As 10 melhores músicas brasileiras sobre o Tempo

*por Raphael Vidigal

“Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão de eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno.” Caio Fernando Abreu

Compositor, ator e poeta, Mário Lago cunhou uma das mais precisas definições sobre a relação do ser humano com a passagem do tempo, aquele ser invisível e maciço que emolduramos em relógios, fotografias e calendários e nos encontra na pele e nos ossos. “Fiz um acordo com o tempo, nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia, a gente se encontra”, escreveu Lago. Com a passagem de ano, o tempo parece a esperança de dias melhores à nossa espera, e, como de praxe, não faltam canções brasileiras que versam sobre esse assunto, passando pelo humor, a reflexão e a revolta, indo do samba ao rock, com parada na MPB.

“Tempo Feliz” (samba, 1965) – Vinicius de Moraes e Baden Powell
Vinicius de Moraes e Baden Powell compuseram “Tempo Feliz” especialmente para Ciro Monteiro, como avisava o encarte do compacto editado pela Elenco em 1965, selo de Aloysio de Oliveira. Conhecido nas rodas de samba como Formigão, o cantor foi resgatado pela dupla em um período em que já não gozava de tanto prestígio. A letra, aliás, expressava essa nostalgia: “Feliz o tempo que passou, passou/ Tempo tão cheio de recordações/ Tantas canções ele deixou, deixou/ Trazendo paz a tantos corações”. Ao final, a esperança se assanhava sem constrangimentos: “E quando um dia esse tempo voltar/ Eu nem quero pensar/ No que vai ser/ Até o sol raiar…”. A música foi um grande sucesso.

“Oração ao Tempo” (MPB, 1979) – Caetano Veloso
Durante a turnê “Ofertório”, em que se apresentava ao lado dos três filhos, Caetano Veloso contou que a relação musical com os filhos se estabeleceu cada uma à sua maneira, e confidenciou que o último a aderir foi, justamente, o caçula Tom. Ele afirmou, que, ainda bebê, Tom demonstrava irritação ao ouvi-lo cantar, o que naturalmente se dispersou com o tempo, aquele senhor que “é tão bonito quanto a cara do meu filho”, como já eternizou a clássica “Oração ao Tempo”, lançada em 1979 no álbum “Cinema Transcendental”. “Fazer música com meus filhos parece outra coisa, não é como fazer com outros parceiros. Eles são extensões de mim na minha cabeça”, disse o tropicalista, inquieto como o tempo.

“Novo Tempo” (MPB, 1980) – Ivan Lins e Vítor Martins
O teclado inconfundível de Ivan Lins se tornou tão presente na cabeça dos brasileiros quanto os versos escritos por Vítor Martins para a parceria da dupla, lançada em 1980 com o título “Novo Tempo”. Com um forte teor de esperança, a música serviu como manual de autoajuda para muita gente e segue como uma das mais executadas em épocas de virada de ano. “No novo tempo/ Apesar dos castigos/ Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos/ Pra nos socorrer…”, proclama. Pelo período em que foi composta, a canção também se tornou uma espécie de hino contra a ditadura militar no Brasil, que chegou ao final em 1985, após duas décadas de um regime repressivo, violento e covarde.

“Tempo Rei” (MPB, 1984) – Gilberto Gil
É de Gilberto Gil uma das mais cristalinas demonstrações da qualidade subjetiva e da densidade crítica e de consciência que se pode extrair dos nossos ditados populares. O movimento capitaneado na música brasileira por Gil, aliás, ao lado de Caetano Veloso, tinha como uma das metas estabelecer a real valorização da nossa cultura, afinal a Tropicália estende o seu tapete vermelho dos Beatles até Vicente Celestino. “Tempo Rei” traça um paralelo existencialista, entre a finitude e o que é eterno, o momento presente e o passageiro. Ela foi lançada em 1984, e começa, sem terminar, um dos mais conhecidos ditados do Brasil: “Água mole/ Pedra dura/ Tanto bate/ Que não restará/ Nem pensamento…”, diz.

“Tempo Perdido” (rock, 1986) – Renato Russo
A ascensão do rock durante os anos 1980 no Brasil teve como um de seus ícones Renato Russo, líder da Legião Urbana que, com ares messiânicos, guiava plateias de adolescentes que passaram a lotar os estádios para ouvir as suas profecias. Uma das mais emblemáticas data do segundo disco da trupe, editado em 1986, intitulado “Dois”. “Tempo Perdido” ali a carga filosófica e cheia de existencialismo que atraía Renato a considerações mais casuais que cativavam o grande público. “Todos os dias quando acordo/ Não tenho mais o tempo que passou/ Mas tenho muito tempo/ Temos todo o tempo do mundo”, diz a letra. Em 2020, a música ganhou uma versão com Pitty, Leo Jaime, Frejat, Supla e outros.

“O Tempo Não Para” (rock, 1988) – Cazuza e Arnaldo Brandão
Todas as músicas do espetáculo de lançamento do álbum “Ideologia” já estavam definidas quando Cazuza apresentou a Ney Matogrosso uma novidade. O antigo vocalista do grupo Secos e Molhados era o responsável pela direção, iluminação e cenografia do show. Ao se deparar com a letra arrebatadora de “O Tempo Não Para”, Ney não teve dúvidas de que a música daria nome à turnê. Parceria com Arnaldo Brandão, “O Tempo Não Para” mescla a batalha pela vida de Cazuza com as agonias de um país em constante crise. “A música é sobre essa velharia que está aí e vai passar. Vão ficar as ideias de uma nova geração”, afirmou Cazuza. Ney, Simone, Zélia Duncan, Lobão e Barão Vermelho regravaram o hit.

“Sobre o Tempo” (pop, 1995) – John Ulhôa
Uma trupe formada em Belo Horizonte por John Ulhôa, Fernanda Takai e Ricardo Koctus deu um drible nas expectativas da música brasileira ao misturar influências eletrônicas de bandas internacionais à prosódia dos nossos inventivos compositores, com atenção destacada para Tom Zé e Os Mutantes. O segundo disco do Pato Fu, de 1995, tinha o sugestivo e irônico nome de “Gol de Quem?”. Com regravações dos Beatles e até de Nelson Gonçalves, o grande sucesso foi uma composição de John Ulhôa. “Sobre o Tempo” versava sobre essa questão tão cara ao ser humano de forma leve, sem perder a profundidade: “Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda eu sei/ Pra você correr macio”.

“Resposta ao Tempo” (bossa nova, 1998) – Aldir Blanc e Cristóvão Bastos
A música “Resposta ao Tempo” concentra uma poesia altamente existencial e reflexiva de Aldir Blanc, aliada à melodia sofisticada de Cristóvão Bastos e à voz de mormaço de Nana Caymmi. Esse conjunto, por si só, a justifica como obra-prima. Não bastasse isso, essa típica peça de bossa nova, tema de abertura da minissérie “Hilda Furacão” em 1998, tem como tema o “tempo”, um dos mais misteriosos ao ser humano, senão o principal responsável por suas dúvidas, esperanças e medos. Por isso, ele adquire condição de protagonista, numa conversa franca com o eu-lírico, que conclui: “No fundo é uma eterna criança/ Que não soube amadurecer/ Eu posso, ele não vai poder/ Me esquecer…”, diz.

“Templo do Tempo” (MPB, 2015) – Flaira Ferro e Igor Bruno
Lançando mão da metalinguagem, a canção “Templo do Tempo” permanece apenas instrumental durante quase metade de sua gravação. Só então entra a voz de Flaira Ferro, que a compôs com Igor Bruno, recitando o refrão reflexivo: “Eu sou o templo do tempo/ O tempo acontece em mim/ No meu rosto, na minha pele/ No meu modo de vestir”. A música chegou para o público no primeiro álbum da cantora e compositora pernambucana, “Cordões Umbilicais”, de 2015. Uma das revelações da nova geração, Flaira apostou em um tom interiorizado nessa estreia para, nos trabalhos seguintes, dar vazão a um lado mais explícito e explosivo, que rendeu o polêmico clipe “Coisa Mais Bonita” e “Virada na Jiraya”.

“Tempo da Estiagem” (samba, 2020) – Raphael Vidigal e Ronaldo Ferreira
O samba “Tempo da Estiagem” foi composto por Raphael Vidigal e Ronaldo Ferreira no início de 2020. É a estreia da dupla no gênero. Juntos, o mineiro Vidigal e o paulista Ferreira já haviam criado duas marchinhas de Carnaval: “Cuidado Com o Pescoço” e “Retiro do Vampiro”, em 2017 e 2018, respectivamente. Para interpretar a mais nova composição, eles convidaram a cantora Deh Mussulini e o violonista Lucas Telles, que também cuidou dos arranjos e da produção da faixa. “Tempo da Estiagem” é um samba lírico, na tradição da música popular brasileira afeita à dor de cotovelo, e que bebe nas influências tanto de Batatinha quanto de Paulinho da Viola, com doce melancolia.

Foto: Mônica Imbuzeiro.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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