‘Mostra Expressionismo Alemão’ revela que o sobrenatural somos nós

*por Raphael Vidigal

“Apego-me à magia. É uma salvação.
Pela força do espírito e o vigor do verbo,
As forças naturais, secretas, exacerbo” Goethe

Dividida em duas partes, a “Mostra Expressionismo Alemão” apresenta, ao todo, 25 filmes do movimento que surgiu entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e mudou a história do cinema germânico. Online e gratuita, a programação fica no ar através do site da Fundação Clóvis Salgado até 2 de outubro. Clássicos como “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920), de Robert Wiene, “Nosferatu” (1922), de F. W. Murnau, e “Metrópolis” (1927), dirigido pelo austríaco Fritz Lang, estão contemplados. O mais interessante, no entanto, talvez sejam algumas raridades.

É o caso, por exemplo, de “A Boneca do Amor” (1919), que contém uma característica pouco vista em películas do gênero. Trata-se de uma comédia, com todos os maneirismos do expressionismo alemão. Estão lá as maquiagens carregadas e a temática sobrenatural. Destaca-se o cenário: logo de cara, as personagens são colocadas dentro de uma maquete. Ao assumir a fantasia, a narrativa converte a mentira em verdade e propõe uma discussão que vai muito além do enredo sobre o jovem que compra uma boneca para fingir ser sua noiva.

Com direção de Ernst Lubitsch, “A Boneca do Amor” encontra soluções impagáveis, a exemplo dos cabelos do pai que, subitamente, tornam-se brancos para explicar a sua mudança de espírito. A fuga do ajudante é outro momento delicioso. Tudo o que aqui parece verdadeiro, na verdade é falso, e vice-versa, em especial a protagonista, uma precursora da boneca inflável, numa época em que ser “misógino, solteirão ou viúvo” servia de desculpa para adquirir uma dessas. Até a hipocrisia cristã ganha suas agulhadas. O resultado é formidável.

“O Golem: Como Veio ao Mundo” (1920) recupera uma lenda judaica que traz à tona o histórico antissemitismo alemão que ajudou a fomentar o Nazismo. A direção é dividida entre Carl Boese e Paul Wegener, que também interpreta o Golem, um ser de barro que desperta quando o rabino da comunidade realiza um antigo feitiço da Cabala. Sua missão é proteger os judeus da expulsão perpetrada pelo imperador. A tensão da trama é sublinhada pela trilha sonora, cheia de distorções e esquisitices. Mas o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro.

“O Castelo Vogelöd” (1921), de Murnau, um dos diretores mais importantes da Alemanha, aposta no suspense. É o famoso: “Quem matou quem?”. As suspeitas recaem sobre o Conde Oeastsh, um tipo de feições sinistras e hábitos estranhos, que teria assassinado o próprio irmão para ficar com a herança. A acusação é grave e parece chocar ainda mais naqueles tempos idos: fratricídio. O jogo das aparências é levado ao limite, com disfarces psicológicos e mesmo físicos. A realidade aparente e palpável nunca é suficiente, pois o sobrenatural somos nós.

Fotos: Cenas de “A Boneca do Amor” e “O Castelo Vogelöd”, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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