Morre a atriz Wilma Henriques, a primeira-dama do teatro mineiro

*por Pedro Paulo Cava (ator, diretor e produtor teatral)

“Tratemos o teatro como um lugar de diversão, o que é justo já que pertence a uma estética. E procuremos descobrir que tipo de diversão mais nos convém.” Brecht

São cinquenta anos de carreira teatral dando forma e conteúdo às suas personagens, emprestando corpo, voz e emoção ao mundo mágico do teatro e canalizando todas as suas energias para o ofício da cena. Assim é Wilma Henriques, um animal teatral com todas as suas garras afiadas e de prontidão para avançar sobre a cena dando vida a mais uma personagem, um desafio.

Quando me perguntam o que é o talento nunca sei direito a resposta, mas reconheço-o no simples contato com um artista cuja chama interior brilha intensamente nos olhos e nos captura pelo olhar, gesto, palavra e movimento com o corpo. Talento para mim é então uma intuição altamente desenvolvida que capacita um artista para exercer com mais facilidade que todos os outros a criação artística e deixar cravada nela a sua impressão digital.

É nesse pequeno rol de intuitivos que se inscreve Wilma Henriques, cuja entrega à criação é visceral e plena, admirável do ponto de vista do encenador que está acostumado ao contato diário com o universo dos atores. Portanto, podemos dizer, talentosa. Mas, mesmo assim, não escapa da máxima teatral que classifica a arte do ator como sendo um ofício que demanda cinco por cento de inspiração e noventa e cinco por cento de transpiração.

Talento. Acredito que para pessoas como Wilma, esses cinco por cento sejam mais fáceis de atingir do que para a maioria dos atores. A isso que chamam de inspiração e que a quase totalidade dos atores luta para alcançar através de exercícios, concentração, repetições e métodos diversos de interpretação, para Wilma Henriques e alguns outros pouquíssimos eleitos pelos deuses do teatro, é como apertar um botão ou abrir uma caixa onde está tudo lá, saltando para fora aos borbotões ao menor estímulo, ao menor sinal de paixão por qualquer personagem que lhe proponham encarnar e dar vida.

Esse é o diferencial a que chamam talento. Vem com o DNA da pessoa e raramente é ensinado ou vendido nas escolas de teatro pelo mundo afora. É essa intuição sabida por quem a possui que mantém acesa a paixão pela cena e faz com que Wilma Henriques complete agora seus cinquenta anos de carreira integralmente dedicados ao ofício de atuar: dormindo, comendo, respirando e vivendo cada dia deste meio século o sonho da criação artística. São justas e até poucas as homenagens que lhe são oferecidas por tanta alegria que deu ao público até aqui e que, certamente, ainda dará nos anos seguintes.

Trajetória. Desde 1959, quando inicia sua carreira na extinta TV Itacolomi, atuando no famoso teleteatro daquela emissora em diversos papéis que a consagraram junto ao público da cidade nos anos seguintes, passando pelo cinema, teatro e funções ligadas ao ensino da arte em entidades culturais, foi com a mesma tenacidade e paixão que ela teimosamente marcou seus passos na calçada dos que escrevem a história das artes em uma cidade tão difícil para a sobrevivência de qualquer artista-criador como é Belo Horizonte.

Foi uma escolha, penso eu, de parte de uma geração que me antecedeu e que teve reflexos diretos sobre a minha: permanecer e realizar em Minas. Uma escolha que para Wilma Henriques, e tantos outros, teve e tem até hoje um preço alto que é cobrado diariamente com muito suor e juros afetivos exorbitantes e impagáveis. Quem ganhou com a presença de Wilma nos palcos mineiros fomos nós, os belo-horizontinos, que pudemos vê-la em trabalhos tão marcantes e brilhantes ao longo deste meio século.

Destaques. Só para citar alguns que certamente serão lembrados por toda uma geração e registrados para que as futuras gerações de atores saibam quem lhes abriu as portas dos palcos da cidade, começo com “Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho come” de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, com direção de José Antonio de Souza, montagem de 1967/68, quando tive a oportunidade de estar no mesmo elenco em que ela protagonizava uma engraçada personagem chamada “Zulmirinha Requião” e que nos intervalos entre ensaios me dava aulas, conselhos, puxava as minhas orelhas de ator iniciante e me empurrava em cena para que eu não perdesse o tempo da entrada no palco.

A partir dali, ficamos amigos e cúmplices em vários trabalhos e lutas em defesa do teatro, contra a censura e na criação de entidades de classe que aglutinassem os artistas em uma categoria profissional. Assim fundamos em 1975 a Apatedemg, combativa associação dos artistas cênicos e que mais tarde veio a se transformar em Sated, o Sindicato Profissional dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão. Eu era o presidente e ela minha vice e meu alterego, sempre ali pontuando, inquietando, cutucando.

Outros espetáculos de Wilma marcaram profundamente a cena mineira e mostraram ao público o gênio de nossa primeira dama teatral: “Geração em Revolta”, texto de John Osborne com direção de Rogério Falabella; “Fala Baixo Senão Eu Grito”, de Leilah Assunção; “Há Vagas Para Moças de Fino Trato”, de Alcione Araújo; “Ensina-me a Viver”, de Collin Higgins com direção de Elvécio Guimarães; “À Margem da Vida”, de Tenesse Williams, com direção de Carlos Xavier; “O Macaco da Vizinha”, de Joaquim Manoel de Macedo, também com direção de Carlos Xavier; “Três Mães”, com texto e direção de Jair Raso; “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos com direção de Mamélia Dornelles; “Boa Noite, Mãe” de Marsha Norman, com direção de Marcos Vogel, dentre muitos outros também de grande importância.

Parceria. Particularmente, eu destaco dois momentos em sua carreira em que estivemos juntos na mesma produção. O primeiro deles foi uma conspiração de fatores e pessoas para que levássemos à cena o texto de Jean-Paul Sartre, “A Prostituta Respeitosa”, estrondoso sucesso de público e crítica encabeçado pelo brilhantismo e ousadia de Wilma em 1976, sob a direção de Orlando Pacheco no Teatro da Imprensa Oficial. Tive o prazer e o orgulho de elaborar a trilha sonora do espetáculo e participar de todo o processo de criação da personagem protagonizada por ela, observando como ela tratava sua criação com o respeito que texto e personagens exigiam. O mesmo respeito e devoção que dedica ao teatro durante seus cinquenta anos de carreira.

O segundo momento para mim especial foi dirigi-la em “Rasga Coração”, de Oduvaldo Vianna Filho, em 1984, quando, ao lado de Elvécio Guimarães, ela protagonizou uma inesquecível “Nena”, mãe de classe média brasileira e esposa de um revolucionário que era o equilíbrio dramático do espetáculo e, fora de cena, com sua vivência e sabedoria, era também o ponto de convergência de um elenco de 25 atores de todas as idades e tendências.

Paixão. Essa é Wilma Henriques, mais que atriz genial uma artista afinada com seu tempo, antenada nas questões políticas, defensora ardorosa e veemente do ofício da cena e dos artistas de todos os matizes, disposta a encarar o desafio de qualquer personagem pela qual se apaixone e a trabalhar sob a direção e estética de qualquer encenador, dos mais tradicionais aos mais vanguardistas.

Enfim, uma artista com cinquenta anos de paixão escancarada pelos poucos metros de tablado que aparentemente delimitam o espaço do ator, mas que são suficientes para qualquer voo em direção ao espanto, ao inusitado, ao improvável e ao sonho.

Vida longa, Wilma Henriques!

*Texto originalmente escrito e publicado em 2009, na Revista da Academia Mineira de Letras.

Fotos: Ricardo S.G./Divulgação; e Arquivo pessoal, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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