Novos filmes argentinos discutem violência contra a mulher e corrupção

*por Raphael Vidigal

“descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.” Jorge Luis Borges

Não é de agora que o cinema argentino é apontado, com justiça, como um dos melhores do mundo. Os reconhecimentos mais ruidosos até hoje foram as entregas do Oscar para o excelente “A História Oficial” (1985) e “O Segredo dos Seus Olhos” (2009), este estrelado por Ricardo Darín, na categoria de melhor filme estrangeiro, ambos tendo como pano de fundo períodos da violenta ditadura militar argentina. A recente safra de produções do nosso país vizinho não decepciona. “A Odisseia dos Tontos” talvez seja o que mais fale ao Brasil, e tem no elenco o astro Darín. Ao lado dele, estão Luis Brandoni e Verónica Llinás.

A história acontece durante uma das incontáveis crises econômicas da Argentina. Esta, no entanto, ficou conhecida como “Corralito”, a grande depressão que durou de 1998 a 2002. É justamente nesse momento que um grupo de bem intencionados habitantes de uma pequena cidadezinha, incluindo um ex-jogador de futebol cuja fama se restringe ao local, decide investir o pouco dinheiro que possui em uma cooperativa. Como sempre, há os espertalhões de plantão, os especuladores do mercado financeiro que detém informações privilegiadas e, beneficiados por manobras bancárias, embolsam a grana inteira.

A novidade é que, cansados de serem passados para trás, aqueles que se autodenominam “tontos” – o que justifica o título do longa – decidem ir à forra. Pendendo entre o humor, o suspense, o drama e a aventura, o filme consegue um resultado equilibrado, capaz de prender a atenção do espectador em todas as suas circunstâncias. A temática da corrupção se impõe, mas, aqui, não há heroísmos estéreis, dispostos a convencer a população das boas intenções de um grupo que ergue, supostamente, a bandeira da justiça, quando, na verdade, essa defesa apenas procura conferir dignidade para miúdos interesses pessoais.

O próprio final da façanha ajuda a tirar um pouco do romantismo moralista, constatando que o ser humano, mais do que bom ou mau, é um bicho complexo. O julgamento moral, aliás, dá o tom de “Crimes de Família”, estrelado por Cecilia Roth, que rouba a cena sem pedir licença, com um bom Miguel Ángel Solá lhe coadjuvando, no papel do patriarca sisudo, distante, que, quando a coisa aperta, não hesita em fugir das responsabilidades e deixa a bomba para a esposa. O centro da trama são as violências cometidas contra a mulher, mas, há questões que se entrecruzam. Exemplo: julgamentos morais são, antes, de classe social.

Alicia, vivida por Cecilia, é uma madame endinheirada, hipócrita, que adora Deus tanto quanto apontar o dedo para os outros com superioridade: o seu racismo é explícito, exibido com orgulho. A empregada, interpretada por Yanina Ávila, como a personagem mais difícil da trama, foi trazida do campo quase como uma escrava, mas, ensinada a ser humilde até demais, é grata aos “favores” da patroa, que lhe permite morar no luxuoso apartamento e toma conta de seu filho. Como mãe, Cecilia mima todas as vontades de seu primogênito e do rebento da subalterna. Até que crimes envolvendo estupros passam a lhe atormentar. Tudo bem próximo do nosso Brasil de preconceitos, violência e corrupções arraigadas.

O deslocamento da culpa materna pelos filhos homens que criam é um ponto alto. Outro é a escolha narrativa, com tempos paralelos. Por fim, há “Minha Obra-Prima”, comédia sarcástica, novamente com o ótimo Luis Brandoni, em uma atuação que, no Brasil, cairia como luva para o ator Paulo César Pereio. Ali, ele é Renzo Nervi, um pintor decadente que se recusa a aderir aos modismos da roda da fortuna do mundo da arte. Suas convicções, no entanto, podem não ser tão inflexíveis quanto supõe sua intransigência. Corrupção da alma? O veterano, então, resolve sacrificar sua vida pela obra – só que de uma maneira inusitada.

Fotos: cenas de “Crimes de Família” e “A Odisseia dos Tontos”, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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