Sérgio Ricardo nunca separou sua arte da luta pela justiça social

*por Raphael Vidigal

“a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.” João Cabral de Melo Neto

Densa, árida e pesada, uma voz que parece vir de dentro e de longe, do fundo e do passado, declara: “Minha dor é como a lenha numa caldeira”, e corta o verso antes que o excesso o empape. “Mundo Velho Sem Porteira” é um dos exemplos mais bem acabados do caráter das canções de Sérgio Ricardo (1932-2020), artista multimídia que precedeu a popularização do termo. Músico, pintor e cineasta, ele era, em suma, um contador de histórias, principalmente aquelas do povo brasileiro e suas crenças, dores e batalhas.

Paulista de Marília, batizado João Lutfi, ele ainda não havia refinado o estilo quando, no começo da carreira, Maysa (1936-1977) lançou o seu samba-canção “Buquê de Isabel”. Logo, adotou o nome galante de Sérgio Ricardo e iniciou um namoro com a emergente bossa nova, que deu vazão a LP’s como “Não Gosto Mais de Mim: A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo” (1960), “Depois do Amor” (1961) e “Um Sr. Talento” (1963), emulando nas capas os olhares pernósticos de João Gilberto (1931-2019).

Bossa. É dessa época um de seus maiores sucessos, “Pernas”, revisitada por Maria Bethânia no recente espetáculo “Claros Breus”. A letra exalava uma inocência que aos poucos desapareceria da obra de Sérgio Ricardo: “O calor do sol/ Vem me inspirar ternuras/ Por aquelas pernas/ Para a dona delas”. Mas a fagulha do inconformismo político-social também dava a sua espocada, com “Zelão”, outra música que atravessaria gerações: “Todo morro entendeu quando o Zelão chorou/ Ninguém riu, ninguém brincou e era Carnaval”, cantava.

A despedida do movimento capitaneado por João Gilberto, Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980) ocorreria em um evento de gala, na histórica apresentação no Carnegie Hall, em Nova York, no ano de 1962, que representava a reverência do mundo à moderna música brasileira. Acontece que Sérgio estava nos Estados Unidos porque acabara de obter o segundo lugar do Festival de Cinema de São Francisco com o curta “O Menino da Calça Branca”, numa parceria com o renomado cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928-2018).

Cinema. Eram apenas os passos inaugurais de sua investida na sétima arte. No ano seguinte, em 1963, um novo estouro, desta vez com o filme “Esse Mundo É Meu!”, montado por Ruy Guerra, com Antonio Pitanga e Ziraldo no elenco e uma impecável trilha sonora composta por Sérgio Ricardo, em que se destacava a faixa-título, de versos diretos e compactos: “Escravo do reino estou/ Escravo do mundo em que estou/ Mas acorrentado ninguém pode amar”. Sérgio também atuava na saga. A música ganharia a voz de Elis Regina (1945-1982).

O longa despertou a atenção de Glauber Rocha (1939-1981), artífice do Cinema Novo, o que motivaria uma emblemática colaboração entre os dois. Com as trilhas para “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “Terra em Transe” (1967), Sérgio embarca definitivamente no ramo das canções de protesto, de quem seria o seu mais expressivo representante, ao lado de Geraldo Vandré, que defende duas de suas canções no Festival da Canção de Protesto na Bulgária, em 1968. Ao abordar os dilemas da política nacional sob o ponto de vista dos excluídos, as personagens do sertão, do cangaço e da favela se tornariam uma constante em suas produções: elas mantinham as arestas expostas, prenhes de uma agonia que estala.

Protesto. A força de “Perseguição” se faz presente até os dias atuais, ao ter o seu sentido renovado em “Piedade” (2020), o mais novo filme de Cláudio Assis. “Se entrega, Corisco!/ Eu não me entrego, não!/ Não me entrego ao tenente/ Não me entrego ao capitão/ Eu me entrego só na morte/ De parabelo na mão”, entoa um dos protagonistas. Da mesma maneira, “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho, recuperou “Bichos da Noite”, editada originalmente no LP “A Grande Música de Sérgio Ricardo” (1967), com ilustrações de Ziraldo no encarte e feita para a peça “O Coronel de Macambira”, de Joaquim Cardozo (1897-1978).

Outra característica que não pode ser desprezada na arte de Sérgio Ricardo é a sua apreensão da capoeira, do folclore e das manifestações populares. Interessava ao autor tudo o que contivesse a essência das raízes. Com um aguçado olhar sociológico, ele investigava as mazelas do presente tendo como base a história, como fica claro em “Princesa Isabel”: “Rio de Janeiro, sessenta e tantos já vai se acabar/ E ainda se fala em escravidão/ Ah meu Deus, como é que vai fazer essa gente que vive como eu?/ Que só trabalha, trabalha e nunca tem nada de seu?/ Só o que tem é fé no santo padroeiro/ E está cansado de esperar que nasça um sol igual pra todos nós”.

Violão. No auge da trajetória, um episódio ruidoso eclipsaria o seu talento frente ao grande público. Em 1967, durante o II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, Sérgio foi vaiado ao interpretar “Beto Bom de Bola”, de crítica social mais sutil, e fez jus a seu espírito intransigente ao quebrar o violão no palco, arremessá-lo sobre a plateia e ser desclassificado. Apesar disso, em 1968, estreia o show “Sérgio Ricardo e a Praça do Povo”, no Teatro de Arena, com direção de Augusto Boal (1931-2009), e se torna responsável pelo roteiro musical da peça “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna (1927-2014).

Com os poetas Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Ferreira Gullar (1930-2016), entra em duas empreitadas importantes, ao compor e escrever os arranjos para o cordel “Estória de João-Joana”, do itabirano, em 1983, e criar a trilha para o filme “Voz do Poeta”, em 1988, com o maranhense. Nesse ínterim, dirige “A Noite do Espantalho” (1974), com atuações de Alceu Valença e Geraldo Azevedo, que supera uma tentativa de censura ao ser exibido em Cannes e pleitear o Oscar de melhor filme estrangeiro. “Calabouço”, de 1973, serve para homenagear o estudante Edson Luís (1950-1968), assassinado por militares da ditadura no restaurante homônimo à canção.

Vidigal. Na mesma década de 1970, comprou um barracão no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, e angariou doações com o espetáculo “Tijolo por Tijolo”, que teve convidados ilustres como Chico Buarque, Gonzaguinha (1945-1991) e o conjunto MPB-4, para reerguer casas de moradores no local. Lá, o compositor montou um ateliê, passou os últimos dias de sua existência e filmou o derradeiro “Bandeira de Retalhos” (2018), baseado nas vivências da comunidade que o cercava. Ao erguer sua obra, Sérgio Ricardo nunca separou a cultura e a arte da luta pela justiça social. Tal qual a própria vida.

Fotos: Ana Resende/Divulgação; e TV Record/Divulgação, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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