11 músicas brasileiras sobre dinheiro

“E os traidores da linguagem
………n e a malta da imprensa
E os que mentiram por salário;
os corruptos, os corruptores da linguagem
os corruptos que puseram a cobiça no dinheiro
Sobre o prazer dos sentidos;” Ezra Pound

tim-maia-dinheiro

Da permuta ao escambo, do parcelamento ao pagamento à vista, do financiamento coletivo ao crédito sem limites, o assunto dinheiro não passa incólume em vários lares e mesas de botecos. Na música brasileira não é diferente. E essa moeda tem muitas faces. Através do rock, do samba, da marchinha, da tropicália, do samba-rock e da MPB; Caetano Veloso, Cazuza, João Donato, Léo Jaime, Angela Ro Ro, Martinho da Vila, Tim Maia, Paulinho da Viola, Moacyr Franco e muitos outros provam que há certas delícias na vida que não têm preço. Embora alguém sempre pague por elas.

Me dá um dinheiro aí (marchinha, 1960) – Homero, Ivan e Glauco Ferreira
Da união do humor com a música brasileira surgiu uma das mais valorosas peças do nosso repertório. O cancioneiro carnavalesco não foi o mesmo depois de “Me dá um dinheiro aí”, parceria dos irmãos Homero, Ivan e Glauco Ferreira. Outro personagem de fundamental importância nesse sucesso foi o intérprete da canção, Moacyr Franco que, além de cantor, atuava no programa “A Praça da Alegria”, ascendente de “A Praça é Nossa”, no papel do mendigo que eternizou o bordão usado no refrão da música. Posteriormente a música seguiria sendo regravada. O motivo é simples de explicar. Além da qualidade da melodia quem é que não quer pedir um dinheiro aí? Difícil é encontrar quem queira dar.

Pra quê dinheiro? (samba, 1969) – Martinho da Vila
Martinho da Vila provava, em 1969, que o assunto dinheiro não é unânime. Desmentindo a tese de que com dinheiro a vida é mais fácil e as conquistas vêm a reboque, o sambista relata o caso da mulher que se apaixonou pelos encantos de um bom tocador de viola e desprezou aquele que tinha dinheiro. Afinal de contas “em casa de batuqueiro/só quem fala alto é viola” deixa claro em certa altura da letra. A música foi regravada pela dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó e pelo cantor Jair Rodrigues, comprovando o poder de identificação com várias camadas da nossa sociedade. Ou seja, a dimensão econômica da existência não necessariamente amplia ou anula as demais, como pensam alguns.

Não quero dinheiro [Só quero amar] (soul music, 1971) – Tim Maia
Seguindo a mesma linha e ideologia de Martinho da Vila, o eterno síndico da música brasileira, Tim Maia, despreza em seu poderoso soul “Não quero dinheiro [Só quero amar]” o valor do primeiro em relação ao segundo. Nessa ode ao amor e ao desapego, Tim demonstra, mais uma vez, o poder de sua voz e dá mostras do porquê de a sua figura ser, até hoje, uma das mais reverenciadas na música brasileira. Porquê sempre colocou a paixão em primeiro lugar, nunca a mesquinharia. A música foi regravada, em ritmo de axé, por Ivete Sangalo e uma pegada mais roqueira por Roberto Frejat. O refrão alegre e descontraído segue como um dos preferidos para embalar festas e comemorações de todo tipo.

O vendedor de bananas (samba-rock, 1973) – Jorge Benjor
Jorge Benjor é um dos maiores inovadores da música brasileira. Tanto que até hoje rejeita o rótulo “samba-rock” para suas composições. É algo indefinível, sem preço, em que não é possível colocar nenhuma tarja definitiva e limitadora. “O vendedor de bananas”, outra dessas inestimáveis peças, foi lançada em 1973 por seu autor. Nela um menino, humilde vendedor de bananas, exalta a riqueza e diversidade da fruta símbolo do Brasil, demonstrando orgulho e não mais vergonha desta que foi a expressão, para muitos e durante anos, da pobreza do país. A preço de banana pode ter outra conotação quando é dita, encenada e cantada por Jorge Ben. Foi regravada por “Os Incríveis” e Ney Matogrosso.

Pecado capital (samba, 1976) – Paulinho da Viola
O dinheiro é, em certa análise, a representação do poder, seja de compra ou de influência, no caso, em sentido abstrato, mas que determina a hierarquia na sociedade de classes. Paulinho da Viola, ciente dessa característica corruptível e leviana do dinheiro, que da mesma maneira que vem pode ir embora, compôs o samba “Pecado capital”, para trilha da 1ª versão da novela da Rede Globo de mesmo nome no ano de 1976. Afinal quando Eva comeu a maçã o homem, ao ser expulso do Paraíso, descobriu a ganância, a gula, a luxúria e outros pecados distantes do ideal franciscano de simplicidade e despojamento, inclusive dentro das instituições religiosas que se apoderaram do mito, mas não o seguem.

Beleza Pura (tropicália, 1979) – Caetano Veloso
Caetano Veloso, em 1979, com a sua tropicalista “Beleza Pura” enaltece, em suma, o espírito do universo hippie, através de seu tradicional método de composição não linear. Novamente a figura feminina, representativa do amor, demonstra a soberania do sentimento em relação às posses e conquistas materiais, que, pela própria característica, estará relegada à pobreza, à miséria, ao desaparecimento e ao esquecer. Já o enriquecimento de uma paixão não se pode amarrar nem contar nos dedos. A música foi lançada no álbum “Cinema Transcendental” que continha, entre outras, pérolas do brilho de “Lua de São Jorge”, “Menino do Rio” e “Cajuína”, esta última homenagem a Torquato Neto.

Aluga-se (rock, 1980) – Raul Seixas e Cláudio Roberto
O humor ácido e sarcástico do baiano Raul Seixas aparece nesse rock em parceria com Cláudio Roberto lançado em 1980. Embora a música já fosse um sucesso na interpretação do autor, ela tornou-se ainda mais popular uma década depois, durante os anos 1990, quando a banda paulistana “Titãs” a regravou em ritmo e cantoria ainda mais raivosas e indignadas. O que só dá provas de que o Brasil, aos trancos e barrancos, sempre volta aos mesmos problemas. Nesta canção, Raul, assumidamente influenciado pela cultura norte-americana, propõe uma solução para o país tupiniquim. Alugar o terreno e deixar os gringos explorarem. “Nós não vamos pagar nada…”, explica. O humor não tem preço.

Hot Dog (rock, 1984) – Leiber e Stoller em versão de Léo Jaime
“Hot Dog” foi um rock consagrado pelo rei do estilo, Elvis Presley, em solo americano. No Brasil, o irreverente Léo Jaime criou a sua própria versão da letra para a música da dupla Leiber e Stoller. E a interpretação de Angela Ro Ro no álbum “A vida é mesmo assim”, de 1984, não deixou barato. Regravada por Cazuza e Léo Jaime em 1988, com a participação especial do cachorro de estimação do primeiro, conhecido como Wanderley, homenagem ao cantor da Jovem Guarda, de sobrenome Cardoso, a música utiliza o cenário de um amor desfeito para demonstrar o poder de vingança desse tal dinheiro. “Eu não te pago nem um hot dog”, esnoba e ameaça o protagonista.

Mim quer tocar (rock, 1985) – Roger Moreira
Roger Moreira já era um habitual crítico do cenário brasileiro e das políticas sociais e econômicas do país quando surgiu com a sua banda, o “Ultraje a Rigor”, em 1985, o próprio nome demonstra isso. “Mim quer tocar” faz troça do modo de falar indígena incorporado pelas populações de baixa instrução acadêmica no cotidiano das grandes e pequenas cidades nacionais. Além disso desmonta e desmistifica o ideal do artista que prescinde do dinheiro para sobreviver. Além dos gritos primitivos e miméticos de saudação ao dinheiro em língua estrangeira na introdução da letra, o autor completa em seu decorrer com ironia: “Mim quer tocar, mim gosta ganhar dinheiro/ (…) Mim é brasileiro, mim gosta banana/ Mas mim também quer votar/ Mim também quer ser bacana”.

Doralinda (MPB, 1989) – Cazuza e João Donato
“Doralinda” é uma das últimas composições de Cazuza, lançada postumamente, em 1991. Nesta sensível parceria com João Donato, o poeta reflete sobre a existência e propõe para a sua amada as riquezas materiais da vida, que disfarçam o que se quer mostrar de verdade, o real sentimento e sua impalpabilidade. Por isso ele afirma: “Eu queria te dar a lua, só que pintada de verde/ Te dar as estrelas, de uma árvore de Natal/ E todo o dinheiro falso do mundo, eu queria te dar”. Ou seja, prova de que o dinheiro em si, como símbolo, não provoca as desilusões humanas, mas como tudo o que é manipulado, é do seu uso que dependerá a conotação boa ou ruim. Ao fim, Cazuza vaticina: “Eu queria te dar o amor que eu talvez nem tenha pra dar…”. A música foi regravada por Nana Caymmi, o próprio João Donato e Emílio Santiago.

Esmola (rock, 1994) – Samuel Rosa e Chico Amaral
Quando apareceu no cenário no início da década de 1990 a banda mineira “Skank” oxigenou o rock nacional. Principalmente por que não se tratava apenas desse ritmo, mas a agradável mistura que unia influências jamaicanas, do reggae, até o sertão nordestino com repentistas e poetas de tradição oral. “Esmola”, parceria de Samuel Rosa e Chico Amaral é um destes exemplos que, além de tudo, alia forte crítica à sociedade contemporânea, com seu consumo exacerbado que provoca grandes níveis de desigualdade social, e mais do que isso, incute uma mentalidade excessivamente egoísta e competitiva. Não é por acaso que o mendigo do sucesso carnavalesco “Me dá um dinheiro aí”, de 1960, aparece novamente como personagem. “Uma esmola pelo amor de Deus/Uma esmola por caridade/Uma esmola pro menino, pro ceguinho, pro preto pobre, pro indigente, pro mendigo, pro desempregado…”.

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Raphael Vidigal

Fotos: Tim Maia e desenho da imagem de Raul Seixas em moeda de 1 real.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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