Um mundo aqui dentro

*por Tereza Meireles (arquiteta e paisagista)

“Acomodada, o cotovelo pousado no braço do sofá, a chávena numa mão, o pequeno prato noutra, a janela em frente sempre mostrando o desembaraço de um azul imenso, ela sentiu-se encaixar.” Valter Hugo Mãe

Um novo dia se inicia. Cento e alguns dias de isolamento social. Abro a cortina e o céu está azul com borrões brancos. Vi no jornal que a quarentena diminuiu a poluição e deixou o céu mais limpo. Me recosto na varanda e tomo meu café, olhando para o céu e sentindo o fresco da manhã. Os pássaros me mostram como a liberdade é boa quando damos importância para ela.

O tempo parece passar diferente, pede paciência. Observo as plantas da sala de casa e vejo como crescer é doloroso, porém bonito. No crescimento do broto há silêncio e reflexão, esperando o momento certo para crescer. No desenrolar do broto, as folhas se expandem, prosperam e demonstram ação com a nutrição pelo sol.

A luz do sol ilumina o quarto e faz sombras antes despercebidas. Cada peça que está na estante conta história de outros tempos. A que mais gosto é um pedaço de madeira redondo, com 3 pregos que formam um rosto sorrindo. Tenho ela desde menina nova. Olho para ela e lembro de sorrir, apesar das saudades, dos medos e da angústia de tempos incertos.

Escutando músicas que saram a saudade, mudo os móveis de lugar e a sala vira pista de dança. Danço com movimentos livres, sentindo o toque do tapete e a liberdade de poder ser quem eu sou.

A cozinha se transformou em lugar de experiências e muita louça para lavar. Cheiro de comida caseira e brindes à distância, com amigos e familiares, acalentam o coração. Igual comida de mãe. Que saudades do frango com quiabo que minha mãe faz!

A quarentena vai passar e a saudade vai dar lugar aos reencontros. Como disse Manoel de Barros: “A vida tem suas descompensações”. Mas o que nos muda, nos faz crescer.

E que eu continue me permitindo ver os dias passearem no tempo. Provando os cantos da casa. Cantando. Dançando. Vivenciando a minha casa.

Fotos: Tereza Meireles/Divulgação.

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2 Comentários

  • Esse isolamento tem milhões de partes horríveis, mas também serviu pra desacelerar e dar lugar aqueles desejos antigos de arrumar aquele cantinho esquecido da casa, de fazer aquela receita que não tinha tempo de fazer, enfim vivenciar!!
    Adorei o texto!!

    Resposta
    • Esses tempos de quarentena proporcionam essa reflexão em relação aos nossos lares, ao nosso convívio com o coletivo (mesmo à distância) e ao nosso espaço no mundo..
      Ótimo texto!!

      Resposta

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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