Quais os limites do humor em tempos de pandemia?

*por Marcelo van Petten

“Vestir toda minha dor
no seu traje mais azul
restando aos meus olhos
o dilema de rir ou chorar.” Tom Zé

A adrenalina de subir ao palco para fazer rir é uma sensação única, que apenas quem já sentiu não conseguirá descrever. Não há uma maneira de dizer o que é. Não há uma forma de exemplificar. Não há comparativos que não diminuam a intensidade dessa sensação. O alívio quando uma piada entra e o público ri. A satisfação de ouvir aplausos após um texto que demorou semanas para ser apresentado. A apreensão de não saber quando terei continuidade no que vinha fazendo. Os textos que foram para a gaveta, devido à pandemia. O cenário aonde estar nos palcos não será possível por muito tempo. Esse caminho descrito resulta em um pensamento que veio à minha cabeça: Talvez essa crise seja o limite do humor.

Já houve uma apresentação da qual participei onde ninguém riu. Meu texto foi apresentado e o público, infelizmente, não era o perfil para o qual eu havia preparado meu texto. Isso acontece. Faz parte. No início estamos nos lapidando, como em todos os aspectos de nossas vidas.

Já houve apresentação onde, na primeira piada, fui aplaudido de forma efusiva e as coisas correram com naturalidade. Isso faz com que o artista se sinta reconhecido e seu esforço tenha um retorno, mesmo que breve, em forma de risadas e aplausos. Vocês não fazem ideia de como esse feedback supera o retorno financeiro.

Há situações onde se observa problemas estruturais, como em qualquer outra área da sociedade ou dos nichos de entretenimento. Certa feita me manifestei em rede social dizendo que a turma da comédia não era tão solidária entre si, mas apenas entre os seus mais próximos, pois embora buscasse maior contato e oportunidades de me desenvolver, não via nenhuma boa vontade em 90% daqueles com os quais eu falava. Recebi então um retorno específico, dizendo que eu não fazia parte da turma da comédia e que, por não fazer parte, não saberia do que estava falando.

A partir daí, passei a observar algumas coisas que me fizeram desanimar e buscar o meu próprio caminho, junto a outros iniciantes, mesmo que isso custasse muito tempo ativo. Infelizmente, como alguém que tem buscado espaço no Stand Up nos últimos dois anos (infelizmente o Corona passou a perna em todo mundo), tenho uma coisa pra dizer: Que porcaria!

Mas não pela falta de shows, pois, como open, eu teria algumas participações em uma apresentação ou outra. Assim, teria que seguir de perto e me virar para pleitear qualquer apresentação na cidade ou tentar pedir por 3 a 5 minutos de open em shows de Belo Horizonte, onde a concorrência local já é bem alta e quase ninguém sabe quem eu sou.

Veja bem, vou contextualizar em alguns tópicos:

– Moro em Divinópolis, onde há uma turma iniciante no Stand Up. Essa turma é extremamente motivada e está sempre aberta a projetos novos.

– Na cidade onde moro, Divinópolis, há poucos humoristas de Stand Up e, mesmo assim, são ativos apenas em Belo Horizonte, não havendo cena de comédia ativa para que os iniciantes possam ter constância.

– Na cidade onde moro, Divinópolis, há uma excelente equipe na área da cultura que está sempre aberta ao diálogo e às oportunidades, com a qual o diálogo e as oportunidades podem acontecer. O Corona atou as mãos dessa equipe.

– Shows de Stand Up geralmente possuem os artistas principais e o chamado Open Mic, alguém que está buscando seu espaço no meio da comédia tendo de 3 a 5 minutos para apresentar seu texto em construção à plateia.

– Na cidade onde moro, Divinópolis, não há shows constantes de Stand Up e, dessa forma, nosso espaço está restrito à agenda dos artistas que têm visibilidade e sua conveniência de se apresentar na cidade.

– Na cidade onde moro, Divinópolis, como na maioria (disse maioria) dos lugares, os chamados Opens não são encorajados a fazer e nem têm apoio em organizar shows ou apresentações próprias, sem um artista principal que leve o nome e a imagem.

Dessa forma, fica claro que a falta de shows não é o motivo do “Que porcaria!” que eu disse no início do texto.

Além de um nada promissor futuro, vejo a situação na qual se encontra nosso país, infelizmente atrelada à comédia. Isso porque no circo onde vivemos há um show de horrores, onde os alienados dão risadas e as pessoas sóbrias sentem-se como alguém claustrofóbico preso dentro de uma caixa de metal. Não há motivos para rir. Não há motivos para querer fazer rir. Não há uma perspectiva sã que justifique piadas no atual cenário. Desconfie de quem segue postando e rindo da situação. Essa pessoa quer manter o algoritmo calibrado.

O mais importante nesse momento é manter, além da saúde física, a mental. É saber que os opens deveriam poder ter mais espaço e apoio quando o mundo sair dessa pandemia. É entender que ninguém precisa passar pelos mesmos perrengues que a geração anterior para ter espaço. É ter empatia.

É saber que talvez essa crise seja o limite do humor.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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