90 anos de Sivuca, o sanfoneiro que criou a melodia de ‘João e Maria’

*por Raphael Vidigal

“Marandovás me ensinam, com seu corpo de sanfona, a andar em telhas.” Manoel de Barros

No palco, Sivuca parecia dois – principalmente quando dividia a cena com Hermeto Pascoal, também albino e dono de uma longa barba branca, ao estilo de Papai Noel –, dada a sua tremenda capacidade de transitar com versatilidade tanto pelo repertório erudito quanto no popular, indo de Johan Sebastian Bach (1685-1750) a cantigas de domínio público, devolvendo as influências assimiladas ao longo de uma carreira iniciada precocemente, aos 9 anos de idade, para dentro da harmonia rítmica de sua sanfona. Mais impressionante ainda é que, ao ouvir Sivuca, a impressão era a de se escutar a uma orquestra inteira, graças ao preenchimento sonoro, usualmente robusto, que ele conferia a seu instrumento. Pra pirraçar mais, ele ainda se divertia ao violão.

Não por acaso, o instrumentista, arranjador e compositor nascido há nove décadas, no dia 26 de maio, em Itabaiana, no interior da Paraíba, é considerado um dos maiores tocadores de acordeom que o Brasil já conheceu, ao lado dos não menos craques Dominguinhos e Oswaldinho do Acordeom, sem falar em Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que, por sinal, abriu as portas para Sivuca na famosa Rádio Nacional, do Rio. Por ter contrato assinado com a Rádio Clube de Pernambuco, o promissor músico acabou declinando do convite, o que dava uma medida de seu temperamento.

Mais tarde, Sivuca se mudaria para São Paulo e começaria a se apresentar com a Orquestra Record, dirigida pelo maestro Gabriel Miglori. Na mesma época, em 1951, experimentou o seu primeiro sucesso radiofônico com “Adeus Maria Fulô”, baião em parceria com Humberto Teixeira. A música seria revivida, em uma versão psicodélica, pelo grupo Os Mutantes, em 1968, sendo apresentada a uma insurgente geração hippie tupiniquim pelas vozes de Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias. Apesar disso, a consagração de Sivuca aconteceria primeiro no exterior.

O músico morou em Lisboa, Paris e Nova York, e compôs o arranjo do maior hit da sul-africana Miriam Makeba, a dançante e suingada “Pata Pata”, em 1967. Convidado por Oscar Brown Jr., criou a trilha do musical “Joy”. Ele ainda permaneceu nos Estados Unidos, entre Chicago e São Francisco, até 1975, quando uma gravadora brasileira finalmente se atentou para o talento do paraibano que o mundo inteiro já aplaudia. Depois que a Copacabana lançou dois de seus LP’s, Sivuca retornou ao Brasil, em 1977, e participou do Projeto Seis e Meia, com a violonista Rosinha de Valença.

Em sua terra natal, passou a travar parcerias com gente da cancha de Paulinho Tapajós, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc e Luiz Bandeira, até que, em um encontro literalmente único, foi responsável, ao lado de Chico Buarque, por um dos maiores clássicos da canção brasileira: “João e Maria”. No entanto, a melodia já existia desde 1947, e foi aproveitada por Chico justamente por remeter a seu período de infância. A valsa ingênua e doce, prenhe da delicadeza do universo lúdico, foi registrada em dueto por Nara Leão e Chico, no ano de 1978, em uma gravação antológica que segue cativando adultos e crianças.

Sivuca compôs, inclusive, com o humorista Renato Aragão, o Didi, ao ser chamado para produzir a música do filme “Os Vagabundos Trapalhões” (1982). Porém, a parceria mais profícua seria com Glorinha Gadelha, sua esposa. É de autoria do casal “Feira de Mangaio”, cantada por Clara Nunes em 1980, e “Se Te Pego na Mentira”, “Comigo Só”, “Guararema”, entre outras. Tendo o talento devidamente reconhecido por público e crítica, Sivuca colocou na praça os álbuns “Cabelo de Milho” (1980), “Sivuca e Chiquinho”, com Chiquinho do Acordeom e a participação especialíssima do maestro Radamés Gnattali, e “Sanfona e Realejo”, com Rildo Hora. Nesse ínterim, manteve intacto o seu prestígio no exterior, com três discos gravados na Suécia, em 1985. No mesmo ano, finalizou o ousado “Concerto Sinfônico para Asa Branca”, reforçando sua veia clássica.

A vida inteira, Sivuca levou e dividiu com o mundo a música oriunda do interior de seu país, por vezes brejeira e, em inúmeras ocasiões, agitada. O que dizer de sua versão para “Ponteio” (de Edu Lobo e Capinam) ou da irresistível “Xanana” (feita com Glorinha Gadelha)? Só ouvindo com as próprias orelhas para acreditar. Em Sivuca, ser de vanguarda era uma questão de atrevimento e inquietação, longe de pedantismos. O virtuosismo musical demonstrado nos palcos se contrapunha à personalidade. Diante da plateia, a exuberância sonora substituía o acanhamento. Os exageros eram pontuais. Nos 90 anos de seu nascimento, o legado do músico que nos deixou em 2006, aos 76 anos, pouco depois de receber a Ordem do Mérito Cultural das mãos do governo Lula, resiste aos trancos e barrancos, como um bom forró, ora lento, outrora arretado.

Fotos: Museu da Imagem e do Som/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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