‘Mostra de Cinema Egípcio Contemporâneo’ vai do novelesco ao suspense

*por Raphael Vidigal

“lá vão elas
um dia, as pirâmides do egito
ainda vão chegar até as estrelas” Paulo Leminski

Como boa parte de sua produção cultural, o cinema egípcio ainda é um grande mistério para nós, brasileiros, o que se estende a quase todos os ocidentais. A “2ª Mostra de Cinema Egípcio Contemporâneo” desvenda um pouco dessa curiosidade. Patrocinada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, a iniciativa teve que ser realizada online, devido à pandemia do novo coronavírus, e seu acervo será disponibilizado gratuitamente no site da instituição até 23 de agosto, com um porém: os filmes são trocados diariamente, seguindo lógica parecida com a dos cinemas em cartaz. O recorte abrange películas que vão de 2010 a 2019.

Um dos principais méritos da programação é a diversidade de abordagens e gêneros: documentário, drama, romance, suspense, comédia, aventura, terror, com direito a longas coloridos e em preto & branco. Apesar disso, há semelhanças que se impõe, notadamente a opressão religiosa e sua forte interferência na política de Estado do Egito, fato que serve de alerta para o país que elegeu um presidente cujo slogan de campanha era “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, dentre outras bandeiras tão ou mais espúrias, como a defesa da tortura e a supressão dos direitos das minorias.

Seleção. “Entre Dois Mares”, de Anas Tolba, nos coloca diante do drama de uma mãe que tem a filha vítima da nefasta circuncisão feminina, por obra da avó e do pai, ambos amparados pelo dogmatismo islâmico que prega uma vida de penitências e sacrifícios às mulheres e lhes sufoca os sonhos de estudarem e se tornarem médicas. Paralelamente, uma amiga da família procura fugir do marido que a espanca e, nada por acaso, é filho de um líder religioso. Hipocrisia e repressão se entrelaçam como bases de sustentação do discurso que elege Deus como desculpa para os atos bárbaros. O resultado é bastante satisfatório.

“Dia do Julgamento Final” é uma facada certeira no coração. Indicado a Cannes, o longa é protagonizado por Beshay, que carrega na alma e no corpo as sequelas da hanseníase, antigamente conhecida como lepra. “Corra de um leproso como se corresse de um leão”, diz ele, em determinada cena, repetindo versículo bíblico, com uma sacada pra lá de perspicaz na sequência: “Então um leproso é como um leão?”. Após a morte da esposa, ele resolve deixar a colônia onde vive em busca de seu passado, levando consigo um garoto que adotou o nome de Obama (“como o cara da televisão”, justifica ele) e um burro de carga. O preconceito contra o diferente dá o tom da narrativa dessa bela película.

Clichê. “Horário do Cairo” aposta na conhecida fórmula das histórias episódicas que se entrecruzam. Os protagonistas são uma atriz que se converteu à religião e renega a carreira profana, um senhor com Alzheimer que parte numa viagem tresloucada para encontrar um antigo amor, um traficante de drogas que precisa fugir dos donos do negócio e um casal de namorados às voltas com o dilema de cometer ou não o pecado do sexo antes do casamento. Um ator aposentado e cheio de Botox completa o combo. A trama não nega o caráter novelesco e oferece momentos cômicos, mas irregulares. Para piorar, acaba abruptamente.

“Sheikh Jackson” traz a sinopse mais inusitada: um clérigo islâmico que reprimiu sua adoração a Michael Jackson na adolescência e vê o sentimento retornar com o anúncio da morte do ídolo pop. Ele passa a duvidar da própria fé e recorre a uma sessão de terapia que o leva a investigar sua vida pregressa. Ao emular os videoclipes megalomaníacos do astro, que embasbacaram críticos e público nos anos 1990, o filme aceita de bom grado sua natureza cafona. E não para por aí. Rezando a cartilha das empreitadas que costumam pautar o segmento adolescente e juvenil, não falta a figura paterna como obstáculo à rebeldia e um romance platônico com a garota mais descolada da classe. Desfile de clichês.

Mistério. “Pó de Diamante” tem outra pegada. O roteiro bem costurado, baseado no romance homônimo de Ahmed Mourad, autor da saga “O Elefante Azul”, também adaptado para a telona, consegue ser intricado e complexo sem, com isto, perder o seu interesse. O crime que orbita em torno das personagens na verdade é o pano de fundo para uma análise histórica das conturbadas relações de poder no Egito, perpassadas por uma corrupção sistêmica que protege as classes dominantes e, em vários pontos, se assemelha ao Brasil. Acrescente-se a isso a violência, em todos os níveis, contra as mulheres e a cretinice masculina. Suspense eletrizante de arrepiar e não deixar desgrudar os olhos da tela.

“Mawlana” repete no título o nome de seu protagonista, um heterodoxo líder religioso do islamismo, que alcança fama ao comandar um programa de televisão em que responde a perguntas da plateia de casa e do auditório. Líderes de diferentes igrejas que estendem sua influência sobre a população através das mídias é outro fator que guarda uma incômoda similaridade com nossa nação tupiniquim, sob avanço do conservadorismo religioso. No entanto, o que Mawlana faz é justamente o contrário, guardando características que o aproximam da Teologia da Libertação que, na década de 1970, trouxe um sopro de tolerância religiosa à América Latina. O Sheikh egípcio, dado a opiniões amplas, é perseguido por aqueles que preferem a hegemonia do maniqueísmo.

Dor. O problema é a confusão da narrativa, que joga a segundo plano o trágico acidente com o filho de Mawlana. As complexas imbricações que abrem espaço para o radicalismo xiita entre os muçulmanos merecem atenção redobrada, porém, não parece suficiente para compreender passagens fundamentais da história, algo que os egípcios devem entender muito melhor por vivenciar na pele as consequências dessa realidade. Por último, mas não menos importante, temos o pungente “Saída Para o Sol”, que requer um exercício de paciência em tempos velozes e dispersos. Ali, o tempo se redobra e desdobra, como nos filmes de Tarkovsky, cineasta russo de apurado senso estético, o que pauta as precisas composições de quadros desse drama premiado no Festival de Cinema Africano.

Mãe e filha têm que cuidar do pai enfermo. O maior fardo, no entanto, fica para a mais nova, que vê a sua vida sucumbir à iminência da morte, com boas doses de culpa calculadas pela matriarca, que as entrega a ela sem complacência. A conversa dentro de um micro-ônibus com uma jovem perturbada pelo fanatismo religioso é preciosa – em especial pelo que não está em primeiro plano, mas se revela como central: o olhar repressor dos homens. Com sessões extras e longas para estrear, a mostra ainda apresenta “Fotocópia”, “Joana D’Arc Egípcia”, “Para Onde Foi Ramsés?”, “O Portão de Partida”, “Eu Tenho Uma Foto”, “Vila 69”, “Mensagens do Mar”, “Não Me Beije”, “Verde Seco”, “Decor”, “A Girafa”, “Caos e Desordem”, “Como Um Palito de Fósforo” e outros, totalizando 24 filmes.

Fotos: CCBB/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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