Teatro: Ensina-me a viver

“No pórtico de Belém
os ciganos se congregam.
São José, cheio de chagas,
amortalha uma donzela.
Teimosos fuzis agudos
pela noite reverberam.
A Virgem cura os meninos
com salivinha de estrela.” García Lorca

Glória Menezes Teatro

Da onde vem o riso? De onde vem à morte? Sóis, vida. Inúmeras despedidas. O humor pode aparecer na parede, num relance, na casca ou na bola de um sorvete. Os negros fiapos de pera apodrecida descascados em cena pela faca amolada de Colin Higgins ajudam a enternecer, entreter e tecer o suco de coloração creme e seca da peça “Ensina-me a Viver”.

Nas claquetes cinematográficas arrastadas em princípio qual cortinas de castelos belgas, logo a influência mórbida dos ingleses tilinta os talheres. Há um veneno de serpente no chocalho do réptil feminino cascateado no vestido da mãe. Persegue o rabo e morde o próprio filho. Uma dinamite prestes a explodir. Vulcão em erupção. Fios da cerca eletrificada.

Tenso como um leopardo a mirar o búfalo no campo de centeio, trigo e concentração. Marcha a ré até espanar-se com a luz de um vaga-lume. Trena deixa. Ele que sempre fora marcado (e acostumou-se) à luz de lampiões. Um bichinho besta de tez irritante e asas impacientes: Glória Menezes. A bolsa a tiracolo, fantástico mundo de carros selvagens, bombachas, botinas, bombas de chocolate.

Ser estrangeiro e típico, característico dos universos de fadas, embaralha as cartas, e dá os ases, coringas, crases à imaginação.  Glória Menezes e Arlindo Lopes encaram a vida e a morte da mesma maneira, a mesma falta de modos, por mais que se possa parecer o contrário, não lhes cai bem a etiqueta do sábio.

A barba medieval do monge, a espada do suicida japonês em ritual secular que vitimou escritor famoso, os processos para enrolar fumo, o teatro acima de tudo, pairando, sem diagnóstico. A contribuição dos efeitos estéticos e sonoros é imprescindível para se qualificar o texto (como no momento das mãos de luvas verde e amarela subindo nas árvores).

E desgasta o uso da palavra concreta, o grude das cenas não é tão bem feito, talvez elas mesmas devessem soar mais distantes, nunca nesse meio termo entre o quero e bicho arreio. Mas Eu Só Queria O Amor Fraternal e Desinteressado ao final do seio – uma amizade sortida. Morte, morte, morte, canto-lhe em taças de crepúsculo e prata.

Teatro Ensina-me a viver

Raphael Vidigal

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5 Comentários

  • Magnífico !!!!!

    Acho q só faltou falar mais da história do garoto com a mãe. Mas achei deslumbrante o modo como revive algumas cenas, Raphael Vidigal! =)

    Andreza Cardoso, Deborah Cardoso, Priscila Oliveira, Diana Vidigal, Andressa C. Miranda e Flora Minardi, tenho certeza que vão gostar!

    Resposta
  • Ai, me indicaram mesmo pra assistir dizendo q é linda! =] Aí vc me conta que é linda! Quero ver!

    Resposta

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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