Uma viagem inesperada

“E é sempre melhor o impreciso que embala do que
o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba
não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido
da vida…” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

de-chirico

Na cidade aonde ir para o treinamento ela própria lateja calma, saliente, distante. Como duas moças abandonadas num abraço para se proteger do frio. Esfinge de perfil silencioso, bege ao céu, cinza ao mar. O peito quer escapar do espartilho como pombas da gaiola. Carrega consigo o doce de mamão. No interior do automóvel isolante e sereno as mãos a aviltar vasilhas, lavar as louças de uma pia entupida e metálica prestes a derrapar em espiral. Pela janela a tarde pasma. Da anfitriã são escusas as explicações: passarinho na gaiola, gato no sofá, e coordenadas. Uma mulher e um homem. Ele é entroncado, porte médio, braços largos. Ela, baixinha de simpatia fácil, corpo lento, anda com dificuldade.

Convidam a alcançar o recipiente aonde receber status de adestramento. Donde se pretende extrair sustança contrasta a rangente argila do olhar aborígene. Pés descalços desconhecem pisar em ovos da galinha de ouro. Assusta, ao final do sol poente, o hotel capenga. A sombra da águia na asa da lua rasga o terreno baldio. O violão já não toca como quando colocado às costas. Nuvens de fumaça, cigarros picados. Matas abertas e fechadas, lhanezas, fratricídios, penas de pavão, engodos, espécies aracnídeas, cobras, grotas, mas isto… É pura obsessão insensata. Mesmo o violão já não toca como quando colocado às costas. Atende às batidas da campainha.

Giorgio-de-Chirico

Raphael Vidigal

Pinturas: obras de De Chirico.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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