5 cantadas de Jô Soares

“A prova de que a natureza é sábia é que ela nem sabia que iríamos usar óculos e notem como colocou nossas orelhas.” Jô Soares

Institucional

O múltiplo Jô Soares é um artista que transita por cinema, televisão, literatura, pintura, música e teatro, sempre guiado por um fio único, mas não restrito: humor. Como ele próprio explica, através da metáfora, são os cinco dedos de uma mão. Sua faceta musical, no entanto, não é tão conhecida, especialmente como cantor. No programa de entrevistas que apresenta há décadas, invariavelmente Jô Soares dá as famosas “canjas” ao lado do “Sexteto”, com quem até já gravou disco. Mas antes disso Jô Soares já apresentava as suas “cantadas”, é o que vamos revelar através de 5 músicas.

Vampiro (rock, 1963) – Jô Soares
Jô Soares nem havia estreado na “Família Trapo”, primeiro sucesso de larga escala, em que contracenava, entre outros, com Ronald Golias; e o rock brasileiro vivia em pleno auge da “Jovem Guarda” – quando ele apareceu, um ano antes do golpe militar, em 1963, com o rock “Vampiro”, de sua autoria. A essa altura, Jô vinha de experiências no rádio e no cinema, onde atuou, por exemplo, em “O Homem do Sputnik”, de Carlos Manga, em 1959. A música, lançada em compacto que trazia “O Volks do Ronaldo” no lado B, combina o estilo de conquista do período com o humor sagaz de Jô Soares, ao trazer o clássico personagem do vampiro para a realidade do namoro nacional. Uma típica “cantada” de Jô Soares!

Capitão Gay (vinheta, 1982) – Jô Soares e Max Nunes
Personagem criado por Max Nunes e Jô Soares, o “Capitão Gay” é, até hoje, um dos maiores sucessos de seu intérprete. Ele aparecia numa das esquetes do programa “Viva o Gordo”, o primeiro solo de Jô Soares, e que deu origem ao espetáculo teatral “Viva o Gordo, Abaixo o Regime”, sátira contra a ditadura militar instaurada no país à época. A presença do “Capitão Gay” tornou-se tão efetiva na trajetória artística de Jô Soares que a vinheta criada, em 1982, para apresentá-lo, rapidamente ganhou a boca da população. Entre paródias com os heróis das histórias em quadrinho norte-americanas, e mimeses a trejeitos de alguns homossexuais, a música percorre um caminho de deboche e provocação. Outra “cantada” particular de Jô Soares.

Planeta Doce (infantil, 1983) – Guto e Léo Jaime
No ano de 1983, Jô Soares participou do especial infantil exibido pela Rede Globo, “PLUNCT PLACT ZUM”, interpretando uma música de Guto e Léo Jaime. “Planeta Doce” não poderia ser mais propícia ao ator, que sempre brincou com o fato de ser gordo e ter uma paixão por doces. Na pele do Mestre Cuca e Rei, cantou, com o acompanhamento nos vocais, da trupe de “João Penca e Seus Miquinhos Amestrados”, primeira banda de Léo Jaime, também fundada no humor e na esculhambação. No especial, outros nomes de peso se apresentaram, em inesquecíveis performances, como Raul Seixas, “Gang 90 & as Absurdettes”, ainda com seu líder Júlio Barroso, Eduardo Dussek e Fafá de Belém. Foi uma “cantada” infantil e doce de Jô Soares.

Um croquete (jazz, 2000) – Jô Soares e o Sexteto
Em 2000, Jô Soares finalmente registrou as apresentações que vinha fazendo com seu “Sexteto” na televisão e em shows. No álbum, a banda formada por Derico no saxofone e na flauta, Chiquinho no trompete, Miltinho na percussão e bateria, Bira no baixo, Tomati na guitarra e Osmar no piano, revisita clássicos do jazz, sempre precedidos por uma explicação bem humorada de Jô Soares, que além de cantar, toca cornet e bongô. No caso de “Um croquete”, o apresentador vai além, e cria uma paródica versão da música “One Meatball”, cantada por Josh White. Contando com a interação da platéia, Jô coloca seu tempero na tradição da música negra norte-americana. Mais uma “cantada” difícil de resistir. É como diz Oscar Wilde: “Deve-se resistir a tudo, menos a uma tentação”.

Rabada com agrião (paródia, 2010) – Jô Soares
Novamente em 2010, Jô Soares criou uma paródia para outro clássico do jazz norte-americano. Dessa vez a vítima da “cantada” de Jô foi a música “Saturday Night Fish Fry”, interpretada por Louis Jordan, que virou “Rabada com Agrião”. Bira, contrabaixista do “Sexteto” que tornou-se uma personagem do programa de entrevistas apresentado por Jô na Rede Globo é citado na letra, assim como alusões históricas a episódios da Bíblia Judaica, como o acontecido com as cidades de Sodoma e Gomorra. Desta forma, Jô Soares entrelaça o clássico ao atual, e deixa entrever uma das principais características de suas “cantadas” em qualquer área artística. A capacidade de lançar um olhar arguto e charmoso sobre a vida. E o olhar, como se sabe, na conquista, é fundamental.

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Raphael Vidigal

Fotos: Jô Soares e caracterizado como “Capitão Gay”, respectivamente, fonte de Arquivo.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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