Um Método Perigoso, de David Cronenberg

“Por vezes, o olhar dos dois homens se encontrava; o do jovem, taciturno e sombrio, inalterável em sua obstinação; o do velho, escarnecendo com um desprezo incansável.” D. H. Lawrence

Um-Metodo-Perigoso

A madeira crepitava insistentemente. Como lascas soltando-se do corpo roliço da árvore e alcançando a mortal liberdade em toras de fumaça dobradiças a definhar. O cheiro das cinzas empanzinava o ambiente em igual modelo a pneus inúteis recheados por água podre. O barulho, no entanto, e os sentimentos correlatos estavam imperceptíveis ante a agrura de Freud. O sofrimento do homem de nervoso charuto detivera-se no chão como prego.

À sua frente, coaxando feito sapo em noite de lua que para a espécie é orgia, o protestante Jung avolumava-se em contrações na medida exata da madeira a crepitar de novo. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo, o ritual resultou numa esfera de paralelas estanques. O medo recusou-se a surgir na cabeça de Freud, enquanto os pés de Jung não eram capazes, sequer, de encostar-se sem temerem as faíscas.

Plenamente certo quando ao mundo e possíveis desbravamentos, o senhor cuja idade mais avançada conferia-lhe certa ascendência sobre o jovem aprendiz pediu um minuto de silêncio, e aconselhou-o a sentar-se. Quando a cadeira o encarou em olhos de abnegação, percebeu os próprios braços ardendo em brasa, donde escapavam negros fiapos. Um deles atingiu, em cheio, o charuto moribundo de Freud.

Postaram-se fogo contra fogo, e do atrito arrolaram pedras duras e intransponíveis por um lado, ao passo em que, no extremo oposto, a água banhava a cor do intocável. O fumo renovou-se e do espelho, então maquiado em rubor e cinzas, aboletou-se um cachimbo. Tragavam os dois do mesmo odor, e o fétido para um ao outro se ajoelhava com a honra do perfume nobre vindo da França.

A origem judia tornara-se pouca coisa considerada a destruição nazista e a capacidade do mal percebida em cada homem. No entanto a salvação jamais perdera a reprimida sexualidade, e mesmo no inferno juraram fidelidade às respectivas psicanálises. O rompimento definitivo ocasionou a perda de memórias afetivas, e impulsos nervosos resultantes em tenso colapso. Da lentilha, estragou o pão, a sopa, o prato.

Numa noite de insônia, após a morte do antigo companheiro, Jung recebeu, em sonho, uma visita de Freud. Barbudo e careca, para outro equivalente, atestou em meio a pinotes de fumaça enquanto girava bisonhamente apoiado em candelabros: “É duvidoso o crepitar da madeira, mas é notória a depravação fantasiosa, a libido, os gemidos e urros, embora ela não ocorra, quando se tem a impressão de que o inexistente nos assombra não importa aonde vamos”.

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Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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