90 anos de Elton Medeiros, melodista de ‘O Sol Nascerá’ e ‘Pressentimento’

*por Raphael Vidigal

“Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.” Fernando Pessoa

Elton Medeiros (1930-2019) tinha fama de difícil, genioso. Suas melodias também não eram das mais fáceis. Apesar disso, quando tocadas, espalhavam uma beleza melancólica, que dava a impressão de simplicidade, resultado da perfeita harmonização entre suas partes. Como ninguém, ele dominava as capacidades percussivas de uma caixinha de fósforos, instrumento usado por bambas como o conterrâneo Zé Kéti (1921-1999) e o paulista Adoniran Barbosa (1910-1982). Ligado a blocos carnavalescos e escolas de samba desde a infância, ele se definia como “fazedor de música”. Compôs samba, frevo, valsa e até bossa nova. A base de sua formação, no entanto, perceptível em suas sofisticadas criações melódicas, era o choro. Provavelmente em nenhum outro de sua geração a presença do mais antigo gênero do país fosse tão marcante.

Não por acaso, em 1968, ele estreou em disco com outro herdeiro dileto do choro, literalmente: Paulinho da Viola, filho do violonista César Faria (1919-2007), com quem dividiu o LP “Samba na Madrugada”. Ali, eles se alternavam nos vocais, e assinavam juntos uma única composição: “Rosa de Ouro”. Não era preciso mais. Anos antes, em 1965, ela dera título ao espetáculo idealizado por Hermínio Bello de Carvalho, o outro parceiro da música, e levou ao palco o conjunto Os Cinco Crioulos, com a dupla acrescida de Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho (1922-2006) e Anescarzinho do Salgueiro (1929-2000), que ciceroneavam as veteranas Araci Côrtes (1904-1985) e Clementina de Jesus (1901-1987), uma resgatada do ostracismo, e a outra lançada já na maturidade, algo então comum no samba. “A gente fazia a cama para as velhas sambarem”, brincava Elton.

Sol. Ele próprio aparecera para a indústria fonográfica em um contexto de recuperação da obra de Cartola (1908-1980), de quem era discípulo assumido. Desafiados por um produtor, os dois compuseram, em quase 40 minutos, a obra-prima “O Sol Nascerá”, gravada por Nara Leão (1942-1989) em 1964, quando a moça do apartamento na zona sul que gestou a bossa nova subiu o morro para cantar Cartola, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti. No ano seguinte, foi a vez de a Divina, Elizeth Cardoso (1920-1990) cantar três composições de Elton. O primeiro disco solo só viria para ele em 1973, após passar pelos estúdios com o conjunto A Voz do Morro, que registrou três álbuns. Sozinho, Elton dava voz a “Pressentimento”, um dos sambas mais bonitos de sua lavra, com letra de Hermínio: “Vem, meu novo amor…/ Vou deixar a casa aberta…”.

A música seria regravada por Marília Medalha, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Alaíde Costa, Roberto Silva (1920-2012), MPB-4, Quarteto em Cy, dentre outros, consagrando-se como clássico absoluto da nossa canção popular. Com o ídolo Cartola, outra criação de indistinta beleza seria a tristíssima “Peito Vazio”: “Nada consigo fazer/ Quando a saudade aperta/ Foge-me a inspiração/ Sinto a alma deserta”. Na mesma toada, fez a música para “Mascarada”, cuja letra de Zé Kéti atenuava o refinado desalento melódico: “O poeta era eu/ Cujas rimas eram compostas/ Na esperança de que/ Tirasses essa máscara/ Que sempre me fez mal”. Com o parceiro mais constante, Paulinho da Viola, cunhou “Onde a Dor Não Tem Razão”, outro sopro de esperança em meio à sofreguidão: “Nele a semente de um novo amor nasceu…/ Livre de todo o rancor, em flor se abriu…”.

Luz. Inquieto, Elton foi além dos parceiros habituais. Já em 1976, topou o convite do tropicalista Tom Zé para participar do álbum “Estudando o Samba”. Elton não se fez de rogado e entrou na onda experimental do baiano, com quem deu luz a duas pérolas, a aguda “Mãe Solteira” e a provocativa “Tô”: “Eu tô te explicando/ Pra te confundir/ Eu tô te confundindo/ Pra te esclarecer/ Tô iluminado pra poder cegar/ Tô ficando cego pra poder guiar”. Com outro espécime raro da MPB, o encontro se deu em 2011, quando Jards Macalé e Elton realizaram dueto em “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares. Ao longo da trajetória, o músico compôs com Mauro Duarte (1930-1989), como a animada “Meu Sapato Já Furou”, lançada por Clara Nunes (1942-1983), Paulo César Pinheiro, Ana Terra, Cacaso (1944-1987), Paulo Vanzolini (1924-2013) e Regina Werneck.

O número expressivo de parcerias foi inversamente proporcional aos poucos discos gravados. O derradeiro, “Mais Feliz”, de 2015, trazia na faixa-título uma saudação a verdadeiros ases da cultura nacional: Leila Diniz, Elis Regina, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Assis Valente. Antenado às desigualdades sociais, ele compôs, em 1980, “Unha de Gato”, com Antônio Valente, sobre a história de Benedito Pereira, “um pobre coitado/ apenas mais um morador lá do morro/ se amarrava num samba e sem nenhum favor/ era forte nas rimas sofridas do amor”. Até que um dia, “apanhado sem os documentos/ passou muito tempo entre maus elementos/ e o que ele aprendeu nem preciso contar/ hoje ele mudou, já não é mais aquele sujeito pacato/ é mais conhecido por Unha de Gato/ e pro morro voltou/ é mais um marginal”.

Fim. Com a deliciosa “Samba Original”, feita com Zé Kéti, utilizou o deboche para expressar sua particularidade, numa melodia contagiante: “Meu samba é um samba diferente/ Pois de fato, minha gente, ele é muito original/ (…) Não fala, meus amigos, de ninguém/ Simplificando a história/ Não fala de mim também”. Afora isso, ainda deu vazão a outra veia artística, ao escrever o espetáculo teatral “Chão de Estrelas”, com o poeta Walmir Ayala (1933-1991), baseado na trajetória do letrista Orestes Barbosa (1893-1966). Mas, talvez, seja em canções menos conhecidas, como a existencial “Dentro de Mim”, com Clóvis Beznos, que melhor se revele a natureza da obra de Elton. Desprendida de suas melodias, a cadência dolente, inebriante, compreende a dimensão trágica da vida, o que não anula a possibilidade de a levar a sorrir enquanto ela não se apaga.

Fotos: Site Oficial/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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