12 canções românticas da música popular brasileira

*por Amanda Maciel & Raphael Vidigal

“Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.” Pablo Neruda

A tradição romântica da música brasileira data de meados do século XIX, quando a modinha e a valsa, importadas da Europa, deram origem às serenatas, alcunha surgida no Rio de Janeiro para rebatizar um antigo hábito popular das cidades: cantar sob a lua, por vezes munido de um violão, debaixo da janela da pessoa amada. Nas décadas de 1940 e 1950, o bolero, vindo do México, dominava as rádios brasileiras. Uma variação nacional para o estilo sentimental e derramado era o samba-canção, cujo caráter sofrido deu vazão a uma vertente ainda mais lamuriosa, conhecida como dor de cotovelo, expressão associada ao compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974).

Com o passar dos anos, o romantismo se transformou em um gênero em si, e caiu na boca do povo ao som de versos interpretados por Fábio Jr., Wando, Amado Batista, Vanusa, Joanna, Ana Carolina, Sandy, e, principalmente, o Rei Roberto Carlos. Mas o sentimento mais universal do mundo nunca deixou de inspirar artistas de variados estilos, indo do chorinho de Braguinha e Pixinguinha ao samba bossa-novista de Vinicius de Moraes, passando pelo crivo do roqueiro Cazuza e chegando até a MPB de Adriana Calcanhotto, Anavitória, Rubel e Tiago Iorc, com parada obrigatória no sertanejo universitário de Marília Mendonça e da dupla Maiara & Maraisa, e no pop de Luísa Sonza e Melim, mostrando que o amor é livre e para todos os desejos e gostos.

“Carinhoso” (samba-choro, 1937) – Pixinguinha e João de Barro
Pixinguinha foi regente de várias orquestras, entre elas a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, Oito Batutas e Diabos do Céu. Suas inovações melódicas provocaram celeuma na imprensa, que não compreendia a insurgente sofisticação. Ao escrever um choro em duas partes, e não em três, como era costume, o próprio compositor sabia que seria alvo de reclamações. Por isso mesmo, “Carinhoso” demorou 20 anos para tomar forma definitiva e alcançar sucesso irrevogável. O que só aconteceu quando João de Barro, o Braguinha, adentrou a ourivesaria de Pixinguinha e lapidou com versos a refinada harmonia de “Carinhoso”. Desde a gravação original de Orlando Silva, em 1937, por recusa de Francisco Alves e quebra de compromisso de Carlos Galhardo, a música se tornou um dos maiores emblemas do cancioneiro romântico brasileiro, com mais de 200 regravações.

“Samba de Gesse” (bossa nova, 1971) – Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes (1913-1980) foi casado nove vezes. A sétima esposa foi a atriz baiana Gessy Gesse. Apresentados por Maria Bethânia, os dois selaram o matrimônio de maneira pouca ortodoxa. Numa praia de Salvador, Vinicius vestiu-se de bata branca e uma coroa de margaridas. Os dois foram morar na capital baiana, e o relacionamento durou sete anos. Enquanto a chama do amor ainda não havia se apagado, o Poetinha compôs, para a sua musa, “Samba de Gesse”, um singelo samba ao estilo da bossa nova, em que declarava uma paixão que, apesar de nova, ele suspeitava vir de outras eras: “Até parece que eu conhecia sempre você/ Que me aparece quando eu não via jeito de ser/ (…) Quando amanhece e eu ao meu lado vejo você/ Eu digo em prece que a vida é linda como você”. Fato curioso e raro na trajetória do compositor, Vinicius criou melodia e letra sozinho, sem parceiros.

“Preciso Dizer Que Te Amo” (balada, 1988) – Cazuza, Dé Palmeira e Bebel Gilberto
Interpretada por Cazuza no especial “Uma Prova de Amor”, exibido pela Rede Globo em 1989, a música teve o seu primeiro registro revelado no ano de 2004, quando o produtor Ezequiel Neves recuperou a fita cassete original. Lançada na coletânea “Preciso Dizer Que Te Amo”, a versão apresenta as vozes de Bebel Gilberto e Cazuza sob o acompanhamento do violão de Dé Palmeira. “E até o tempo passa arrastado/ Só pra eu ficar do teu lado”, sublinham os versos prenhes de paixão. Inicialmente, o refrão dizia: “É que eu preciso dizer que te amo/ Desentalar esse osso da minha garganta”, mas Dé Palmeira o achou muito “punk”, e Cazuza substituiu a expressão por “te ganhar ou perder sem engano”. A canção recebeu inúmeras regravações, com diferentes arranjos, mas mantendo o poder de identificação entre os românticos e apaixonados. Marina Lima, Leo Jaime, Bebel Gilberto e Cássia Eller foram alguns dos que deram voz a essa balada.

“Vambora” (balada, 1998) – Adriana Calcanhotto
“Vambora” integra o quarto disco de Adriana Calcanhotto, “Maritmo”, que deu início à trilogia marítima da cantora, finalizada em 2019 com o elogiado “Margem”. A música rapidamente se transformaria em um dos principais hits da gaúcha. Calcada em uma estrutura romântica, em que o ponto de partida é o desenlace amoroso, Calcanhotto se vale de estratégias ambivalentes que aumentam a complexidade da canção, sem eliminar a sua atmosfera romântica. Assim, “Vambora” atende tanto aos anseios do público que busca um consolo para a frustração romântica quanto para aqueles mais antenados, que pescam as referências às obras literárias dos poetas Ferreira Gullar (1930-2016) e Manuel Bandeira (1886-1968), cujos títulos dos livros “Dentro da Noite Veloz” e “A Cinza das Horas” são citados. Até hoje, “Vambora” é indispensável em qualquer show de sucessos da compositora gaúcha.

“Partilhar” (balada, 2014) – Rubel
Talvez essa canção tenha passado desapercebida do grande público quando foi lançada, lá em 2014, pelo programa Sofar Sounds, ou mesmo quando, em 2018, finalmente integrou um álbum, o “Casas”, do cantor Rubel, mas nada que um videoclipe com a participação de Marina Ruy Barbosa e a inserção da dupla Anavitória não possa consertar. A recriação da música gerou um hit, e, de lá pra cá, passou a ser comum a execução em casamentos de “Partilhar” e a escolha por vários casais de ter a música como aquela que marca o relacionamento. “Se for preciso/ Eu pego um barco, eu remo/ Por seis meses, como peixe pra te ver/ Tão pra inventar um mar grande o bastante/ Que me assuste e que eu desista de você”, diz a abertura da canção, antes de entrar no refrão: “Eu quero partilhar/ A vida boa com você”, simbolizando o companheirismo e a cumplicidade desse romance.

“Medo Bobo” (sertaneja, 2016) – Maraisa, Juliano Tchula, Vinicius Poeta, Junior Pepato e Benicio Neto
A ascensão de intérpretes femininas no universo do sertanejo universitário teve como um dos principais nomes a dupla de irmãs gêmeas Maiara & Maraisa, nascidas no dia 31 de dezembro de 1987, noite de réveillon, em São José dos Quatro Marcos, no interior do Mato Grosso. Ao lado de “10%”, o primeiro hit a dar projeção nacional para as cantoras foi “Medo Bobo”, balada sertaneja assinada por um time tão amplo como aqueles que costumam apresentar sambas-enredos nas avenidas do atual Carnaval carioca. Fato é que o refrão “E na hora que eu te beijei/ Foi melhor do que eu imaginei/ Se eu soubesse tinha feito antes/ No fundo sempre fomos bons amantes” grudou tanto nas rádios e plataformas digitais quanto no coração dos fãs. Em 2019, a faixa foi relida pelo cantor Rubel para a trilha da novela “Amor de Mãe”, com um arranjo diferenciado que voltou a enternecer corações.

“Ai, Amor” (balada, 2018) – Ana Caetano
Primeira música de trabalho do álbum “O Tempo É Agora”, lançado em 2018 pela dupla tocantinense Anavitória, formada por Ana Caetano e Vitória Falcão, a balada “Ai Amor” fala sobre um final de relacionamento e aborda as incertezas pelas quais todos nós já passamos ao experimentar a sensação de ver o amor indo embora. Mais forte e mais expressiva que o restante do segundo álbum da dupla, a música composta por Ana Caetano possui um daqueles refrões chiclete e simples, que fazem a gente cantarolar sem perceber: “Ai, amor/ Será que tu divide a dor/ Do teu peito cansado/ Com alguém que não vai te sarar?/ Meu amor/ Eu vivo no aguardo/ De ver você voltando, cruzando a porta”, antes de emendar onomatopeias delicadas que substituem os famosos “laraiás” do samba. Como prova desse sucesso, o vídeo de “Ai, Amor” já tem quase 30 milhões de visualizações no YouTube.

“Meu Abrigo” (balada, 2018) – Gabriela Melim, Rodrigo Melim e Diogo Melim
Dentro de um cofrinho em formato de porco, Gabriela Melim juntava suas economias na adolescência. Porém, um belo dia, em vez de dinheiro, ela resolveu colocar no porquinho uma folha de papel, onde escreveu sobre o futuro próspero que almejava. Com o refrão escrito pela irmã mais nova, os gêmeos Rodrigo e Diogo começaram a desenvolver aquele que viria a se tornar o maior hit do trio nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, que despontou para o estrelato depois de aparecer no programa “SuperStar”, da Globo, em 2016. Atualmente, o videoclipe de “Meu Abrigo” supera as 320 milhões de visualizações no YouTube, e a música chegou ao topo do Spotify em 2018, além de ter integrado a trilha de “O Sétimo Guardião”. Não restam dúvidas de que os versos do refrão, “meu amor, por favor, vem viver comigo/ no seu colo é o meu abrigo” mobilizaram multidões.

“Tangerina” (MPB, 2019) – Tiago Iorc e Roberto Pollo
“Tangerina” foi lançada por Tiago Iorc no álbum “Reconstrução”, o quinto de estúdio da carreira do brasiliense, em maio de 2019, mas ganhou fama e caiu no gosto do público depois de ter sido incluída no bem-sucedido projeto “Acústico MTV”, do mesmo ano, e contar com a participação da cantora pernambucana Duda Beat, que se inspirou para que tudo se encaixasse perfeitamente. Além da voz afinada, Duda gesticulou bem, dançou e mostrou toda a sensualidade da letra. O toque final foi dado com o vestido volumoso da intérprete, na cor tangerina. O clima intimista criado para o lançamento acústico deu outro tom à canção, e a participação do guitarrista Mateus Asato trouxe ainda mais genialidade à gravação. Atualmente, o registro de “Tangerina” no YouTube supera 15 milhões de visualizações. “Chega, bem devagar/ Calma, só me beija/ Cala, minha boca”, dizem os versos iniciais.

“Faz um Carnaval Comigo” (MPB, 2019) – Jade Baraldo e Pedro Luís
A sensualidade dita o ritmo de “Faz um Carnaval Comigo”, que reúne dois nomes de diferentes gerações. A catarinense Jade Baraldo, uma das revelações da música brasileira contemporânea, conta que se sentiu atraída “pelo frescor carnavalesco e a característica visceral” da letra de Pedro Luís. A canção é parte do projeto “Macro”, que uniu a música de Pedro Luís ao universo visual de Batman Zavareze, e rendeu um videoclipe com a presença dos compositores, que cantam em dueto. “Faz um Carnaval Comigo” é uma dessas preciosidades da música popular brasileira, com seus versos langorosos e cheios de lirismo, capazes de colocarem a delicadeza do sentimento amoroso no mesmo bojo do desejo carnal: “Faz um carnaval comigo/ Desfilando em meu umbigo/ Evolui em minha nuca/ Ela louca, eu maluca”. A melodia envolvente contribui para realçar esse impacto da composição.

“Graveto” (sertanejo universitário, 2020) – Edu Moura, Matheus Di Pádua e Normani Pelegrini
A canção “Graveto”, interpretada por Marília Mendonça, foi marcada pela polêmica do videoclipe gravado em um show surpresa e aberto ao público na cidade de Belo Horizonte, em janeiro de 2020. Na ocasião, cerca de 50 mil pessoas compareceram à Praça da Estação, cartão postal da cidade, para um evento que foi divulgado apenas algumas horas antes. A presença de um público muito maior que o esperado pela Polícia Mineira gerou registros de violência e furtos, terminando com a prisão de 14 pessoas. Passado o susto, o resultado final traz belas imagens, que demonstram a força dos fãs da cantora sertaneja em um videoclipe cheio de delicadeza e emoção, que já conta com mais de 149 milhões de visualizações no YouTube. A música faz parte do projeto “Todos os Cantos” e está entre as mais tocadas do Spotify Brasil, se consolidando como um hit do sertanejo universitário.

“Não Vai Embora” (pop, 2020) – Luísa Sonza, Dilsinho, Keviin, Timbó e Arthur M.
Quando juntamos dois artistas que estão no topo de todas as paradas, o resultado só pode ser sucesso. Utilizando de uma estratégia já antiga, mas sempre eficaz, que se baseia em explorar o sofrimento e arrependimentos pós término de namoro, a música “Não Vai Embora”, interpretada por Luísa Sonza e Dilsinho e produzida por Malibu, rapidamente explodiu e, atualmente, está entre as mais executadas do Spotify Brasil. A coincidência de o lançamento acontecer no momento exato em que foi anunciado o final da relação entre Luísa Sonza e o comediante Whindersson Nunes é mais um ingrediente que colaborou para bombar a canção, e, ainda, trouxe especulações sobre um possível envolvimento amoroso entre os intérpretes. O bafafá ficou completo quando Whindersson parou de seguir Dilsinho nas redes. O videoclipe de “Não Vai Embora” supera 25 milhões de visualizações no YouTube.

*Bônus
“Tempo da Estiagem” (samba, 2020) – Raphael Vidigal e Ronaldo Ferreira
O samba “Tempo da Estiagem” foi composto por Raphael Vidigal e Ronaldo Ferreira no início de 2020. É a estreia da dupla no gênero. Juntos, o mineiro Vidigal e o paulista Ferreira, nascido em Marília, já haviam criado duas marchinhas: “Cuidado com o Pescoço” e “Retiro do Vampiro”, em 2017 e 2018, respectivamente. Para interpretar a composição, eles convidaram a cantora Deh Mussulini e o violonista Lucas Telles, que também cuidou dos arranjos e da produção da faixa. “Tempo da Estiagem” é um samba lírico, na tradição da música popular brasileira afeita à dor de cotovelo, e que bebe nas influências de músicos como Batatinha e Paulinho da Viola, com sua doce melancolia. A pintura “Lírios de Água”, de Monet, capta essa sensação e foi utilizada na arte gráfica do single a fim de traduzir esse sentimento.

Imagem: Montagem com fotos de Anavitória, Tiago Iorc, Rubel e Melim, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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