, afirma.

“Samba É Saúde” (partido-alto, 2012) – Moisés Santiago, Alexandre Silva e Renan Pereira
Zeca Pagodinho é conhecido por conservar o modo de vida despojado e as amizades em Xerém, no Rio de Janeiro, onde o sambista se criou. E, também, por gravar e dar oportunidades a nomes da nova geração, como a madrinha Beth Carvalho fez com ele próprio. Em plena pandemia do novo coronavírus, Zeca declarou que a chegada de uma vacina “vai dar mais de 20 sambas”, e que ele tomaria a vacina “até duas vezes”. Em 2012, o companheiro Arlindo Cruz gravou o partido-alto “Samba É Saúde”, de Moisés Santiago, Alexandre Silva e Renan Pereira. Já em 2015, foi a vez de Zeca protagonizar uma dobradinha com Moisés, um dos autores. “Pro samba não tem vacina”, afirma um de seus versos.

“Carrossel” (rap, 2019) – Rashid
Michel Dias Costa é mais conhecido nas batalhas de MC’s como Rashid, e, a cada dia que passa, esse apelido ganha mais força na música brasileira. Em 2018, o álbum “Crise”, segundo de sua carreira, entrou nas listas da revista Rolling Stone e da Associação Paulista de Críticos de Arte como um dos melhores do ano. Um ano depois, o cantor seguiu a toada com outra canção que despertou interesse. “Carrossel”, produzida por Talho, se aproxima das 50 mil visualizações no YouTube. A letra vai direto ao ponto: “Mundo doente, eu trouxe a vacina/ Em forma de poesia que fascina”. A música foi lançada pouco antes do início da pandemia, como se estivesse predestinada a retratar essa triste época.

Foto: Guto Costa/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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