32 músicas de Cazuza com os mais variados intérpretes

*por Raphael Vidigal

“a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante.” Rilke

Cazuza era Logun Edé, era a cara do Brasil, a cara do deboche, uma mentira sincera dita por um anjo rebelde que beijava o sexo de homens e mulheres, e que depois de muito voar, voou mais do que longe até o azul infinito. Questionado pela jornalista Marília Gabriela sobre a quem direcionava o seu desprezo total, Cazuza não titubeou, como era de seu feitio: “Eu tenho desprezo total pela direita e pela igreja. Eu acho a direita uma coisa tão mesquinha, o poder individual. A Aids caiu como uma luva, modelinho perfeito da direita e da igreja. A Aids caiu assim como um tailleur para eles, que nunca estiveram tão elegantes. E deselegantes, principalmente”, disparou. Além da coragem e do humor ácido, outra característica de Cazuza era a comunhão, o que possibilitou diversos encontros durante a sua vida e parcerias com os mais variados artistas.

“Todo Amor Que Houver Nesta Vida” (rock, 1982) – Cazuza e Roberto Frejat
Em “Todo Amor Que Houver Nesta Vida”, lançada pelo grupo Barão Vermelho em seu disco de estreia, no ano de 1982, Cazuza delimita bem os espaços de conflito entre o corpo e a mente. Na ânsia de possuir o parceiro em toda a sua plenitude, agilmente faz uma ressalva. “E se eu achar a tua fonte escondida/ Te alcanço em cheio o mel e a ferida/ E o corpo inteiro feito um furacão/ Boca, nuca, mão, e a tua mente não”. E completa a metáfora com mais uma imagem poderosa que liga o corpo aos prazeres da carne. “Ser teu pão, ser tua comida”. Lançada como um rock, foi regravada por Caetano Veloso em clima menos hostil e mais sereno, incorporado na gravação solo de Cazuza no ano de 1988.

“Down em Mim” (blues, 1982) – Cazuza
“Conheci Cazuza por intermédio de uma amiga em comum, pelo telefone, ligando para São Francisco (nos Estados Unidos) para bater papo. Ele estava lá e começou a conversar comigo, e eu já estava achando estranho aquele telefonema longo, perguntei se ele não estava gastando dinheiro demais, e o Cazuza, daquele jeito dele, me disse que tinha pegado o cartão de crédito de outra pessoa e estava usando para ligar. Combinamos que, quando ele chegasse no Brasil, a gente ia marcar de encontrar e ficamos amigos assim, espontaneamente. Cazuza era muito intenso. Ele era uma pessoa quando estava bêbado e outra pessoa quando estava careta. Podia ser doce, divertido, carinhoso, e, ao mesmo tempo, também tinha um lado imprevisível e agressivo”, conta Leo Jaime, que foi a primeira pessoa para quem Cazuza mostrou a letra do blues “Down em Mim”, uma porrada regravada pelo cantor Edson Cordeiro.

“Sem Conexão Com o Mundo Exterior” (rock, 1984) – Cazuza e Frejat
Sandra de Sá surgiu no embalo da soul música brasileira capitaneada por Tim Maia, e que contava ainda com Cassiano, Hyldon e Lady Zu. Com sua voz rascante e interpretação visceral era chamada por Cazuza de “a nossa Billie Holiday”. As atitudes de Sandra dentro e fora do palco sempre foram indissociáveis, exemplo de artista que se entrega ao ofício e vive a vida em cada música. Cazuza se tornaria padrinho do filho de Sandra. A parceria e amizade da dupla rendeu alguns duetos, como no registro ao vivo de “Blues da Piedade” e na versão para “Camila, Camila”, sucesso do grupo gaúcho Nenhum de Nós incluído no disco póstumo de Cazuza, “Por Aí…”, de 1991. Um dos encontros menos conhecidos em estúdio, no entanto, é a ótima “Sem Conexão Com o Mundo Exterior”, rock gravado para o disco lançado por Sandra no ano de 1984.

“Beth Balanço” (rock, 1984) – Cazuza e Roberto Frejat
Feita sob encomenda para o filme homônimo dirigido por Lael Rodrigues em 1984, “Beth Balanço” confirmou a ascensão do Barão Vermelho na cena do rock nacional naquele período, no esteio de outros sucessos presentes no terceiro álbum da banda, o último com a presença de Cazuza nos vocais, como “Maior Abandonado” e “Por Que a Gente É Assim?”. Interpretada no filme pela protagonista Débora Bloch, a música conta a trajetória da estudante mineira que vai ao Rio de Janeiro em busca do estrelato. Os versos sempre precisos e afiados de Cazuza transformaram a canção em clássico. “Quem tem um sonho não dança, Beth Balanço, meu amor, me avise quando for embora”, afirmava. A música foi regravada por Lulu Santos, que trabalhou com Cazuza na Som Livre.

“Eu Queria Ter Uma Bomba” (balada, 1984) – Cazuza e Frejat
“No ano passado, lancei um EP de voz e violão, chamado ‘Coragem de Poeta’. É um pequeno álbum de intérprete, em que releio autores importantes para mim. Entre eles, está o Cazuza. Durante minha adolescência, ele me inspirou não só para a música e a poesia, mas, também, para viver a liberdade e o prazer sem culpas. O percurso do Cazuza pela vida foi tão especial que sua existência não acabou depois de sua morte. Ele está vivo entre nós, em sua música, através dos tempos. Isso é inspirador diante da demagogia reacionária e religiosa que nos assombra e ameaça as conquistas do Estado de direito”, declara o cantor e compositor paraense Arthur Nogueira, que deu voz a “Eu Queria Ter Uma Bomba”, composta por Cazuza e Frejat e incluída na telenovela “A Gata Comeu”.

“Por Que a Gente É Assim?” (rock, 1984) – Cazuza, Frejat e Ezequiel Neves
Ele aparece nas palavras do poeta Paulo Leminski e também numa canção de Cazuza. Seja analisado de maneira rigorosa numa espécie de ensaio ou elogio, e, ainda mais, expresso em palavras que conclamam aos jorros à marginalidade, Allen Ginsberg não perde uma característica, a de servir como ferramenta de impudor e provocação. Foi esta, pois, a verdadeira vocação de sua obra, cujos maquinados versos adquiriam velocidade que possibilitavam ao leitor a experiência da coisa viva, sendo feita e nascida naquele instante, diante dos próprios olhos, quando na verdade emergia de um requintado processo de gestação, em que as demandas do universo estético e carnal convergiam juntas num movimento vertiginoso e de entrega total, pura, fatídica. Esse espírito aparece na música “Por Que a Gente É Assim?”, lançada pelo Barão Vermelho em 1984. A canção enfrentou resistência dos companheiros de banda de Cazuza para ser gravada, por conta de versos que, supostamente, remetiam à homossexualidade do cantor, como “você tem a vida inteira pra me devorar…”.

“Mal Nenhum” (rock, 1985) – Cazuza e Lobão
Similaridades de comportamento e gostos em comum uniam Lobão e Cazuza. Em 1985, ambos expulsos de seus respectivos grupos, Barão Vermelho e Os Ronaldos, encontraram-se no Baixo Leblon e, por sugestão de Cazuza, iniciaram parceria musical. A música “Mal Nenhum”, lançada por Cazuza em seu primeiro disco solo, “Exagerado”, de 1985, foi apresentada pelo cantor pela primeira vez durante o “Rock In Rio” daquele ano, ainda na companhia do grupo “Barão Vermelho”. Antes de cantá-la Cazuza faz uma defesa, a seus modos, de Lobão. O autor da letra afirma que o texto diz respeito a “uma fase em que nem eu me aguentava. Andava meio agressivo e o Lobão estava parecido comigo”. Já Lobão, responsável pela melodia diz que “apesar de parecer simples, foi bastante trabalhada”. O que emerge deste conjunto é uma música visceral, lírica, recado de uma geração para seus afetos e opressores. Regravada, entre outros, por Lobão, Cássia Eller e Arnaldo Antunes.

“Exagerado” (rock, 1985) – Cazuza, Leoni e Ezequiel Neves
“Tem esse paradoxo do que é força e do que é fraqueza. A que ponto a gente é levado a pensar que está sendo forte, porque vive num mundo cada vez mais individualista, egoísta, em que o amor ‘Exagerado’ que o Cazuza cantava e que o próprio Roberto Carlos coloca em ‘Sua Estupidez’ é visto como démodé. As pessoas têm vergonha de assumir que estão sofrendo, que sentem falta”. As palavras são da cantora alagoana Flora que, em 2020, lançou seu disco de estreia: “A Emocionante Fraqueza dos Fortes”. Título do primeiro LP da carreira solo de Cazuza, a música “Exagerado” tornou-se praticamente um emblema da personalidade do artista, que nunca escondeu a postura entregue e derramada tanto no palco quanto na vida. Parceria com Leoni e o fiel escudeiro Ezequiel Neves, ganhou regravações de Arnaldo Antunes, Paulo Ricardo, Herbert Vianna.

“Codinome Beija-Flor” (balada, 1985) – Cazuza, Ezequiel Neves e Reinaldo Arias
Ao lado de Cazuza, considerado o “Rei do baixo Leblon”, Luiz Melodia era visto com frequência na badalada noite do Rio de Janeiro. A capacidade como cantor rendeu um elogio inédito de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza (1958-1990), que considerou o registro de Melodia para “Codinome Beija-Flor” melhor do que a do próprio rebento. “Ele se apropriava das canções”, garante Toninho Vaz, autor da biografia “Meu Nome É Ébano: A Vida e a Obra de Luiz Melodia”, lançada em 2020. Cazuza compôs os versos de “Codinome Beija-Flor” deitado em uma cama de hospital, numa das internações para tratar a Aids que o levou aos 32 anos, enquanto observava beija-flores na janela. Depois, a letra recebeu acréscimos do amigo Ezequiel Neves e de Reinaldo Arias, até ser incluída em “Exagerado”.

“Gatinha de Rua” (rock, 1985) – Cazuza e Frejat
A dor-de-cotovelo foi o grande referencial na formação de Cazuza como letrista. Não por acaso tocavam em sua vitrola regularmente os discos de Lupicínio Rodrigues, inventor do termo, mas também Dalva de Oliveira, Dolores Duran, Maysa e outras divas. Dessa mistura com o rock brasileiro da década de 1980, Cazuza criou um jeito próprio, único, facilmente identificável de composição. Seu estilo situa-se entre a ironia, a crítica, o distanciamento, e a total entrega aos sentimentos mais comuns, perenes e mundanos. “Gatinha de rua” desliza nesse ínterim, nesse terreno escorregadio das paixões que não deram certo e seguem torturando os donos de seus corações. Nesse caso, a gatinha de rua “agora já trocou de dono, abandonou o meu sonho…”, canta com Marcelo neste dueto lançado em 1985, uma parceria com Roberto Frejat.

“Só As Mães São Felizes” (rock, 1985) – Cazuza e Frejat
Cazuza também não abordou a maternidade do lado óbvio. Pelo contrário, ele mesmo dizia que “Só As Mães São Felizes”, rock composto com Roberto Frejat em 1985, era uma homenagem às pessoas que “vivem o lado escuro da vida”. O título, inusitado, e evidentemente provocativo, fora retirado de um poema do escritor beat Jack Kerouac, em que o mesmo, assim como na música de Cazuza, não explicitava nenhuma relação com o restante do texto. Após o choque inicial, inclusive de sua própria mãe, Lucinha Araújo, que esperava uma homenagem, Cazuza dava sua versão dos fatos: “Usei imagens fortes para falar de meu preconceito com o fato de não permitir a nenhuma mãe do mundo encarar as barras que eu encarava. Era como se eu dissesse que as mães são para serem colocadas num altar, para serem veneradas”. Foi gravada no disco “Exagerado”.

“[Glória], Junkie Bacana” (rock, 1986) – Cazuza e Lobão
Depois da primeira dose, é difícil largar o copo. Cazuza e Lobão retomam a parceria um ano depois da primeira, em 1986, e logo em grande estilo. A vida de excessos, o discurso incisivo e o deboche tomam o posto de frente na canção “[Glória], Junkie Bacana”, que gerou divergências entre os parceiros já no título. Lobão explica que “Glória, a Junkie Bacana do título é minha irmã, Cazuza fez a letra em homenagem a ela. Ele adorava minha irmã e eu detestava na época porque ela tinha essa patologia de acordar com uma vela e, morando na minha casa bebeu e jogou álcool no cobertor”. Além de tocar fogo na realidade, como já era de se esperar, a canção refletia esse incêndio provocado pelos dois que, moderadamente, pediam desculpas ao vizinho por “Mijar na janela/Chamando por Deus/E gritando o nome dela”, entre outras cositás más. A música, letra de Cazuza e melodia de Lobão, foi lançada pelo segundo em 1986, no álbum “O Rock Errou”.

“Amigos de Bar” (blues, 1986) – Cazuza, Bebel Gilberto e Dé Palmeira
Uma das canções menos conhecidas do trio Cazuza, Bebel Gilberto e Dé Palmeira chama-se “Amigos de Bar”, um blues que acabou escondido no disco que a filha de João Gilberto e Miúcha lançou em 1986. À época inseparáveis, Cazuza, Bebel e Dé viviam na Fazenda Inglesa, em Petrópolis, interior do Rio, que o pai de Cazuza possuía. Dé namorava Bebel. Outro divertimento preferencial do trio era passar noites no baixo Leblon, onde os bares ficavam abertos até o amanhecer. Essa intensa atividade noturna foi o que inspirou os versos de “Amigos de Bar”, que receberam melodia de Dé e adaptações de Bebel. É um desses tesouros escondidos de Cazuza que merece ser descoberto.

“Mais Feliz” (balada, 1986) – Cazuza, Bebel Gilberto e Dé Palmeira
Cazuza e Bebel Gilberto construíram uma amizade que foi da adolescência até o final da vida. A filha de João Gilberto compôs com o poeta exagerado “Preciso Dizer Que Te Amo” e inspirou “Mulher Sem Razão”, lançada por Cazuza no disco “Burguesia” e, mais tarde, regravada por Adriana Calcanhotto. A gaúcha também deu voz a “Mais Feliz”, outra parceria de Cazuza, Bebel e Dé Palmeira, baixista do Barão Vermelho que chegou a namorar Bebel. “Mais Feliz” é uma balada romântica, que fala sobre uma prova de amor feita entre dois amantes. “Rimas fáceis, calafrios/ Fura o dedo faz um pacto comigo”, diz um dos versos da faixa.

“Dia dos Namorados” (balada, 1987) – Cazuza e Perinho Albuquerque
Composta em 1986 a música “Dia dos Namorados” ficou fora de “Só Se For a Dois”, disco lançado por Cazuza um ano mais tarde. Parceria do “poeta exagerado” com Perinho Albuquerque, a música foi então oferecida para Zezé Motta, que a cantou em shows, mas não chegou a registrá-la por falta de gravadora na época. Trinta anos depois, com o intermédio do produtor e baixista Nilo Romero a gravação feita com a voz de Cazuza foi recuperada e mais: passou a contar com a adesão de Ney Matogrosso. Não por acaso, o dueto bisa relação protagonizada pelos dois, que foram namorados. É, no entanto, o único registro musical com a voz dos dois juntos.

“A Inocência do Prazer” (balada, 1987) – Cazuza e George Israel
“A Inocência do Prazer”, um dos maiores êxitos de Dulce Quental, aconteceu na forma de presente. “A letra de ‘A Inocência do Prazer’ foi feita pra mim, inspirada no fim de uma romance que eu tive com uma pessoa ligada a ele também. Cazuza tinha essa capacidade de se colocar no lugar do outro e, ainda assim, falar dele”, conta Dulce. E para quem quiser ter uma vaga ideia de como se davam esses encontros, a melhor pedida está no dueto em que ela e Cazuza interpretam uma música de Aldo Meolla “‘Tudo é Mais’ gravei no meu primeiro disco, o ‘Délica’. Eu tinha saído do ‘Sempre Livre’, Cazuza achou ousado, mas acabou fazendo a mesma coisa depois. A gente riu à beça disso. Essa gravação tem uma história engraçada. Ele se atrasou muito para a sessão e eu acabei ficando de pileque. Gravamos, mas a minha interpretação ficou exagerada – não era só ele o exagerado – então depois eu resolvi gravar de novo a minha parte”.

“Brasil” (samba-rock, 1988) – Cazuza, Nilo Romero e George Israel
A partir de uma composição feita sob encomenda, Cazuza criou um dos hinos da música brasileira, e não apenas de sua geração. “Brasil” foi um pedido do cineasta Lael Rodrigues para a trilha sonora do filme “Rádio Pirata”, e surgiu exuberante na voz de Gal Costa na abertura da novela global “Vale Tudo”, em 1988. Cazuza e Gal a interpretaram em um dueto descontraído no especial da Rede Globo dedicado ao compositor. A música é pródiga em imagens impactantes e encontra Cazuza na plenitude de sua criatividade. “Brasil é um deboche sem autocompaixão, em que eu peço à pátria que me conte todas as suas sacanagens, que eu não vou espalhar para ninguém. Os problemas do Brasil parecem os mesmos desde o descobrimento: renda concentrada, a maioria da população sem acesso a nada. O problema todo do Brasil é a classe dominante, mais nada”, disse Cazuza. Cássia Eller a regravou.

“O Tempo Não Para” (rock, 1988) – Cazuza e Arnaldo Brandão
Todas as músicas do espetáculo de lançamento do álbum “Ideologia” já estavam definidas quando Cazuza apresentou a Ney Matogrosso uma novidade. O antigo vocalista do grupo Secos e Molhados era o responsável pela direção, iluminação e cenografia do show. Amigos de longa data, Cazuza e Ney haviam sido namorados em meados da década de 1970. Ao se deparar com a letra arrebatadora de “O Tempo Não Para”, Ney não teve dúvidas de que a música daria nome à turnê. Parceria com Arnaldo Brandão, “O Tempo Não Para” mescla a batalha pela vida de Cazuza com as agonias de um país em constante crise. “A música é sobre essa velharia que está aí e vai passar. Vão ficar as ideias de uma nova geração”, afirmou Cazuza. Ney, Simone e Elza Soares a regravaram.

“Blues da Piedade” (blues, 1988) – Cazuza e Roberto Frejat
A letra impiedosa e implacável de “Blues da Piedade” oferece uma espécie de paradoxo com o título dessa canção, lançada em 1988 no álbum “Ideologia”, e cantada por Cazuza em dueto com Sandra de Sá em show. Em outras palavras, Cazuza pede piedade a todos aqueles que são dignos de dó: “Agora eu vou cantar pros miseráveis/ Que vagam pelo mundo derrotados/ Pra essas sementes mal plantadas/ Que já nascem com cara de abortadas/ (…) Pra quem não sabe amar/ Fica esperando alguém que caiba no seu sonho/ Como varizes que vão aumentando/ Como insetos em volta da lâmpada”. Com metáforas poderosas, Cazuza enfia uma estaca no peito dos hipócritas e medíocres. Como era comum na parceria dos dois, Frejat criou a melodia depois de receber a letra de Cazuza.

“Boas Novas” (rock, 1988) – Cazuza
Após ser diagnosticado com o vírus da Aids, uma verdadeira sentença de morte na época, Cazuza passou uma temporada em Boston, nos Estados Unidos, na tentativa de se curar da doença. Foi nesse ambiente que ele compôs grande parte das canções que integram o álbum “Ideologia”, de 1988, dentre elas “Boas Novas”. Pessoal até a medula, a música invoca o martírio que o artista vivia, e é das poucas composta apenas por Cazuza, sem parceria. Como era de seu feitio, o poeta exagerado encarava a situação sem volteios ou meias palavras, disposto a investir na vida até o final: “Eu vi a cara da morte e ela estava viva”, declarava.

“Ideologia” (rock, 1988) – Cazuza e Roberto Frejat
Às vésperas de entrar em estúdio para gravar o seu terceiro disco solo, Cazuza foi internado em Boston, nos Estados Unidos, onde deu prosseguimento ao tratamento contra a Aids com a qual ele havia sido diagnosticado em 1987. É desse período a letra de “Ideologia”, que batiza o mais importante álbum da carreira do eterno exagerado. Com melodia de Roberto Frejat, a composição é “sobre o que eu acreditava quando tinha 16, 17 anos, e como estou hoje. Eu achava que tinha mudado o mundo e que, dali para a frente, as coisas avançariam mais ainda. Não sabia que iria acontecer esse freio. É como se agora a gente tivesse que pagar a conta da festa”, nas palavras de Cazuza. A música foi regravada por Marina Lima, Paulo Ricardo, Sandra de Sá, entre vários outros.

“Preciso Dizer Que Te Amo” (balada, 1988) – Cazuza, Dé Palmeira e Bebel Gilberto
Interpretada por Cazuza no especial “Uma Prova de Amor”, exibido pela Rede Globo em 1989, a música teve o seu primeiro registro revelado no ano de 2004, quando o produtor Ezequiel Neves recuperou a fita cassete original. Lançada na coletânea “Preciso Dizer Que Te Amo”, a versão apresenta as vozes de Bebel Gilberto e Cazuza sob o acompanhamento do violão de Dé Palmeira. “E até o tempo passa arrastado/ Só pra eu ficar do teu lado”, sublinham os versos prenhes de paixão. Inicialmente, o refrão dizia: “É que eu preciso dizer que te amo/ Desentalar esse osso da minha garganta”, mas Dé Palmeira o achou muito “punk”, e Cazuza substituiu a expressão por “te ganhar ou perder sem engano”. A canção recebeu inúmeras regravações, com diferentes arranjos, mas mantendo o poder de identificação entre os românticos e apaixonados. Marina Lima, Leo Jaime, Bebel Gilberto e Cássia Eller foram alguns dos que deram voz a essa balada.

“Faz Parte do Meu Show” (bossa nova, 1988) – Cazuza e Renato Ladeira
A formação musical de Cazuza tinha muito da música brasileira da Época de Ouro do Rádio, fonte de onde bebeu para maturar versos de dor de cotovelo adaptados ao espírito contestador que ele aprendeu com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison e outros roqueiros norte-americanos. Do rol de ídolos nacionais, constava Dolores Duran, Maysa e Angela Maria, para quem compôs, em 1987, a rumba “Tapas na Cara”, bem ao estilo da intérprete. Em 1988, Cazuza resolveu adentrar o universo da bossa nova, com “Faz Parte do Meu Show”, parceria com Renato Ladeira. A música seria revisitada por Cauby Peixoto, em uma gravação impagável em que ele aproveitava a deixa para relembrar os próprios sucessos que, afinal de contas, faziam parte de seu show.

“Um Trem Para as Estrelas” (MPB, 1988) – Cazuza e Gilberto Gil
Cazuza idolatrava Gilberto Gil desde antes de adentrar oficialmente o mundo da música. Na verdade, esse universo sempre esteve presente em sua vida. Filho de João Araújo, fundador e presidente da gravadora Som Livre, Cazuza se habituou a receber em sua casa nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão e toda a trupe dos Novos Baianos, como Moraes Moreira, Baby do Brasil e Pepeu Gomes. No disco “Ideologia”, Cazuza atingiu o auge da maturidade artística, e a parceria com Gilberto Gil dá uma das provas. “Um Trem Para as Estrelas” reflete sobre a realidade social do Brasil, ao mesmo tempo em que guarda espaço para as meditações de foro íntimo de Cazuza, um poeta peculiar.

“Perto do Fogo” (balada, 1989) – Cazuza e Rita Lee
Atitude e poesia. Não tinha como Cazuza não se identificar com Rita Lee, já que ambos, cada a um a seu modo e em épocas distintas, trataram de desbravar as barreiras impostas pela música brasileira e o mundo a fim de dar o seu grito de liberdade. A parceria entre a dupla, no entanto, demorou a sair, e não por conta da diferença de gerações. Cazuza idolatrava Rita há muito tempo, mas ela não se dava com Ezequiel Neves, produtor, parceiro e amigo inseparável de Cazuza. No leito de um hospital para tratar a Aids que o vitimaria aos 32 anos, o cantor pediu uma trégua na briga entre Ezequiel e Rita. Logo que a cantora o visitou, eles compuseram “Perto do Fogo”, que começa como uma ode aos cabelos de Rita, para depois se transformar em um hino identificado com os valores hippie.

“Azul e Amarelo” (balada, 1989) – Cazuza, Lobão e Cartola
“Azul e Amarelo” é outro caso de parceria tripla envolvendo Lobão e Cazuza, embora o outro ‘compositor’ seja, na verdade, um homenageado, e uma das últimas dos dois. Como relata Lobão, “’Azul e Amarelo’ era uma música nitidamente de despedida”. Cazuza recorre às cores de seu guia espiritual no candomblé para dar título à música, conhecido por ser metade menino, metade mulher, como ele diz: “Eu sou cínico, revoltado e menino, mas principalmente muito menino. Sou um edé no candomblé. Sempre que eu vou a um lugar espírita, vem um indiozinho me proteger. Meu anjo da guarda é uma criança”. Na letra, aflora a doçura e singeleza de Cazuza que se diz protegido e crente de “anjos, fadas, gnomos” e outras criaturas envolvidas no som de fantasia. A inclusão de Cartola como um dos parceiros veio por sugestão de Cazuza, que dizia usurpar versos de uma canção do sambista, no caso “Não quero/ Não vou/ Não quero”, presentes em “Autonomia”. E ganhou versão de Paulinho da Viola.

“Cobaias de Deus” (blues, 1989) – Angela Ro Ro e Cazuza
Cazuza era fã de Angela Ro Ro desde que se entendia por gente, e via nela uma referência comportamental e musical de rebeldia e transgressão. Para a musa, ele compôs, com Frejat, “Malandragem”, mas Ro Ro não negou a fama de impulsiva e renegou a canção, mais tarde gravada com enorme sucesso por Cássia Eller. Sem se dar por satisfeito, Cazuza propôs a Ro Ro uma parceria. Juntos, eles compuseram o lancinante blues “Cobaias de Deus”, que não fazia concessões às esperanças humanas. Inspirada no martírio que Cazuza enfrentava em decorrência da Aids, ganhou a interpretação vigorosa de Ro Ro.

“Quero Ele” (balada, 1989) – Cazuza e Lobão
As parcerias póstumas entre Lobão e Cazuza começaram antes que o primeiro pudesse saber. Um tempo depois da morte do amigo em 1990, aos 32 anos, vítima da AIDS, Lobão recebeu direitos autorais por uma música da qual não sabia ter participado. “Quero Ele” foi composta por Cazuza especialmente para a transformista Rogéria em 1989, que estrelava a versão teatral do espetáculo “Querelle”, de Jean Genet, sobre a vida do marinheiro que seduzia homens e mulheres e frequentava o submundo do crime e das drogas no universo francês. O trocadilho entre o nome da personagem e a vontade por alguém serviram de combustível para Cazuza desfilar versos da estirpe “Quero tê-las/Seus bagos/Suas orelhas/Quero ele brocha/Quero ele rocha/Quero ele com seus pentelhos/E seu doce sorriso nas sobrancelhas/(…)/Quero Querelle e seu irmão/(Quero Rogéria e seu pauzão)”, suficientes para Lobão recusar a parceria. Mas como Cazuza não se fez de rogado, Lobão ficou sendo parceiro mesmo a descontentamento. Interpretada por Rogéria em cena, a música foi também registrada por Adriana Capparelli em espetáculo com canções do teatro.

“Nem Tudo É Verdade” (punk rock, 1989) – Supla e Cazuza
Alguns pontos em comum unem Cazuza a Supla. Músicos bem nascidos, cantores, que se encontravam, com alguma frequência, nas noites paulistanas regadas a álcool e outras drogas, quando das estadias do carioca na capital. Mas as semelhanças param por aí. Não dá para comparar a qualidade do trabalho dos dois artistas. Ainda assim, já no fim da vida, Cazuza resolveu compor uma canção com Supla, aliás, a diversidade de parceiros era uma das características do “Exagerado”, forte demonstração de seu caráter agregador e festeiro. “Nem Tudo É Verdade” é uma espécie de punk rock que auxilia crítica social a frases feitas, fáceis de serem encaixadas ao canto rígido de Supla.

“Quando Eu Estiver Cantando” (balada, 1989) – Cazuza e João Rebouças
Nascido no Rio de Janeiro, Renato Russo morreu prematuramente, em 11 de outubro de 1996, aos 36 anos, vítima de complicações decorrentes da Aids. Quando compôs “Vento no Litoral” (com o auxílio de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá), o músico já se sabia portador do vírus HIV, fato que ele nunca externou publicamente, ao contrário de Cazuza que, meses após morrer, em 1990, foi homenageado pelo líder da Legião Urbana em um show, quando ele interpretou, com sua voz poderosa e grave, “Quando Eu Estiver Cantando”, última canção do derradeiro disco do autor de “Exagerado”. Parceria com João Rebouças lançada no álbum “Burguesia”, de 1989, a música é uma das prediletas de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, e teria sido composta para Maria Bethânia, que regravou “Todo Amor Que Houver Nesta Vida”, assim como o irmão Caetano Veloso.

“Doralinda” (MPB, 1989) – Cazuza e João Donato
“Doralinda” é uma das últimas composições de Cazuza, lançada postumamente, em 1991. Nesta sensível parceria com João Donato, o poeta reflete sobre a existência e propõe para a sua amada as riquezas materiais da vida, que disfarçam o que se quer mostrar de verdade, o real sentimento e sua impalpabilidade. Por isso ele afirma: “Eu queria te dar a lua, só que pintada de verde/ Te dar as estrelas, de uma árvore de Natal/ E todo o dinheiro falso do mundo, eu queria te dar”. Ou seja, prova de que o dinheiro em si, como símbolo, não provoca as desilusões humanas, mas como tudo o que é manipulado, é do seu uso que dependerá a conotação boa ou ruim. Ao fim, Cazuza vaticina: “Eu queria te dar o amor que eu talvez nem tenha pra dar…”. A música foi regravada por Nana Caymmi, o próprio João Donato e Emílio Santiago, e, com singeleza, revela e esconde o real espírito natalino.

“Malandragem” (rock, 1994) – Cazuza e Roberto Frejat
A música “Malandragem” foi finalizada por Roberto Frejat e Cazuza em 1989, composta especialmente para Angela Ro Ro, um desejo íntimo do poeta exagerado, fã da cantora. Angela, porém, declinou do convite, ao não se identificar com os versos “quem sabe eu ainda sou uma garotinha”, nas portas de completar 40 anos e em meio à crise de envelhecimento. Em 1994, quatro anos após a morte de Cazuza, esse rock veio à luz na voz marcante de Cássia Eller, outra discípula do próprio autor e da cantora Ro Ro. A melodia de Frejat emoldura versos de rebeldia e transgressão, que refletem, nada mais, do que um grito de liberdade e desprendimento tão comuns à infância, e como a manutenção desta ingenuidade pode estar ligada a estas qualidades. “Eu só peço a Deus, um pouco de malandragem, pois sou criança, e não conheço a verdade…”. É, por fim, uma ode à irresponsabilidade e à delícia da brincadeira.

Foto: Site oficial/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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