O samba mágico de Cartola: Aprendiz da alvorada

“Todo mundo tem o direito de viver cantando” Cartola

Cartola

Angenor só descobriu seu nome aos 56 anos, ao se casar com sua segunda esposa. Só gravou suas músicas em disco aos 65, depois de lavar carros e construir com tijolo e cimento os caminhos de sua vida. Mas Angenor sempre foi poeta, sempre foi Cartola mesmo antes de tê-la na cabeça. Por obra do destino, cresceu fidalgo em meio à pobreza de Mangueira, e a cantou em versos silenciados pelo perfume das rosas. A cantou em versos que o estudo das línguas, a formação cultural, a exigência da técnica, não ensinam. Foi aprendiz da alvorada, das cores verde e rosa que o amanhecer nos mostra ao desfilar suas bandeiras, dos ensinamentos cíclicos de um mundo moinho, e mestre do samba nítido e acarinhado pelas cordas de aço de um violão divino.

As rosas não falam (samba, 1976) – Cartola
Cartola nasceu no Catete, logo depois foi morar em Laranjeiras, bairros da zona sul do Rio de Janeiro. Mas com a morte do avô, em 1919, ele e seus cinco irmãos foram obrigados a se mudar com os pais para o Morro da Mangueira, favela que se iniciava naqueles tempos. Sempre chegado a uma cachaça e várias mulheres, Cartola não gostava de trabalhar, o que lhe rendia diversas brigas com o pai. Numa dessas foi expulso de casa. A essa altura já trabalhava como pedreiro, já usava o chapéu coco para proteger o cabelo da cal que lhe deu o apelido famoso e já gostava de samba, inclusive já escrevia os seus. Os primeiros deles foram mostrados aos colegas do “Bloco dos Arengueiros”, que não simpatizaram muito com as composições. Embora fossem bons de samba e de briga, eles provavelmente não notaram que Angenor escondia sob a cartola que lhe protegia a cabeça, versos e melodias tão sublimes quanto as rosas que desabrochavam na primavera. Numa tarde de 1975, o compositor Nuno Veloso, que levava Cartola e dona Zica até a casa de Baden Powell, resolveu comprar flores para o casal. Ao se encantar com o desabrochar da roseira no dia seguinte, Zica questionou o marido: “Como é possível, Cartola, tantas rosas assim?”, ao que ele respondeu sem muito entusiasmo: “Não sei, as rosas não falam”. E começava a florescer naquele dia mais uma música que traria voz eterna a seu compositor. Gravada por ele e por Beth Carvalho em 1976, demonstrava toda a esperança lírica de Cartola, que a escrevera em seus 67 anos.

Alvorada no morro (samba, 1968) – Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho
Assim que chegou ao morro de Mangueira, Cartola ficou amigo de Carlos Cachaça. Freqüentando as zonas boêmias sempre que podia, foi apresentado aos malandros do local e se tornou um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, em menção ao fato de ser a primeira estação onde parava o trem que partia da Central do Brasil. Inspirado por lembranças de sua infância, quando assistia às manifestações carnavalescas do “Rancho dos Arrepiados”, tingiu com elegância a combinação entre um “caule verde” e uma “rosa na ponta”, como costumava dizer. A escola que ajudou a fundar, e o morro que lhe deu inspiração para tal, seriam homenageadas em várias de suas canções, uma delas lançada por Odete Amaral em 1968 e imortalizada em 1972 no canto de brisa de Clara Nunes: “Alvorada” foi composta em uma das madrugadas em que Carlos Cachaça e ele desciam o morro do Pendura a Saia. Os dois se impressionaram com a beleza dos primeiros raios de sol que surgiam no horizonte e iluminavam a paisagem sofrida dos seus moradores. Ali começaram a ser coloridas as estrofes e melodias que ganhariam pinceladas de Hermínio Bello de Carvalho, e representavam a admiração dos autores pelo morro carioca.

Não quero mais amar a ninguém (samba, 1936) – Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda
Com o sucesso da escola de samba da Mangueira, Cartola se tornou conhecido de figuras famosas como os cantores do rádio Mário Reis e Francisco Alves, o sambista e poeta da Vila, Noel Rosa e o maestro Heitor Villa-Lobos. No ano de 1936, sua música “Não quero mais”, em parceria com o amigo Carlos Cachaça e o bamba Zé da Zilda, recebeu prêmio no desfile da escola, e um ano depois foi gravada por Aracy de Almeida. Mestre de harmonia da Estação Primeira, Cartola vendia seus sambas, mas não abria mão da autoria. Por essa época, ele uniu seus trapos com Deolinda, uma mulher mais velha, casada e com uma filha. Vizinha de Cartola, Deolinda o ajudava quando estava doente, e aos poucos o carinho que nutria foi se transformando em outro sentimento. Os dois resolveram morar juntos em um barraco com lugar para a filha e o pai de Deolinda. Com o passar do tempo, a casa passou a receber mais moradores, e um dos mais constantes era justamente Noel Rosa, nas noites em que tomava porres homéricos ao lado de Cartola. Por uma triste ironia do destino, os anjos do morro levaram Deolinda para longe do menino que ela aprendeu a cuidar e a amar, e a música que ele havia composto para o carnaval simbolizava agora o início de sua longa quarta-feira de cinzas. Cartola estava indo embora de Mangueira, desiludido com a vida e com o samba, e sentenciava: “Não quero mais amar a ninguém, não fui feliz o destino não quis o meu primeiro amor, morreu como a flor, ainda em botão, deixando espinhos que dilaceram meu coração…”

Tive sim (samba, 1968) – Cartola
As muitas agruras que a vida lhe proporcionou ao longo dos anos fizeram com que Cartola desistisse do samba. Ele já havia perdido a mãe em pequeno, sua esposa e agora decidira que abandonaria a música antes que esta o abandonasse. Os amigos achavam que estava morto, fizeram canções em sua homenagem. Carlos Cachaça o encontrou magro, sem dentes, bebendo dois litros de pinga por dia. Resolveu apresentá-lo à irmã de sua futura esposa. Dona Zica acolheu Cartola nos braços e no coração. Em 1968, ele lhe dedicou um de seus sambas mais comoventes: “Tive sim”, uma declaração de amor presente sem renegar as alegrias passadas. A música foi cantada por Cyro Monteiro na primeira Bienal do Samba, realizada pela TV Record, e ficou em quinto lugar. Durante a apresentação, Cyro foi vaiado por torcedores de outros concorrentes, e chorou mais tarde em uma mesa de bar: “Nunca fui vaiado na minha vida, ainda mais cantando música do Cartola!” Mas já não havia motivo pra choro. Cartola estava de volta.

Acontece (samba, 1972) – Cartola
O retorno de Cartola para as raízes de sua Mangueira aconteceu aos poucos. Depois de conhecer Dona Zica, passou a trabalhar como lavador de carros. Numa dessas noites, resolveu ir até um bar próximo e esbarrou por lá com Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta, que o reconheceu imediatamente: “Você não é o Cartola?”, ao que ele respondeu: “Sou”. O jornalista não conteve o espanto, escreveu sobre o encontro em sua coluna e passou a divulgar seu nome, levando-o para cantar em programas de rádio. O sambista desaparecido havia sido encontrado. Ainda assim, Cartola se deparava com dificuldades e teve que trabalhar no jornal “Diário Carioca” e no Ministério de Indústria e Comércio, servindo café. Por conta do embalo inicial dado por Sérgio Porto e do amor despertado por Dona Zica, foi que Cartola voltou à cena definitivamente, e em 1972 teve seu samba “Acontece”, gravado por Paulinho da Viola. A música mais uma vez trazia a temática do amor diante do olhar sensível e resignado de Cartola, recusando-se a cultivar um disfarce.

O Sol Nascerá [A Sorrir] (samba, 1964) – Cartola e Elton Medeiros
Passado o período noturno na vida de Cartola, ele agora vivia uma nova fase. Morando com Dona Zica, recebia diariamente a visita de amigos dispostos a curtir um bom samba. A idéia foi se transformando naquela que seria a casa mais famosa do Rio de Janeiro na década de 60. Dona Zica cuidava da cozinha, enquanto Cartola cuidava do violão. Nascia o Zicartola, freqüentado por bambas do morro e pela intelectualidade carioca que esboçava os primeiros passos da bossa nova. Para garantir a qualidade dos espetáculos, Cartola chamou o amigo Zé Kéti para ser diretor artístico e Hermínio Bello de Carvalho criou a Ordem da Cartola Dourada, que agraciava os grandes músicos brasileiros que ali se apresentavam. Entre eles estavam Nelson Cavaquinho, João do Vale, Ismael Silva e Paulinho da Viola. Localizada na rua da Carioca, a casa despertou o interesse de Nara Leão, que além de bossa nova gravou em seu disco de estréia três sambas, um deles intitulado “O Sol Nascerá” , também conhecido como “A Sorrir”, de Cartola e Elton Medeiros. Incluída no Show Opinião, a música tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Cartola, e recebeu regravações de Isaura Garcia, Elis Regina, Jair Rodrigues, dentre tantos outros. O refrão solar traduzia bem o momento de seu autor, sorrindo após a tempestade.

Cordas de Aço (samba, 1976) – Cartola
A voz de Cartola finalmente ecoou em disco no ano de 1974. Embora já tivesse feito participações em trabalhos de outros cantores, era a primeira vez que se ouvia seu canto em disco próprio. Lançado por iniciativa de João Carlos Botezzeli, o Pelão, através da gravadora Marcus Pereira, o álbum recebeu prêmios e reconhecimento instantâneo, sendo Cartola logo convidado a gravar mais três LP´s. A esses seguiram-se turnês que percorreram o Brasil com enorme sucesso. Cada vez mais conhecido do grande público, Cartola também encantava a crítica, e participou ao lado de João Nogueira do bem sucedido Projeto Pixinguinha. Foi num desses álbuns no ano de 1976 que ele deixou seu registro para a música “Cordas de Aço”, em que homenageava o companheiro de toda a vida, o querido violão. E lá iam os dois madrugada adentro, cantando.

O Mundo é um Moinho (samba, 1976) – Cartola
“O mundo é um moinho” foi lançada por Cartola em 1976. Na música incisiva em que supostamente falava para uma sobrinha que saíra de casa para ser prostituta, Cartola era acompanhado pelo violão de Guinga, grande instrumentista com apenas 20 anos. A canção, que tinha sido ouvida dois anos antes em um programa especial na Rádio Jornal do Brasil, quando Cartola a cantara para o radialista e produtor Luiz Carlos Saroldi, pode ser considerada uma das mais bonitas da carreira do fundador de Mangueira. Era Cartola destilando seus sentimentos claros em um mundo cheio de obscuridades e mesquinharias. Partindo para ver o céu no dia 30 de novembro de 1980, o pedreiro de chapéu coco é sempre lembrado como um dos grandes gênios da música brasileira, suas rosas mais do que nunca falam e levam a vida a sorrir nesse moinho de tristezas e alegrias.

Raphael Vidigal

Lido na rádio Itatiaia por Acir Antão em 10/10/2010.

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5 Comentários

  • Parabéns, Raphael, pelo belo trabalho de valorização dos compositores da música brasileira. Indiquei seu Blog hoje em meu facebook, prestando uma homenagem a Luiz Carlos Saroldi. Ele faleceu na madrugada de ontem aqui no RJ e o enterro está sendo agora no cemintério do Caju. Na postagem eu disse: “Minha homenagem hoje é para Luiz Carlos Saroldi, Professor querido, Radialista, produtor da Rádio Jornal do Brasil em outros tempos… ele partiu na madrugada de ontem e está deixando muita saudade… Cartola cantou para ele em seu programa e nos apresentou “As Rosas que hoje exalam o perfume que roubaram de ti…” Por isso encaminho o Blog abaixo que fala das canções que certamente ele admirava e que como tantos outros ensinamentos, ele também nos “transmitiu” ao vivo! Seguindo “As Rosas…” e, lendo sobre a última canção citada “O mundo é um moinho”, uma surpresa encontrei… Um beijo, Saroldi! “Corra e olhe o Céu”… Muitos te amam aqui!” – Parabéns ainda Raphael por, de certa forma, continuar na trajetória do radialismo brasileiro sendo um bom comunicador e transmissor da poesia brasileira, assim como foi o querido Saroldi. “As Rosas, certamente, não deixarão de falar em si e por si…” Abs, Virginia Capibaribe,cantora(soprano)e professora de canto(CE/PE/RJ).

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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