O sadomasoquismo no cinema

“Ah, as pessoas põem a ideia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. (…) Sexo é o susto de uma criança.” Clarice Lispector

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A obra surrealista do espanhol naturalizado mexicano Luis Buñuel, e que por anos viveu na França, certamente recebeu influência do artista plástico Salvador Dalí. Mas também atuou de maneira assertiva sobre outros nomes. Por exemplo, o pernambucano Alceu Valença se vale do título de um dos filmes mais controversos de Buñuel para batizar uma popular canção. “La Belle de Jour” do compositor é transportada para a tropical praia de Boa Viagem, enquanto a película de Buñuel passa-se em dois campos distintos. O primeiro diz respeito a um frio interior francês, já o segundo, aparentemente na imaginação da protagonista, não economiza na temperatura. O tema do sadomasoquismo, além da conotação de tabu moral, servia para espezinhar a hipocrisia burguesa, o ideário religioso e a tênue linha entre prazer e dor. Não mudou muito até agora.

Nessa década de 2010, quem puxa a fila do assunto chega pela indústria como best-seller, produção americana com recorde de arrecadação no cinema, pontos que nos permitem notar, de cara, o diferencial entre as duas obras. “50 Tons de Cinza” é também baseada em livro, o que parece ser a única ligação com “A Bela da Tarde”, de Buñuel e que tem Catherine Deneuve no papel principal, tirada das páginas de Joseph Kessel. Além de preocupações estéticas, a intenção provocativa, e o habitual misto entre delírio e realidade, justamente por essas características Buñuel ergue com unhas e dentes a bandeira da reflexão, o que lhe impede concessões à rápida assimilação mercadológica. E. L. James, ao contrário, é um produto de mercado feito para o mercado. Está intrinsicamente ligada a ele. Se Buñuel criticava o moralismo, o folhetim contemporâneo só o reforça.

É preciso haver um herói, uma princesa, um romance. Uma história de amor que não naturaliza a prática sadomasoquista, mas a torna bizarra. Por isso os olhares curiosos daqueles que apontam para o circo de aberrações, com a plena certeza de não pertencerem a este ambiente, mantendo a coluna ereta e o orgulho intacto. Tão mais negam a condição risível do ser humano, mais se oferecem de quatro. Se não no plano físico, certamente no das ideias, nesse cenário impalpável que Luis Buñuel soube tocar ao transformar a fantasia sexual e o prazer da submissão em sonho, não numa gaiola dourada. Cabe menção a outra película ainda mais corajosa e aguda. “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, do alemão Rainer Werner Fassbinder, que aguça a temática na adaptação da peça “Querelle”, de Jean Genet. Os “Contos Imorais”, dirigidos por Walerian Borowczyk contribuem, mais do que ao cinema, para libertar o homem. Ou prendê-lo, se assim o desejar.

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Raphael Vidigal

Imagens: Cenas do filme “A Bela da Tarde”, de Luis Buñuel; e “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Rainer Werner Fassbinder, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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