11 músicas brasileiras que romantizam relacionamentos abusivos

*por Ana Clara Fonseca

“Não aceito mais as coisas que não posso mudar, estou mudando as coisas que não posso aceitar” Angela Davis

Muito do que nos faz aproximar de uma música é a identificação com a letra, que relata uma situação, um sentimento, ou um caso contado. Por isso não é novidade que muitas dessas canções atuais e até mais antigas trazem relatos e impressões de relacionamentos amorosos. Falam de amor, de saudade, de vontades e desejos, mas, em muitas delas, é possível perceber que há um romantismo distorcido, agressivo, que exclui, agride e oprime alguém.

São canções romantizadas que, de alguma forma, nos deixam incomodados. A resposta está na dificuldade e invisibilidade que existe na linha tênue entre o que é amor e o que é abuso em uma relação. Os relacionamentos abusivos podem acontecer com qualquer um, com qualquer uma, e as músicas trazem esse retrato que precisa finalmente ser problematizado.

“Mesmo Que Seja Eu” (rock, 1983) – Erasmo Carlos e Roberto Carlos
Sabe o clichê “antes só do que mal acompanhado”? Pode ser uma boa resposta ao eu lírico da canção de Erasmo Carlos. “Mesmo Que Seja Eu” é o relato de um homem sobre a vida, segundo ele solitária, de uma mulher. Talvez a intenção dele tenha sido se declarar um homem apaixonado e protetor e é nesse ponto que, muitas vezes, torna-se difícil identificar o abuso em um relacionamento.

“Filosofia e poesia
É o que dizia minha vó
Antes mal acompanhada do que só
Você precisa de um homem
Pra chamar de seu
Mesmo que esse homem seja eu
Um homem pra chamar de seu
Mesmo que seja eu”

Mulheres não precisam de um homem para estarem realizadas. A canção sugere uma mulher que espera o seu salvador, aquele que vai tirá-la da solidão, e claro que a conclusão é que só ele poderá fazê-lo. Essa mulher deve se contentar com esse homem porque é o que lhe resta, pelo menos ela não estará sozinha. A canção é abusiva porque pensamos ser essa a conversa de um homem apaixonado, e o que ele faz é minar a autoconfiança e autoestima de uma mulher, dizendo que se não for ele, não será mais ninguém.

“Ciúme” (rock, 1985) – Roger Moreira
Não poderia deixar de citar esse sentimento clássico e arma poderosa para os relacionamentos abusivos. “Ciúme”, gravada em 1985 pelo grupo Ultraje a Rigor tem muito o que ser questionada.

“Eu quero levar uma vida moderninha
Deixar minha menininha sair sozinha
Não ser machista e não bancar o possessivo
Ser mais seguro e não ser tão impulsivo
Mas eu me mordo de ciúme
Mas eu me mordo de ciúme”

Ciúmes não é sinal de amor. Importante frisar sobre isso porque o ciúme é um sentimento que deriva da posse ou da insegurança. E, pelo menos em relações românticas, ainda é tratado como desculpa ou imposição. Isso fica bem claro na letra de Roger Moreira. Ele trata como “vida moderninha” o ato de permitir que a namorada saia sozinha (o que já é bem abusivo ela precisar dessa permissão), não ser machista e nem possessivo. Como se essas não fossem características óbvias para tratar alguém com respeito, e não como uma atitude moderna, diferenciada.

“Esse Cara” (MPB, 1973) – Caetano Veloso
A música foi interpretada por Maria Bethânia e, mais tarde, por Cazuza, no LP “Burguesia”.

“Ah! Que esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada ele some
Ele é quem quer
Ele é o homem
E eu sou apenas uma mulher”.

Escrita no feminino, a canção fala de uma relação de posse e poder. Retrato de muitos relacionamentos em que o homem faz o que quer sem pensar ou se preocupar com a mulher. Tendemos a romantizar esse tipo de relacionamento em que a mulher vive por conta do outro, esquece de si mesma, dos seus desejos e vontades, e aceita. Somente pelo fato de ser mulher deve abdicar de quem é para viver um relacionamento. É o relato de uma mulher sobre o que um homem lhe causa, e, infelizmente, ainda falando sobre todas essas como consequências do amor.

“Com Açúcar, Com Afeto” (MPB, 1967) – Chico Buarque
Chico Buarque, e ainda assim é preciso questionar as temáticas que algumas letras carregam. “Com Açúcar, Com Afeto” foi gravada por Nara Leão em 1967. A canção fala sobre uma mulher submissa, dada aos cuidados domésticos, e, especialmente, do marido.

No DVD “À Flor da Pele”, que trata da temática feminina na obra de Chico Buarque, o compositor conta que escreveu “Com Açúcar, Com Afeto” para Nara Leão quando ela lhe pediu: “Eu quero uma música daquelas das mulheres que esperam o marido”. Apesar de ter sido feita a pedido de uma mulher com a intenção de tratar o amor romântico, a música não deixa de carregar o peso dos relacionamentos abusivos, até hoje muito naturalizados, especialmente em relação aos sentimentos e imposições feitas às mulheres.

“E ao lhe ver assim cansado
Maltrapilho e maltratado
Como vou me aborrecer?
Qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
Dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você”

O tempo todo a mulher sabe das mentiras e desconsiderações do marido em relação a ela. Mesmo assim ao final, quando ela lhe vê “cansado, maltrapilho e maltratado” após voltar do bar, lhe oferece um prato quente e braços abertos. É necessário que desromantizemos demonstrações de amor que distanciam e diferem sentimentos de homens e mulheres, levando uma parte a ser dependente e estar a serviço do outro, enquanto o outro faz o que quer, quando quer.

“Gol Anulado” (MPB, 1976) – João Bosco e Aldir Blanc
Composta em 1976 por João Bosco e Aldir Blanc, a música escancara um abuso violento manifestado fisicamente.

“Quando você gritou mengo
No segundo gol do Zico
Tirei sem pensar o cinto
E bati até cansar
Três anos vivendo juntos
E eu sempre disse contente:
Minha preta é uma rainha
Porque não teme o batente,
Se garante na cozinha
E ainda é Vasco doente”

Para que uma mulher seja valorizada, seja “rainha”, é preciso que ela atenda às necessidades desse homem (rei?) lhe servindo, e siga algumas condições (torcer para seu time de futebol) para que esse amor seja merecido e duradouro. Caso contrário, ela sofrerá as consequências, a violência física, tratada com muita naturalidade na canção. A música já foi interpretada por Elis Regina em seu disco “Luz das Estrelas”, de 1984.

“Conselhos de Vadio” (samba, 1975) – Candeia e Ernani Alvarenga
Essa é um diálogo entre dois homens sobre uma mulher na qual um deles diz estar apaixonado. Cada refrão da canção é um ponto a ser analisado como abuso.

“Te avisei, Mano Alvarenga
Deixa essa mulher pra lá
Ela briga, ela bebe, ela fuma, ela xinga
Não pode ser a dona do teu lar!”

“Esta nega já foi minha, meu camaradinha
E aconteceu:
Não quis ir para a cozinha
No primeiro dia o nosso amor morreu!”

É uma letra bem problemática, porque além de estampar o discurso machista de que mulheres devem cuidar do lar, cozinhar, e jamais “brigar, beber, fumar, xingar”, diz que mulheres só merecem o amor de um homem se seguirem esses padrões instituídos.

Em relacionamentos tóxicos, geralmente essas imposições de comportamento são sutis e chegam em formato moralista. Se ela mudar no que ele diz, será uma pessoa melhor em caráter e aparência.

A canção ainda mostra uma contradição de comportamentos dados ao homem e à mulher. “O homem da boemia ele faz tudo que quer”, enquanto a mulher que não foi para a cozinha não foi digna de seu amor, e deveria renunciar de seus desejos e vontades enquanto indivíduo.

“Meu Anjo” (sertanejo universitário, 2008) – João Neto e Frederico
Eu poderia citar aqui várias letras parecidas com “Meu Anjo”, porque há uma grande naturalização em considerar a insistência de alguém para estar com o outro como atitudes positivas e românticas.

“Não adianta tentar se esconder
Porque sempre vou te encontrar
Vou andar colado em você
Onde você for eu vou estar
Até em seus sonhos vou aparecer
Nem dormindo vai me esquecer
Mais cedo ou mais tarde você vai notar
Que é inútil tentar me deixar
Meu anjo, meu sonho, meu sol de verão
Me deixa ser dono do seu coração”

A letra consegue excluir qualquer autonomia e liberdade de ser de um indivíduo. É uma perseguição obsessiva, descontrolada, que não leva em consideração os sentimentos e vontades do outro. E não, essas atitudes não são normais, muito menos românticas.

“Minha Namorada” (bossa nova, 1965) – Vinicius de Moraes e Carlos Lyra
Composição de 1965, a canção fala de abuso como violência psicológica, de posse e perda de identidade.

“Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por que”

“Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho”

Muitas vezes em um relacionamento, de maneira branda e quase imperceptível, a pessoa vai deixando de fazer o que quer, deixando os desejos de lado, perdendo aos poucos sua identidade em relação ao ser e pensar. “Minha Namorada” é uma imposição de condições para que a mulher seja sua namorada. Dentre elas, está a desistência dos planos individuais, e até mesmo da própria felicidade. Não é romântico que alguém se transforme ou tenha de agir diferente para agradar ou estar com alguém. Não é perdendo a liberdade que se ganha amor.

“Faz Parte do Meu Show” (bossa nova, 1988) – Cazuza e Renato Ladeira
A música foi gravada em 1988 e, por estarmos dando ênfase a canções que romantizam o relacionamento abusivo, essa não poderia deixar de aparecer porque trata do abuso como desculpa para ser o que se é, e aí não há solução.

“Te pego na escola
E encho a tua bola
Com todo o meu amor
Te levo pra festa
E testo o teu sexo
Com ar de professor

Faço promessas malucas
Tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby
É pra te proteger da solidão

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor”

Mesmo a letra tendo um tanto de honestidade não exclui o fato de que alguém nessa história seja uma vítima de abusos psicológicos. Não é amor quando há traição, quando há desinteresse ou atitudes egoístas. Devemos parar de romantizar ações que, mesmo sutis, causam dor e sofrimento.

Não há mentira que proteja da solidão, nem promessas que não deveriam serem cumpridas. A letra fala sobre buscá-la na escola, “testar o sexo com ar de professor”, e essas são marcas aparentes em relações de poder, hierárquicas, do mais forte para o mais fraco.

O refrão da música é uma justificativa do narrador às suas atitudes, com “faz parte do meu show”, é quem sou e não posso mudar, aceite se quiser. Não sou bom, não sou perfeito, mas é preciso que haja respeito e responsabilidade aos sentimentos de outro alguém.

“Faixa Amarela” (samba, 1997) – Zeca Pagodinho, Jessé Pai, Luiz Carlos e Beto Gago
“Faixa Amarela”, de 1997, fala de uma declaração de amor pública a uma mulher, porém se não houver uma correspondência de acordo com as vontades do homem, aí ele partirá para a violência física. Chega a ser bem assustadora a clareza da mensagem.

“Eu quero presentear
A minha linda donzela
Não é prata nem é ouro
É uma coisa bem singela
Vou comprar uma faixa amarela
Bordada com o nome dela
E vou mandar pendurar
Na entrada da favela

(…) Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela
Vou lhe dar uma banda de frente
Quebrar cinco dentes e quatro costelas
Vou pegar a tal faixa amarela
Gravada com o nome dela
E mandar incendiar
Na entrada da favela”

Essa música é um combo para o quesito relacionamentos abusivos. Sim, a mensagem está escancarada, mas, infelizmente, ainda chega a ser vista em tom cômico e até romântico. Em um país onde a taxa de feminicídios chega a ser a quinta maior no mundo, alguma coisa está muito errada.

Ainda podemos questionar como o homem deseja presentear a mulher. Uma faixa bordada com o nome dela pendurada na entrada da favela. O excesso e exagero nas demonstrações de amor podem ser um ponto forte em relacionamentos abusivos, e tomam forma quando o sujeito as realizada acompanhadas de brigas, discussões e desentendimentos.

“Como Eu Quero” (balada, 1984) – Leoni e Paula Toller
Lançada em 1984, “Como Eu Quero” foi um grande sucesso da banda Kid Abelha. Até hoje, muita gente tem uma visão romântica da letra, mas ela fala sobre um relacionamento à base de manipulações.

“Agora não tem jeito
Cê tá numa cilada
É cada um por si
Você por mim e mais nada

Uh eu quero você
Como eu quero
Uh eu quero você
Como eu quero

Longe do meu domínio
Cê vai de mal a pior
Vem que eu te ensino
Como ser bem melhor”

A letra em primeira pessoa coloca imposições para mudanças de comportamentos. Uma mulher pede ao companheiro algumas condições para viverem aquele relacionamento: “Tira essa bermuda, que eu quero você sério” não sugere nada sexual, e sim para que ele mude seu modo de se vestir para ser um homem sério. E “eu quero você como eu quero” não é sobre querer alguém incondicionalmente, com todo o amor, mas sim querê-lo à sua maneira.

A violência física não é a única característica para identificar um relacionamento abusivo. Há manipulações, chantagens emocionais, ameaças, modos de agir e muita violência psicológica. Não é fácil identificar um abuso, e por isso é tão importante que questionemos algumas atitudes e propagações que formam a nossa sociedade. Um relacionamento saudável é formado por respeito e responsabilidade aos sentimentos e personalidade do outro.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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