‘Os Segredos que Guardamos’ é suspense de vingança em busca da verdade

*por Raphael Vidigal

“Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que se passou.” Milan Kundera

Um dos problemas dos filmes de suspense é que não se pode assisti-los mais de uma vez com a mesma graça. Todo o interesse está na expectativa gerada pela trama. “Os Segredos que Guardamos”, dirigido pelo israelense Yuval Adler, e que acaba de estrear na Amazon Prime, se fia nessa tradição. A história gira em torno de Maja – numa atuação impecável da sueca Noomi Rapace –, uma cigana romena perseguida durante a Segunda Guerra Mundial que luta contra os traumas dessa experiência.

A vida dela parece ter se acertado, como a de muitos imigrantes judeus que fugiram para os Estados Unidos em busca de paz e um recomeço. Casada com o médico Lewis, em uma interpretação correta de Chris Messina, ela é mãe de Patrick, seu pequeno filho. Tudo muda quando Maja se depara com o homem que acredita tê-la torturado, vivido por Joel Kinnaman. Atormentada com a sua presença na vizinhança, ela decide sequestrá-lo, e é aí que os desarranjos começam. Inicialmente, temos a impressão que Maja deseja vingança, mas a questão vai mais além: o que ela busca é a verdade.

Embora tenha certeza de que aquele se trata de seu torturador, mesmo que o sujeito negue veementemente e se apresente com nome e uma versão distinta, Maja alimenta dúvidas sobre a violência sofrida por ela que não a deixam seguir em frente. A principal é: por que ela sobreviveu e a irmã não? Ela teria abandonado a caçula? Esse jogo de perspectivas, lembranças e impressões coloca questões prementes, em diálogo com a contemporaneidade, como, por exemplo, a dúvida sobre o testemunho da mulher, inclusive por parte de quem lhe é mais próximo, em tempos em que as denúncias sobre assédio sexual ganham outra dimensão. Também ressoam o drama dos refugiados e a xenofobia.

Esse roteiro é bem desenvolvido pela direção, que sabe arquitetar as sequências de tensão e acentuá-las com uma música discreta, que dita o ritmo da respiração das personagens. Ao incluir a esposa do sequestrado no enredo, o filme amplia seu espectro e oferece momentos de contraponto à agonia principal, sem se desviar dela de todo, no entanto. Infelizmente, o desfecho é menos interessante do que o conjunto da obra.

Basta observar a tradição norte-americana do gênero para concluir que, para um filme produzido no país, é quase imperativo sanar todas as dúvidas. Assim como a sede justiceira da cultura ianque. Pois, se “a barbárie tem rosto humano”, como afirma o filósofo esloveno Slavoj Žižek, os americanos mantêm a sua predileção de enxergarem apenas os inimigos como monstros, e a si próprios como aqueles que salvam, os heróis redimidos de possíveis falhas.

Fotos: Reprodução Amazon Prime/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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