Luiz Thunderbird lança autobiografia e singles do primeiro disco solo

*por Raphael Vidigal

“Seus límpidos sonetos?
Eu quero ler seus mais sujos
e secretos rascunhos,
sua Esperança,
na Sua mais obscena Magnificência” Allen Ginsberg

Luiz Thunderbird, 59, já aprontou muito e de tudo um pouco, mas foi em 1996 que comandou “o programa mais louco” da sua vida. “Ali forçamos a barra mesmo, e foi ótimo, abriu uma série de outros caminhos, inclusive na MTV, que já era uma emissora que arriscava bastante e fugia do lugar comum”, comenta. Na época, o crítico da Folha de São Paulo, Thales de Menezes, não perdoou a “loucura”: “A volta do VJ Thunderbird à tela da MTV não poderia ser mais catastrófica. O programa ‘Contos de Thunder’ é um atentado contra a inteligência do espectador”, escreveu. A base da atração eram os filmes trash da produtora Troma. Na chamada, carregando uma boneca inflável, Thunder disparava: “Nada presta na televisão brasileira, meu amigo! É tudo lixo disfarçado”.

Em “Contos de Thunder: a Biografia”, que acaba de ser lançada, o protagonista convive com momentos de glória e fracassos. Havia uma gama de opções para o título, mas o eleito, segundo ele, foi “o que mais gritou na orelha”. “Muita gente me conhece da TV”, diz. A ideia de publicar uma biografia era aventada há tempos. De início, seria escrita pelo jornalista Mauro Betting, que, após horas de entrevistas gravadas, perdeu todos os áudios. Obstinado, Thunder decidiu prosseguir sozinho na empreitada, porém, perto do fim, também perdeu os arquivos. A terceira tentativa finalmente logrou êxito. Apesar dos pesares, ele consegue olhar a prosopopeia pelo lado bom. “Pude decorar as histórias. Estava na hora de lançar pelo menos o volume 1”, afiança ele, leitor ávido do gênero.

Junkie. Atualmente, quem ocupa a cabeceira do apresentador é “Roberto Carlos em Detalhes” (2006), livro de Paulo César Araújo que só foi liberado graças a uma decisão do Supremo Tribunal Federal favorável às biografias não-autorizadas, em 2015. De outra feita, ele se dedicou a conhecer a fundo a trajetória de Keith Richards, lendário guitarrista dos Rolling Stones. “Nenhuma serviu de modelo. Resolvi escrever em primeira pessoa e na ordem cronológica. Caio num assunto e explico que, no futuro, vou falar melhor sobre isso, é uma característica minha, gosto desse tipo de narrativa, meio de TV”. Artista multifacetado, Thunderbird surgiu para o grande público como o VJ de estilo agitado e dicção peculiar dos primórdios da MTV Brasil, no início dos anos 1990.

O sucesso de sua figura pitoresca logo influenciou a criação do personagem Thunderdog, na “TV Colosso”, uma homenagem do diretor Luiz Ferré, que era seu fã. “A gente lembra de coisas bacanas, realizações, conquistas e derrotas também, histórias escabrosas”, admite. O modo de vida junkie do apresentador se intensificou durante os anos de 1995 e 1996, quando ele usou todos os tipos de substâncias ilícitas, com exceção da heroína, e cobrou a conta no “insuportável ano de 1997”, que ele define como “o período mais pesado de todos”. “Foi difícil de relembrar, o que me ajudou é que eu já tinha passado por isso com a terapia da reabilitação. É um pouco dolorido, minha vida não é um mar de rosas, houve tempestades no caminho”.

Turbilhão. Em 1997, Thunder se internou na clínica Vila Serena para tratar o vício em drogas, por onde também passaram Raul Seixas (1945-1989) e o vocalista Nasi, do Ira! – que, assim como João Gordo, o aconselhou a procurar ajuda. O turbilhão coincidia com a montanha-russa na vida profissional do VJ. Nesse ínterim, ele foi para a Rede Globo e logo voltou à MTV. “Foi uma decisão que tomei de mudar de ares e experimentar o desafio de ir para a maior emissora do país, uma empresa gigantesca, com moldes diferentes da MTV, onde tudo era grande, inclusive o público. Pensei muito. Muitas pessoas me aconselharam a não ir e outras falaram que eu tinha que aceitar”. A estreia não poderia ser mais hiperbólica. Em 1994, ele foi a cara da Globo no festival Hollywood Rock.

“A audiência era um absurdo, nunca tinha vivido nada parecido”, destaca. Na sequência, participou da cobertura do Carnaval e ganhou um quadro no Fantástico, “que não gostava de fazer, apesar da imensa repercussão”. A menina dos olhos era o “TV Zona”, que só durou sete episódios. “Falei com o Boninho (diretor da Globo) que o programa estava à frente do seu tempo. Nunca tinha acontecido no Brasil de você ter dois palcos com os artistas tocando de verdade, foi uma coisa que conquistamos ali. Hoje é mais comum, mas, na época, não existia isso”, orgulha-se. Embora “a audiência fosse boa, o futebol era muito mais forte nesse sentido e tirou o programa do ar”, lamenta. Só que antes de se tornar um dos mais prestigiados âncoras da MTV, Thunder queria ser rockstar.

Rock. Foi pensando que o canal pretendia dar uma chance à sua banda que ele aceitou o convite para ir à sede da MTV Brasil e saiu de lá contratado. Cannabis Sativa, Aerosow e Neocínicos foram alguns dos inúmeros grupos idealizados por ele nos idos anos 80. Fundada em 1986, a Devotos de Nossa Senhora Aparecida acabou sendo a primeira a vingar em disco, editado em 1993, e, até hoje, é a mais longeva da carreira do músico. Para 2021, está previsto o álbum comemorativo aos 35 anos de estrada da trupe. Inquieto por natureza, Thunder atuou como baixista do cantor Júpiter Maçã (1968-2015) e integrou oito conjuntos: Aerosol, Tarântulas e Tarantinos, Pork-a-Light, Flaming Birds, Los Beatles Forevis, Fuck Berry and the Followers, Sub Versões e Oldsmobile Special Edition.

“O rock conquistou um lugar na música brasileira que permanece. Era inevitável que não fosse mais o primeiro nas paradas, houve uma troca de posições e movimentos organizados, populares e profissionais, como os sertanejos, tomaram conta”. Na opinião do entrevistado, o rock atualmente “divide espaço com a nova MPB”, em um cenário cada vez mais segmentado, que agrega medalhões como “Rita Lee, as bandas dos anos 80 que seguem em atividade e as novidades”. “Só não dá para dizer que o rock morreu, porque é só procurar. Não vai estar no topo do ranking para você ficar comodamente ouvindo no sofá de casa, mas tem a internet e as plataformas digitais que facilitam o acesso a um universo de bandas autorais incríveis, o novo punk rock britânico, tá tudo ali, é só ir atrás”, incentiva.

Solo. O próprio Thunder tem turbinado esse mundo paralelo à indústria fonográfica de massa com o lançamento de singles do seu primogênito e aguardado disco solo. “Pequena Minoria de Vândalos” tem sete de 12 canções já gravadas, e vai trazer a participação de amigos como Odair José, Pedro Pelotas e Lucinha Turnbull. O anfitrião atribui a demora do lançamento ao envolvimento em projetos diversos e à dedicação prioritária aos Devotos. O trabalho com o Tarântulas e Tarantinos, por exemplo, especializado em reproduzir trilhas dos filmes do diretor de “Pulp Fiction” (1994), rendeu um compacto com cinco canções gravadas. Thunder pretende disponibilizar uma faixa por mês de “Pequena Minoria de Vândalos”, cujo batismo vai ao encontro do “espírito contestador, desafiador e de confronto” que o gênero deve manter.

“A estratégia é ir provocando as pessoas até o lançamento do disco”, explica. Autoral, “Insuportável” chegou à praça há duas semanas. “A Obra”, música do extinto grupo mineiro Sexo Explícito, criado por John Ulhôa e Marcelo Dolabela (1957-2020), ganhou clipe e regravação. O registro resgata uma amizade histórica. “Tocamos juntos em vários festivais”, diz. “Combustível Para o Fogo”, LP do Sexo Explícito de 89, abria os trabalhos justamente com “A Obra”. A letra, de Rubinho Troll, repete palavras como “violência”, “crise” e “regime”. “Rubinho devia estar pensando na democracia da época, quando o (general) Figueiredo falava que preferia o cheiro dos cavalos ao povo, aí o Tancredo (Neves) morre e assume o (José) Sarney. Aquela democracia capenga tentando chegar a algum lugar e chegamos ao (Fernando) Collor. Que horror!”, suspira Thunder.

Oposição. “A letra dessa música cabe bem a esse nosso momento complicado. Não precisava ser tão difícil, mas acho que é muito em função do defeito do material usado, no caso, o governo”, aponta. Quando gravou o clipe, Thunder já estava em quarentena. Recentemente, ele perdeu o amigo Rodrigo Rodrigues (1975-2020), músico e apresentador do SporTV, vítima do novo coronavírus que já matou mais de 100 mil pessoas no Brasil. “A gente tinha se falado há poucos dias para combinar de entregar a minha biografia para ele. Quando soube da internação, fiquei muito apreensivo. Achava que ele ia conseguir sair dessa, fiquei muito mal, abalado. É triste ver o descaso das pessoas com essa doença, não só as autoridades, mas pessoas públicas que ainda vão pagar por isso. Fico revoltado”, desabafa.

“Quando tenho que sair na rua, tomo todos os cuidados possíveis: máscara, luva, capacete, o diabo. Uso escudo se for preciso. É o mínimo que tenho que fazer. Ter responsabilidade para cuidar de mim e preservar a saúde dos outros”, diz. O cantor também direciona sua revolta às ações do governo federal no combate à Covid-19. “É um desgoverno metendo os pés pelas mãos, às vezes de propósito, para criar o caos mesmo. Acho absurdo, nunca votaria nesse cara (Jair Bolsonaro), estão errando repetidamente, arriscando a vida de milhões de pessoas, vendendo essa história de cloroquina”, reclama. O medicamento é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, a despeito de não ter eficácia comprovada. Enquanto deputado, Bolsonaro aprovou o projeto da “pílula do câncer”, com promessa de curar a doença, mas a lei foi derrubada pelo STF.

Conectado. “Às vezes bate o desespero, é triste o que estamos passando. Para me distrair e distrair as pessoas, tenho feito lives e escrito projetos literários”, conta o intérprete. Em 2008, ele migrou para a internet com o “Thunderview”, que depois parou na tela da MTV. Em 2014, passou a investir no formato podcast com o “Thunder Rádio Show”. No YouTube, fala com empolgação sobre o assunto que mais entende e gosta em “Music Thunder Vision”, também transmitido pela TVT, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Parado por algum tempo, o programa retornou seguindo “protocolos da Nasa”, apenas com ele e o cameraman no estúdio. Chuck Berry (1926-2017) e Arnaldo Baptista foram os temas abordados na retomada. “Adoro fazer lives, às vezes até exagero, cheguei a publicar uma de três horas. Quando estou triste, pego o violão para tirar alguma música, nunca toquei tanto na minha vida”, assegura.

“O lado positivo das redes é que, apesar do isolamento, a gente consegue se comunicar bastante. O negativo é essa indústria demoníaca das fake news, que levou ao desastre que vivemos hoje. Espero que uma apuração seja feita e os culpados sejam indiciados e condenados”, protesta. Próximo de completar 60 anos, em abril do ano que vem, ele confessa que nunca imaginou chegar a essa idade. “Ainda tem um caminho”, observa. “Mas estou lidando bem. Amadureci, sou mais ponderado. Não paro de ler, acredito que estou me tornando uma pessoa melhor. O cigarro foi uma das drogas mais difíceis de largar. Fiquei dez anos sem fumar, fumei mais dez. Ano passado parei e voltei a pedalar intensamente”. Superada a pandemia, ele pretende trazer a bicicleta para BH, que ainda não percorreu como ciclista, e garante não temer os morros da cidade.

Sorriso. “Moro na Pompeia”, retruca, em referência ao bairro de São Paulo conhecido por suas elevações. Atividades físicas e uma boa alimentação auxiliam Thunder a manter a saúde em dia. Curiosamente, ele formou-se nessa área. Em 1981, saiu da Faculdade Metodista com o diploma de Odontologia nas mãos, e exerceu a profissão até 1987, conciliando a atividade com a paixão pela música. E Thunder não é o único caso do cancioneiro nacional. Autor de melodias refinadas para músicas de Aldir Blanc (1946-2020) e Paulo César Pinheiro, o violonista Guinga atuou como dentista por quase três décadas.

Outro exemplo é o guitarrista Guilherme Held, parceiro de Thunder na banda Tarântulas e Tarantinos, que chegou a acompanhar o rapper Criolo. Em uma viagem a Goiânia, onde Held se apresentaria com Lanny Gordin e Thunder com os Devotos, ambos bateram um descontraído papo no avião. “Descobrimos que os dois éramos dentistas e escolhemos a música. Foi melhor ter deixado isso de lado para se dedicar ao que gosta”, diz Thunder, com um sorriso capaz de deixar qualquer colega boquiaberto.

Fotos: Cauê Moreno/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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