Análise: cineasta Carlos Manga priorizou o riso clássico

“e sorriu como um velho sorri da insensatez de uma criança e conserva atrás do sorriso seu verdadeiro pensamento.” Franz Kafka

Carlos-Manga

“Mas eu vou ganhar pra fazer isso?”, esse foi o principal questionamento de Carlos Manga quando começou a trabalhar com cinema. Para tanto abandonou uma carreira de bancário e um posto no almoxarifado da Atlântida, principal companhia do cinema brasileiro durante toda a década de 1950 e primeiros anos de 1960. Se não ganhou tanto dinheiro, certamente engordou os cofres da companhia, com filmes que alcançaram incríveis marcas até hoje difíceis de serem comparadas no número de espectadores. Eram os chamados “anos dourados” do cinema nacional e da “chanchada”, movimento que, com o advento do audiovisual no país transformou-se na principal referência do gênero durante muito tempo, com uma óbvia influência da chamada “comédia de costumes”, advinda, principalmente dos italianos.

O cinema brasileiro voltaria a alcançar marcas parecidas de popularidade somente nos anos da ditadura militar, principalmente quando, na década de 1970, criou-se a expressão “pornochanchada”, que se valia do enredo da matriz e acrescentava a esta um erotismo banal. O humor simples, ligeiro, e até ingênuo das chanchadas era uma marca de Carlos Manga. Seu estilo bonachão imprimia à figura uma imediata simpatia que certamente contribuiu para que astros como Oscarito, Grande Otelo, Norma Bengell e Jô Soares, cujo primeiro papel de destaque nas telonas foi em “O Homem do Sputnik”; se sentissem à vontade e passassem essa impressão para o público. Esse mesmo humor Manga carregou para filme e episódios de “Os Trapalhões”, além de diversos programas com Chico Anysio, Dercy Gonçalves, e outros.

Como se não bastasse, Manga teve o privilégio de conhecer e trabalhar na assistência de direção do aclamado diretor italiano Federico Fellini, considerado por muitos o maior cineasta de todos os tempos; fato este de que se gabou durante toda a vida e não se furtou em afirmar, com seu humor característico, que “se tivesse tendências homossexuais”, elas desabrochariam neste encontro com “o homem mais bonito que já vi na vida”. Embora pontual, a presença de Carlos Manga cristalizou tanto na TV quanto no cinema, através de 32 filmes e programas como o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, uma maneira já um tanto clássica da nossa direção, em que prevalece a vontade de contar a história e a atenção aos conflitos dramáticos, sejam eles de riso ou para o choro. No caso de Carlos Manga, o riso foi prioridade.

Carlos Manga

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo / Tânia Rego; respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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