100 anos de Anísio Silva, primeiro brasileiro a vender 2 milhões de discos

*por Raphael Vidigal

“Quando minha esperança acabou me refugiei na paz dos boleros. Foi como uma beberagem peçonhenta: cada palavra era ela. Eu sempre havia precisado de silêncio para escrever porque minha mente atendia mais à música que à escrita. E então aconteceu o contrário: só conseguia escrever à sombra dos boleros.” Gabriel García Márquez

“Alguém me disse/ Que tu andas novamente/ De novo amor, nova paixão/ Toda contente/ Conheço bem tuas promessas/ Outras ouvi iguais a essas/ E esse teu jeito de enganar/ Conheço bem”, esses versos já foram cantados por Gal Costa, Alcione, Emílio Santiago, Ana Carolina, Agnaldo Timóteo, Nelson Gonçalves, Joanna e Simony, mas foi a gravação de Anísio Silva (1920-1989), nascido há 100 anos, a responsável pelas mais de 2 milhões de cópias vendidas, consagrando-o como o primeiro cantor brasileiro a faturar um disco de ouro, em 1960, à época ainda sem o mesmo peso do prêmio Roquette Pinto, até então o mais desejado entre os intérpretes.

A música acabou lançada, naquele mesmo ano, por Maysa, Cauby Peixoto e o grupo cubano Trio Avileño, em uma versão em espanhol, feito equiparável apenas à clássica “Marina”, de Dorival Caymmi, gravada por Dick Farney, Francisco Alves, Nelson Gonçalves e o próprio autor de uma só tacada, todas em 1947.

Hit. Quem conferir a atual parada de sucessos da música brasileira vai perceber que as dores de cotovelo costumam ocupar o topo, desde “pra que mentir tanto assim?/ se tu sabes que eu sei/ que tu não gostas de mim/ se tu sabes que eu te quero/ apesar de ser traído/ pelo teu ódio sincero/ ou por teu amor fingido”, de Noel Rosa e Vadico, editada no longínquo ano de 1938, até “infelizmente o que começa vai ter fim/ e você não foi o que eu sonhei pra mim/ vá viver a sua vida e me esquece, desaparece”, hit com Eduardo Costa em 2020.

No entanto, para além da composição da dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorim, que emplacaria uma série de sucessos após o estouro de “Alguém Me Disse”, muitos na voz do próprio Anísio Silva, como “Onde Estarás?”, “Ave Maria dos Namorados” e “Quem Tudo Quer, Nada Tem”, existia outro elemento fundamental: o cantor.

Brega. Segundo o jornalista e pesquisador musical Joaquim Ferreira dos Santos, Anísio era um “falso brega”: “Não levantava a voz, não soluçava, não rasgava a roupa em cena. Parecia narrar, quase falando, o triste fim-de-caso que lhe havia acabado de acontecer”, descreve. Embora ansiasse pelo estrelato há tempos, o balconista de farmácia Anísio Silva só chegou lá em 1957, com a gravação do bolero “Sonhando Contigo”, escrita em parceria com Fausto Guimarães.

No ano seguinte, Elizeth Cardoso colocava na praça o LP “Canção do Amor Demais”, com a faixa de abertura “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e o violão ritmado de João Gilberto. Era o começo da bossa nova, que, pouco a pouco, poria o estilo derramado das letras cantadas por Anísio de lado. Rodrigo Faour, biógrafo de Dolores Duran, Cauby, Angela Maria e Claudette Soares, argumenta que “o que aposentou o Anísio não foi a bossa nova, que nunca vendeu muito disco, mas a onda do rock da Jovem Guarda e os novos bregas, cuja música romântica já era em outro ritmo”.

Bossa. O curioso é que, a despeito do conteúdo passional, as interpretações do cantor primavam pela suavidade. Ele era capaz de entoar discursos humilhantes sem perder um pingo de dignidade na voz. Ironicamente, tanto Anísio quanto João Gilberto eram baianos, o primeiro de Caculé, criado em uma fazenda, e, o segundo, de Juazeiro, no sertão margeado pelo Rio Francisco.

Outra curiosidade é o fato de Anísio ter sido convidado para cantar na inauguração de Brasília por seu amigo pessoal Juscelino Kubistchek, o presidente bossa nova, o que também minimiza os alegados distanciamentos entre seu estilo musical e a canção insurgente naquele momento, e reforça a tese de que ele dava voz a um discurso tradicional sob uma forma que não estava atrelada ao passado, mas, ao contrário, se aproximava da modernidade.

Despedida. Apesar disso, em 1968, Anísio, que via o seu prestígio minguar paulatinamente em meio à ascensão da bossa capitaneada pelo conterrâneo, abandonou definitivamente a carreira, decisão que começou a ensaiar em 1964, e que foi interrompida com o disco “Retorno” (1967). Dali por diante, ele se dedicaria a dirigir uma boate no Rio de Janeiro, com esporádicas participações fonográficas.

A fase áurea dos anos 1950 havia passado, e seu nome só seria resgatado com a regravação de Gal Costa para “Alguém Me Disse”, em 1990, no disco “Plural”, produzido por Wally Salomão (1943-2003). De acordo com Caetano Veloso, “Interesseira”, bolero de Bidu Reis e Murilo Latini, lançado por Anísio em 1958, teria inspirado a canção “Todo Errado”, do sempre antenado tropicalista Jorge Mautner.

A despeito de Anísio Silva ter sido relegado ao esquecimento, o seu maior sucesso ecoa até hoje.

Fotos: Odeon/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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