História do Balé na Rússia

“Eis toda a minha vida despida de anedotas, ao invés do que vêm repisando há tanto tempo os grandes jornais, nos quais sempre passei por muito estranho: esquadrinho e não vejo mais nada, exceto dificuldades cotidianas, alegrias, lutos interiores. Algumas idas onde quer que se apresente um balé, que se toque órgão, minhas duas paixões de arte quase contraditórias, mas cujo sentido irá manifestar-se, e é só.” Mallarmé

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O compasso gira. Dança, Constelação e Geometria. As perninhas finas, esticadas e rígidas. Uma eleva-se, sublima, a outra, como estaca, finca. Um círculo imaginário ao redor suspira; leve brisa, bruma, mar, assopra-se, e ele finda. Vejo no cocuruto uma fita: pode ser de pó ou de chita. Rápido evapora, mas é colorida. Qual a estação de canto da Bailarina?

Verão está sob os olhos. Perto do nariz, sardas em pleno ensaio, pintam aqui e ali, o rosto borbulha e ruivos cabelos fixam-se em boldrié. Outono na enseada, o corte do quadril, onde uma leve saia aborda o vento e folhas, e homens, a cair. Da Primavera os saltos, o estouro, o inesperado, apenas num segundo o inseto agora voa, a proa abriga fada.

No entanto é do Inverno a vulta Bailarina. A História nos confunde, a Rússia lhe estima. Os pés estão dobrados, não pontas. Peregrina. Um frio espanta o público. Congela os membros exaustos. Após tamanho esforço, só torna ao colo dos astros. A estrela pequenina. Uma figura inexata: uma mulher, uma menina, uma senhora, um velho, um gajo. Dança, Constelação e Geometria.

O compasso gira.

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Raphael Vidigal

Pintura: “A Primeira Bailarina”; e Escultura: “A Pequena Bailarina de Catorze Anos”; ambas de Edgar Degas.

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5 Comentários

  • Querido Raphael, que lindo o que você escreveu, parece que você conhece a alma sofrida e ao mesmo tempo colorida de uma bailarina, é verdade que apenas em um movimento somos capazes de sentir diferentes emoções que deixam no nosso corpo diferentes temperaturas e desenham no ar múltiplas cores. Você é muito talentoso, amei, muito obrigada, aproveito pra mandar um grande beijo pra você e toda família, quero tanto conhecer você, me manda mais coisas que você escreve, fica com Deus, Boneca

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  • Que delícia de reportagem… Limpa, sublime, delicada e florida!!! Parabéns Raphael Vidigal, lindo lindo lindo seu trabalho… beijo grande!

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  • Extraordinário sempre! Poesia a toda prova. Parabéns mais uma vez, Vidigal, por um texto que nos faz enxergar em luz difusa, os gestos mágicos da bailarina.

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  • Adorei! Texto lindo, leve e solto com palavras dispostas de tal forma que podemos sentir a essência de cada uma delas. Um belo trabalho. E a bailarina… pude vê-la girar, sorrir e passar delicada por entre meus dedos.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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