Morre Christopher Plummer: de galã a veterano fora do armário

*por Raphael Vidigal

“Ser escolhido papa em todos os conclaves
Feitos por imbecis tão nulos quanto graves?
Obrigado.” Da peça “Cyrano de Bergerac” de Edmond Rostand

Altivo, sagaz, magnânimo. Christopher Plummer aliou qualidades que pareciam tão suas quanto da personagem ao interpretar o protagonista da peça de Edmond Rostand, levada ao palco da Broadway em 1974, e que era conhecido, sobretudo, pelo nariz desproporcional que conferia à sua figura uma imagem entre o risível e o repugnante: “Cyrano de Bergerac”, mosqueteiro, escritor e inventor francês que inspirou diversos filmes e montagens de teatro. Mas Christopher Plummer, morto nesta sexta (5), aos 91 anos, estava longe de ter uma aparência grotesca, ao contrário, e, como os demais intérpretes de Cyrano, se valeu de uma rocambolesca prótese nasal para vive-lo.

A faceta de galã, mal-ajambrada sob o véu da feiura do bravo herói, logo foi descoberta por Hollywood. Depois de alguns papeis pequenos, o canadense de Toronto exibiu os dotes vocais e físicos na tela do cinema em grande estilo, ao viver o capitão George Von Trapp, pai de sete filhos que perderam a mãe e sabotam todas as governantas da casa, até a chegada de uma singular postulante a freira, interpretada por ninguém menos que Julie Andrews (a futura Mary Poppins, em um papel muito parecido), no clássico musical “A Noviça Rebelde”, dirigido por Robert Wise em 1965.

Da rigidez estoica à alegria plácida, nada escapa ao olhar compenetrado de Plummer, que passa sutilmente, e sem arroubos gestuais, da intransigência paterna ao afeto cúmplice. Consagrado no cinema, ele seguiu realizando o teatro do bardo inglês William Shakespeare, indo bem além do galã. Ao longo de uma carreira prolífica, teve de atuações menores a personagens fictícios e históricos como Júlio Cesar, Sherlock Holmes e o vilão de “Jornada nas Estrelas”, mantendo intacta no imaginário popular a dignidade do capitão Von Trapp, que defendia sua família austríaca contra a invasão dos nazistas.

Munido dessa mesma dignidade, misto de fleuma e elegância, Plummer abocanhou um tardio Oscar, o tal reconhecimento máximo dos velhinhos da Academia, ao encarnar o pai de Ewan McGregor na comédia-dramática “Toda Forma de Amor” (2010), dando veracidade à história de um senhor que decide viver plenamente a sua homossexualidade já na maturidade e descobre ter um câncer. Em “Entre Facas e Segredos” (2019), o último filme, ele só rouba a cena. Coadjuvante de luxo, Plummer pouco aparece, mas, quando o faz, é o necessário. O impacto já está feito. Essa precisão em cena parece a bússola de sua persona.

Ao economizar gestos, o ator garante importância a cada um deles. A composição que dá a cada uma de suas personagens depende dessa atenção. Concentrado em seu ofício com a obediência de um militar, o ator chegou, de fato, ao estrelato almejado por muitos colegas, sem ceder-se ao espalhafatoso mundo das celebridades. Talvez, hoje, seja cada vez mais difícil um artista que chegue aonde ele chegou, estando apenas dedicado ao trabalho de labor das personagens. Não deixa de ser irônico e significativo que, em seu último trabalho na tela do cinema, Plummer tenha vivido uma personagem que morre em cena.

Fotos: Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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