Análise: Zé Bonitinho foi expressão da fantasia

“Zé Bonitinho, o perigote das mulheres!” Jorge Loredo

Ze-Bonitinho

Oscarito é Oscarito, Grande Otelo é Grande Otelo, Al Pacino é Al Pacino e Ronald Golias é Ronald Golias, independente do papel que eles representem. Assim foi com Jorge Loredo, refém e cúmplice de seu Zé Bonitinho. Não há como dissociar a imagem do ator de sua mais aclamada personagem. Loredo participou de filmes no auge das companhias Atlântida e Vera Cruz, representantes da chanchada no Brasil, e inclusive estrelou “Sem essa, Aranha!”, protagonista com nome no título. Mas a força do público foi maior do que as suas vontades. Diagnosticado com osteomielite e tuberculose durante a juventude, foi incentivado pelos médicos a procurar uma companhia teatral para melhorar os ânimos. Em busca de um “papel sério”, passou, na primeira audição, para o monólogo cômico “Como Pedir Uma Moça em Casamento”. Zé Bonitinho não teve escolha, nascera fadado a fazer os outros rirem.

O documentário “Câmera, Close!”, dirigido por Susanna Lira em 2005, traça um sensível retrato de intérprete e personagem. Ao se valer de um dos bordões propagados por Zé Bonitinho no título, a diretora tenta se aproximar, sobretudo, de Jorge Loredo, e temos revelada uma personalidade reservada, muitas vezes amarga, e até certo ponto triste. Repete-se a crônica do palhaço que não consegue arrancar de si o próprio riso, tema explorado com propriedade por Selton Mello em seu longa-metragem de 2011, que generosamente concedeu espaço a referências do estilo; além de Loredo aparecem Moacyr Franco, Ferrugem, Teuda Bara e Tonico Pereira. Percebemos no documentário a frustração de Jorge, por estar confinado a Zé Bonitinho. Ator de múltiplos recursos, demonstrados na tela, exercia ainda a profissão de advogado. Imagine-se numa audiência com Zé Bonitinho.

Por circunstância do destino e talento de Loredo, Zé Bonitinho criou personalidade própria, e trajetória única no humor brasileiro. Nasceu, primeiro, da observação, e depois do improviso. Feito de várias referências, estreou na televisão em 1960, durante o programa “Noites Cariocas”, uma das atrações da extinta TV Rio. Nessa época, as falas eram roteirizadas por Chico Anysio, Papa do gênero. Com o tempo, a personagem vivida por Jorge Loredo foi ganhando corpo e alma. O cozinheiro de um restaurante de beira de estrada, por sinal “muito feio”, e um colega metido a garanhão, hábil em retirar um pente do bolso e cantarolar tangos e boleros para suas “amadas”, serviram de esteio para que o verdadeiro Zé Bonitinho surgisse. O original, feito de sombras, maquiagem, gravata borboleta e um cenário inimaginável. Uma “A Praça É Nossa”. Zé Bonitinho representava o esdrúxulo, a fantasia, o sonho.

Seu humor era ao mesmo tempo infantil e malicioso, receita explorada à exaustão pelo Sistema Brasileiro de Televisão, a emissora de Silvio Santos, o SBT. Este, aliás, configura outro mérito da personagem. Zé Bonitinho conseguiu furar o bloqueio monopolista da Rede Globo para se tornar uma figura tão popular quanto Mussum, Zacarias, Dedé, Didi e Jô Soares. As frases marcantes eximiam de culpa e pecado o ator. Se ditas por outras bocas poderiam soar vulgares. Mas Loredo estava no controle da situação justamente pelo ridículo que elas provocavam, pela ironia, pelo absurdo. Muitas das máximas eram retiradas da rua, da boca dos populares, da condição que tem o Brasil em ser um país rico em ditados. Da capacidade inventiva e criativa de seu povo. Por essas e outras Zé Bonitinho pertence mais à plateia que a seu intérprete.

Jorge-Loredo

Raphael Vidigal

Fotos: A personagem Zé Bonitinho e Jorge Loredo, seu intérprete, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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