‘Garoto: Vivo Sonhando’ estreia no In-Edit, festival de filmes sobre música

*por Raphael Vidigal

“As obras de arte são de uma solidão infinita” Rilke

Henrique Cazes propõe um exercício especulativo: “Se Garoto tivesse vivido mais dez anos, poderia ser o maior compositor de violão do século XX”. Já Yamandu Costa é definitivo: “Garoto é muito mais moderno que a bossa nova”. Apesar disso, Dori Caymmi via no compositor “uma tristeza” pelo não reconhecimento de sua obra para além do séquito de admiradores. “A única alegria que o músico tem é o outro. E depois as pessoas não sabem nem do que você está falando, essas coisas não existem”, lamenta o herdeiro de Dorival.

A vida breve e obstinada do violonista que morreu em 1955, aos 39 anos, vítima de um enfarte fulminante quando Carlinhos Lyra ia até sua casa para tomar a terceira aula de violão, é tema do documentário “Garoto: Vivo Sonhando”, que acaba de estrear no Festival In-Edit, dedicado a filmes que abordam o universo da música e que, pela primeira vez, acontece de maneira online, devido à pandemia do novo coronavírus, com ingressos a R$3 e mais de 60 opções de documentários no cardápio, entre produções brasileiras e internacionais.

As Cordas Mágicas de Garoto; ouça as principais composições do violonista

Talento. Considerado um prodígio, Aníbal Augusto Sardinha ganhou o apelido porque o radialista César Ladeira não sabia seu nome e se deteve na juventude do músico para apresentá-lo ao público. Logo que surgiu, Garoto já chamava atenção pela habilidade e o virtuosismo. “Nos anos 40 e 50, a Rádio Nacional tinha mais força do que a Globo tem hoje. Nesse contexto, Garoto se apresentava em horário nobre, seja como acompanhante, como solista junto de uma orquestra, ou como solista no violão. Trabalhos como o de Garoto tinham uma exposição incomparável, que nunca mais houve, e provavelmente nem haverá, para seu tipo de música”, pontua Rafael Veríssimo, diretor do longa.

O filme recupera uma imagem de Carmen Miranda interpretando a embolada “Bambo de Bambu”, de Donga e Patrício Teixeira, com Garoto discretamente ao fundo, de lenço no pescoço e violão em punho. Pouco tempo depois, ele retorna dos Estados Unidos e Paulo Bellinati comenta sobre o temperamento do músico, dado a querer aparecer mais do que os cantores, o que teria dificultado sua permanência fora do Brasil. Além de acompanhar a “Pequena Notável”, Garoto tocou com Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Ary Barroso e foi regido pelo maestro Radamés Gnattali, variando os instrumentos de corda com naturalidade. Embora preferisse o violão, dominava banjo, cavaquinho, bandolim e guitarra havaiana.

Ideia. “Eu não ouvia falar do Garoto havia muito tempo e lembrei do quanto a música dele era maravilhosa”, conta Veríssimo, que, segundo ele, “arranha um pouco de violão desde os 14 anos”. O cineasta teve o primeiro contato com a obra do autor de “Duas Contas”, “Gente Humilde”, “Amoroso” e “São Paulo Quatrocentão” por volta de 2005, quando cursava jornalismo na USP e recebeu de presente uma cópia do disco “Tributo a Garoto”, de Radamés Gnattali e Raphael Rabello, dada por Lucas Bonolo, violonista e diretor de fotografia do documentário.

“Gostei e gastei: ouvi até o disco se desfazer. ‘Enigmático’ e ‘Nosso Choro’ me pegaram de jeito desde o princípio e são minhas músicas favoritas, justamente por sua sonoridade sofisticada, que não deve ser confundida com rebuscada, num sentido de excesso de recursos”, informa. Em janeiro de 2014, ele encontrou Henrique Gomide, pianista e diretor musical do filme. “Estávamos a caminho da casa de nosso amigo Lucas Nobile, pesquisador e entrevistador do filme, quando o Henrique me contou que Garoto seria o tema de pesquisa do mestrado dele”.

A lembrança imediatamente acendeu em Veríssimo o gosto pela obra. “Perguntei ao Henrique se ele conhecia algum documentário sobre o Garoto, para saber mais sobre o assunto. Ele disse que não. Na hora respondi: ‘Bora fazer esse documentário então?’. Ele topou, o Lucas Nobile logo em seguida. Minutos depois o Lucas já estava no telefone com o Zé Menezes para marcar entrevista”, relembra.

Diários. Além de Zé Menezes, que tocou com Garoto na Rádio Nacional durante muitos anos e comparece com depoimentos emocionados, Paulinho da Viola, Roberto Menescal, João Donato, Raul de Souza e outros, tomam a tela para saudar o legado do homenageado. Arquivos recuperados trazem observações de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, João Gilberto, Baden Powell, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Fafá Lemos, companheiro do Trio Surdina, e das viúvas Dugenir de Castro e Cecy Rosa. Soma-se a esse mosaico, a leitura de fragmentos de diários deixados por Garoto.

“Não deixa de ser notável que seus diários são um desfile de grandes artistas com quem Garoto se relacionava no âmbito profissional. É curioso notar também que ele anota muitos dos eventos da sociedade, muitas notícias. Eventos políticos como a Segunda Guerra Mundial ou o suicídio de Getúlio Vargas, e ainda muitos resultados de futebol, que ele escrevia todos os fins de semana, sem torcer para algum time em particular”, destaca Veríssimo.

A despeito de “90% dos diários ter uma função de agenda, com compromissos, pagamentos, horários na rádio, gravações, shows em cassinos e boates”, o diretor salienta que se depreende da personalidade de Garoto uma “disposição aos estudos e o foco total na música, que por vezes o deixava em falta com outras pessoas; as celebrações de marcos artísticos em contraposição às toneladas de compromissos do dia-a-dia; a sinceridade ao analisar alguns de seus próprios desempenhos, dizendo coisas como ‘hoje fiz o pior programa da história’, por exemplo; e sua religiosidade ligada ao espiritismo”, enumera.

Sonho. O batismo do documentário pega emprestada uma música de Garoto, que, na opinião de Veríssimo, “diz muito de sua personalidade: uma existência em outro plano, o da música”. “A sua mente ‘nas nuvens’, sonhadora, é, na verdade, uma cabeça em que a música está presente o tempo inteiro”, analisa. “Ainda num sentido biográfico, o documentário traz à tona alguns dos sonhos de Garoto, em termos artísticos, profissionais, de plano de vida. E, esteticamente, também tentamos flertar com dispositivos que tivessem uma intenção mais onírica”, completa.

Se não alcançou todo o sucesso que almejava, Garoto, inventor do violão tenor, teve seus momentos. O mais marcante deles talvez seja “São Paulo Quatrocentão”, dobrado de 1953 em parceria com Chiquinho do Acordeom, que saudava o quarto centenário da cidade onde Garoto nasceu. Recordista de vendagem de discos, chegou ao topo das paradas e foi cantada, inclusive, por Hebe Camargo.

“Justamente quando estava experimentando todos os vanguardismos, Garoto fez sucesso com uma coisa que tinha um charme anacrônico”, aponta Henrique Cazes no filme. Outros exemplos de hits são “Duas Contas”, a belíssima letra sem rimas de Garoto, e “Gente Humilde”, adornada com a poesia da dupla Vinicius de Moraes e Chico Buarque, regravada por Renato Russo, Maria Bethânia, Mercedes Sosa, Angela Maria, Luiz Melodia.

Memória. “Depois de passar décadas no limbo, acredito que Garoto tem tido um reconhecimento cada vez maior, ao menos no meio musical”, afirma Veríssimo. Após os tributos históricos de Radamés Gnattali, Raphael Rabello e Paulo Bellinati, no ano passado foi lançado o álbum “As Canções de Garoto”, com arranjos orquestrais de Paulo Serau e interpretação do cantor mineiro Sérgio Santos.

“Garoto morreu, sua obra violonística não foi lançada comercialmente, a TV desbancou o rádio para sempre. Em grande medida, a imagem desbancou o som na música, o que para mim nunca vai deixar de ser um fato estranho. Quem veio depois até tocou ‘Duas Contas’, grande símbolo da transição que culminou na bossa nova, mas uma hora a música também fica pra trás. E mudou-se de assunto. E brasileiro muda de assunto muito rápido”, declara Veríssimo.

Ele aproveita o ensejo para fazer uma gancho com outras questões do país. “Tem o dinamismo próprio à natureza, de ciclo de nascimento e morte, de passagem do tempo? Sem dúvida. A vida segue, afinal. Então é natural que não fiquemos falando toda hora de nossos mortos. Mas é gritante o desinteresse em nosso passado, em como viemos parar aqui, em divulgar as bases sobre as quais crescemos. Então, deixamos museu queimar, deixamos acervo de filmes queimar, deixamos o Pantanal queimar”, lamenta.

Tido como espécie de precursor da bossa nova, Garoto, a exemplo do apelido que o consagrou, parece conservar o viço da modernidade até os dias estranhamente reacionários de hoje. “A principal contribuição de Garoto para a música brasileira é a sofisticação que ele trouxe em sua maneira de tocar violão, e que influenciou todo mundo que veio depois, direta ou indiretamente”, finaliza Veríssimo.

Fotos: Imagens do documentário “Garoto: Vivo Sonhando”/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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