Análise: arquiteta Zaha Hadid levou a ética do belo a qualquer custo

“O golpe de calcanhar categórico de minha pena escande como uma perna esquerda o zapateado mais altivo, o zapateado das mandíbulas de meu cérebro! Olé!” Salvador Dalí

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Dois dos maiores poetas brasileiros divergem quanto à condição da poesia. O pantaneiro Manoel de Barros alude às “máquinas que servem para não funcionar” e que podem um dia “milagrar de flores”. E arremata: “Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!”. Mario Quintana, gaúcho, prefere outra imagem, diz que “um poema que não te ajuda a viver e não te prepara para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!”. Como sempre a poesia, território por natureza do lúdico e do contraditório, em sua concisão e densidade, abrange interpretações, não raro, complexas e incompatíveis, que vão além do exposto. Interessante notar, portanto, que Manoel usa a metáfora da “máquina” para louvar o “imprestável”, e Quintana a do “chocalho”, um brinquedo, a fim de mencionar função e conferir sentido ante o mundo ao redor.

No ambiente da arquitetura tais considerações tornam-se mais complicadas pela ambígua natureza de um objeto de arte que se pretende exibir e utilizar ao mesmo tempo. Ou seja, antes de Hélio Oiticica criar o conceito de artes plásticas que se coadunam com o outro, a arquitetura já o fazia originalmente. A iraquiana Zaha Hadid pertence à estirpe de artistas como Gaudí, Niemeyer, e também Oscar Wilde e Salvador Dalí, para quem a estética e o aspecto formal, além de invólucro para o conteúdo, caracterizam parte fundamental do que pretendem dizer e de como almejam transformar o mundo. Nessa perspectiva os sentidos devem ser seduzidos e provocados para que, “à flor da pele”, se compreenda através do tato, da visão, do paladar, do olfato e da audição toda a expressividade da obra. Estamos no universo, por princípio, da exuberância.

Logo, a escultura se sobrepõe, em Zaha Hadid, à matemática. A arquitetura talvez seja uma das mais inebriantes formas de conhecimento justamente por sua condição hermafrodita, pois não se coloca francamente de pé sem um alicerce sólido, e não alça os ares sem a imaginação de seu criador. Se a música observa particularidade similar, ainda é mais pertinente levá-la por instintos, prática quase impossível em projetos arquitetônicos. Mas foi exatamente pelo espanto e assombro que suas construções provocaram que Zaha distinguiu-se de seus pares e adentrou ao panteão desejado. Embora também se imponha, freqüentemente, no ambiente da arquitetura, outra contradição, essa certamente mais grave. Se a estrutura que emerge aos olhos é a coqueluche desde princípio, muitas vezes estes se fecharam para a política dos mecenas. A ética do belo a qualquer custo compreende até seus horrores.

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Raphael Vidigal

Imagens: obras de Zaha Hadid.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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