Crítica: “Isadora” sublima vida de dançarina revolucionária

“Se eu pudesse explicar o que as coisas significam, não teria a necessidade de dançá-las…” Isadora Duncan

Peça teatral conta a vida de Isadora Duncan

Com o lugar do lúdico resguardado, a direção de Elias Andreato permite, ainda assim, a apreensão instantânea dos fatos; graças a recursos dramatúrgicos que são instaurados, como a narrativa fragmentada – em que tempos passados, presentes e futuros colidem – e a utilização da cena como um espaço de liberdade, sobretudo, pois a quase ausência de cenário sugere que a imaginação preencha o que com palavras e gestos sensorialmente se nota. Estabelecida essa técnica, temos um espetáculo biográfico que não se limita ao real, pois quanto mais teatro maior é sua força de apreensão das fantasias e sonhos que cercam a toda a vida humana, quanto mais a de Isadora Duncan. O diretor também foi o idealizador do espetáculo junto da atriz Melissa Vettore.

Melissa compõe uma Isadora Duncan tão frágil fisicamente, talvez pela leveza que emana de suas roupas, quanto decidida no conteúdo de seus discursos, o que leva a contradição entre a tonalidade de suas palavras e o que representam, exibindo desta maneira uma personalidade complexa. Considerada pioneira da dança moderna, cuja rebeldia contra o balé clássico determinou a repercussão muitas vezes calcada no exotismo de sua figura pública, o que até hoje é notado, Isadora debateu-se contra a dificuldade de convivência entre paradoxos supra-atuais, como as que dizem respeito a mercado e cultura, arte e entretenimento e, acima de tudo, vida e liberdade. E é a partir da última que constrói o aspecto mais revelador de sua dança, fundada nas origens da pessoa com seu habitat, qual seja, a natureza, e no caso o mar.

Por isso é mérito que a peça esclareça e sublinhe também a condição feminista de Isadora Duncan, que recusou o casamento por considerá-lo acordo em que estava implícita a submissão da mulher, e tornou-se, além de mãe solteira de duas crianças geradas em seu ventre por pais diferentes, também a que assim se dedicou a crianças de trabalhadores que ocupavam o nível mais baixo da escala em termos de remuneração monetária. Tal aspecto é inserido organicamente no contexto. Patrícia Gasppar e Roberto Alencar, incumbidos de ciceronear a protagonista, cumprem o ofício com graça, eficácia e, quando necessário, tempero, item que vem principalmente do piano e acordeom executados ao vivo por Jonatan Harold. A música, aliás, é tão fundamental para contar a história quanto a dança, com presença que auxilia toda narrativa.

Daniel Dantas, que junto a Elias Andreato colabora com a dramaturgia de Melissa Vettore, é sempre um espanto, capaz de repetir os mesmos tiques em cena independente do suporte ou papel e, com ou apesar disto, imprimir identificação e emoção aos episódios, sejam eles dramáticos, românticos ou humorísticos. Suas interferências no correr do espetáculo são tão pontuais quanto preponderantes para seu ritmo. Dotado de dicção única e característica como uma marca não sobressai a enredo ou personagem, sendo, pois, auxílio de luxo. A iluminação de Wagner Freire destaca-se entre os categorizados como técnicos por ser a que sublima a trajetória de Isadora em seus pontos de apelo sentimental, ora lunar, outrora solar. A faixa estendida como cenário na parte alta em que por vezes reproduzem-se imagens, embora criativa e bela plasticamente, comete o pecado de dissipar a atenção do principal. Nada grave.

Ao fim de pouco mais de uma hora de apresentação, em que o tempo volatiza-se como na dança de Isadora Duncan, temos o preceito de origem de volta. A única e mortal função da arte é propor a liberdade. Ou, ao menos, alguma libertação. Para isso se contam histórias passadas. Que, solto, o presente voe…

Isadora Duncan revolucionou a dança

Raphael Vidigal

Fotos: Andreia Machado; e Lenise Pinheiro, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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