33 músicas irresistíveis com Ney Matogrosso, o camaleão da MPB

*por Raphael Vidigal

“Ó metamorfose divina
Que os meus sentidos todos une!
Seu hálito a música afina
Como sua voz faz o perfume!” Charles Baudelaire

Confrontado pelo crítico musical José Ramos Tinhorão, que disse que em determinada música ele “chorava que nem uma rameira”, Ney Matogrosso afirmou que, àquela altura da carreira, sentia-se à vontade para cantar o que bem entendesse, quando regravou “Fascinação”, que se tornou clássica na voz de Elis Regina. De fato, o camaleão da MPB trocou de cores inúmeras vezes, indo do peito nu e das pernas à mostra aos trajes mais elegantes. O figurino, essencial para as performances de Ney, é sempre um elemento a compor tão bem as intenções do espetáculo quanto o próprio repertório eleito pelo intérprete. Choro, valsa, rock, modinha, maxixe, foxtrote, tudo cabe no cantar único de Ney.

“Fascinação” (valsa, 1905) – Fermo Dante Marchetti e Maurice de Féraudy
Escrita em 1905 por Fermo Dante Marchetti e Maurice de Féraudy, a valsa francesa “Fascinação” rodou o mundo e se tornou uma das mais populares de todos os tempos. Em 1943, recebeu uma versão em português criada por Armando Louzada e gravada no mesmo ano por Carlos Galhardo em companhia de sua orquestra. O cantor ficaria conhecido como o “Rei da Valsa”. Três décadas depois, em 1976, Elis Regina a resgatou para o espetáculo “Falso Brilhante”, em uma interpretação arrebatadora. A música entrou para a trilha da novela “O Casarão” e recebeu as versões de Nana Caymmi e Ney Matogrosso.

“De Papo Pro Ar” (cateretê, 1931) – Joubert de Carvalho e Olegário Mariano
Com Olegário Mariano, Joubert de Carvalho fomentou uma das parcerias mais profícuas em termos de repertório e qualidade da história musical brasileira. Inicialmente, o casamento começou como aquele famoso caso em que apenas um dos parceiros sabe que está namorando. Joubert musicou dois poemas de Olegário, “Cai, cai balão” e “Tutu Marambá”, que os apreciou, e, a partir daí, nasceram várias canções. Uma que tem levada das mais gostosas é o cateretê “De Papo Pro Ar”, de 1931, e que exalta a mansidão e preguiça típicas de Macunaíma, vistas de perto em andanças dos dois comparsas. Lançada por Gastão Formenti, foi regravada por nomes célebres como Paulo Tapajós, Ney Matogrosso, Renato Teixeira, Sérgio Reis, Inezita Barroso e Maria Bethânia.

“Tic-Tac do Meu Coração” (marcha, 1935) – Alcir Pires Vermelho e Valfrido Silva
Natural de Muriaé, no interior de Minas Gerais, Alcir Pires Vermelho compôs, ao lado de Valfrido Silva, uma das marchas mais regravadas do cancioneiro nacional, sucesso instantâneo na voz de Carmen Miranda. “TIC-TAC do meu coração”, lançada em 1935, também traz a qualidade peculiar de misturar as características físicas do órgão a seus sentimentos mais abstratos, prova de que a sensação não se faz sem uma nem a outra. O exemplo fica mais claro logo nos versos iniciais da canção: “marca o compasso do meu coração/na alegria bate muito forte/na tristeza bate fraco porque sente dor”. Pianista, Alcir tem o mérito de verbalizar o som logo no título da canção, com uma esperta onomatopeia. A música foi regravada por Ney Matogrosso, Nara Leão e outros.

“Maria Boa” (samba, 1935) – Assis Valente
O primeiro sucesso de Assis Valente registrado por um grupo vocal foi o samba “Maria Boa”. Lançado pelo “Bando da Lua” no carnaval de 1935 ele acompanhou os foliões com a mesma alegria que o grupo iria acompanhar Carmen Miranda, musa inspiradora para quem Assis Valente dedicou vários de seus versos posteriores. A letra esbanja a sorte do autor de ter se encontrado com a Maria do título, que segundo ele, não ia “com a cara do homem quem tem a falinha macia”. Em 2001, Ney Matogrosso a regravou no álbum “Batuque”.

“Espinha de Bacalhau” (choro, 1936) – Severino Araújo
Nascido em Limoeiro, no interior de Pernambuco, Severino Araújo mudou-se para João Pessoa, na Paraíba, ainda na década de 30. Filho de um mestre de banda, ele logo adotou a clarineta como instrumento predileto. Em 1936, o futuro maestro da Orquestra Tabajara, que dirigiu por décadas, compôs o maior de todos os sucessos: “Espinha de Bacalhau”, um choro ligeiro como os melhores do gênero. Em 1981, a composição ganhou letra de Fausto Nilo e interpretação de Ney Matogrosso e Gal Costa. Também foi regravada por Dominguinhos e Altamiro Carrilho. Morando no Rio de Janeiro a partir dos anos 40, Severino comandou sua Orquestra em discos antológicos ao lado de Jamelão, em homenagem a Lupicínio Rodrigues. Outro admirador da obra de Severino é o irreverente músico Jards Macalé, que compôs “Choro de Archanjo”.

“Segredo” (samba-canção, 1947) – Marino Pinto e Herivelto Martins
É compreensível que em um ofício predominantemente sonoro como a música o autor da palavra não receba a mesma atenção, sobretudo, de seus intérpretes, mas também dos instrumentistas. É desse mal que sofreu Marino Pinto, carioca nascido no interior do estado, então capital federal, embora tenha acumulado inúmeros sucessos quase sempre sob a égide do anonimato, por ser ele jornalista e responsável pelas letras, sendo que nunca se atreveu a cantar ou tocar algum instrumento em público. A saída prematura de cena, com apenas 48 anos de idade, ainda na década de 1960, provavelmente contribuiu ainda mais para que sua identidade se apagasse aos poucos da memória dos mais aficionados por música. A força de sua obra reside em que as composições continuaram a ser gravadas, por nomes como Ney Matogrosso, João Gilberto, Luiz Melodia, Elza Soares, Maria Bethânia, Alaíde Costa e até Norma Bengell.

“Doce de Coco” (choro, 1951) – Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho
Para manter viva a memória da música de Jacob, o produtor e pesquisador musical Hermínio Bello de Carvalho decidiu colocar letra em choros emblemáticos do compositor, anos após o seu falecimento. Foi assim que, em 1980, nasceu a letra de “Doce de Coco”, lançada por Elizeth Cardoso, uma das cantoras mais próximas do mestre do bandolim, que dividiu disco, show e uma amizade com ele. Assim, o “Doce de Coco” do choro de Jacob é o nome carinhoso pelo qual o personagem da história chama sua amada. Nos versos líricos ele implora, pede, se humilha para que ela repense o amor dos dois. A música ganhou regravações de Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Dominguinhos.

“Amendoim Torradinho” (valsa, 1955) – Henrique Beltrão
Quando Carmen Miranda brincou com o duplo sentido na carnavalesca “Eu Dei”, de 1937, ela teve que se valer dos versos de Ary Barroso. O mesmo aconteceu com a cantora portuguesa Vera Lúcia, primeira intérprete da lânguida e sensual “Amendoim Torradinho”, obra de Henrique Beltrão lançada por ela em 1955, e que depois ganhou as vozes de Ney Matogrosso, Angela Maria, Alcione, Dóris Monteiro e Ivon Curi, entre outros. O fato ainda era comum no ano em que Maria Bethânia gravou, “O Meu Amor”, de Chico Buarque, em 1978, até que uma nova geração de compositoras decidisse abordar o sexo com as próprias palavras, como Angela Ro Ro, Rita Lee, Vanessa da Mata, MC Carol e Karol Conká.

“Negue” (samba-canção, 1960) – Adelino Moreira
O desgaste na relação entre Adelino e Nelson Gonçalves levou outro cantor a lançar um de seus maiores sucessos. Posteriormente gravada pelo próprio Nelson, a música apareceu pela primeira vez na voz do cantor cearense Carlos Augusto. Em 1978, Maria Bethânia seria a responsável por uma veemente e emblemática regravação. Até o grupo punk Camisa de Vênus chegou a gravar a música, assim como Cauby Peixoto e Ney Matogrosso. Seja como for, “Negue” sendo uma das canções mais emblemáticas do repertório de fossa da MPB.

“Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” (marcha-rancho, 1972) – Sérgio Sampaio
Com ritmo alegre e dolente a marcha-rancho “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, de 1972, carrega contrastes em todo andamento. Lançada pelo autor Sérgio Sampaio no VII Festival Internacional da Canção, e finalista do concurso, a música tornou-se emblemática não só pela letra ácida e contestadora, mas, talvez principalmente, em razão do desempenho de Sampaio no palco que, entre outras coisas, simulou um ato sexual com seu violão enquanto cantava: “Eu quero é botar meu bloco na rua/ Brincar, botar pra gemer…”. Autobiográfica, balizada em versos imprecisos e debochados, a canção anuncia pontos importantes da liberdade sexual que aquela geração almejava. Regravada muitas vezes depois, sempre por nomes ligados à rebeldia e irreverência, como Maria Alcina, a canção nunca perdeu o sentido ou saiu de moda. Prova que o bloco de Sérgio Sampaio ia muito além da luta contra qualquer ditadura, era, sobretudo, um brado de libertação. Ney Matogrosso a regravou no ano de 2019.

“O Vira” (MPB, 1973) – Luhli e João Ricardo
Antes mesmo de iniciar parceria de enorme sucesso com a cantora, compositora e instrumentista Lucina, a carioca Luhli conheceu duas figuras que mudariam sua trajetória artística: o português João Ricardo e o pantaneiro, como o próprio nome artístico dizia, Ney Matogrosso. Juntos eles foram parte de uma das bandas mais expressivas do Brasil, especialmente em tempos de ditadura militar, responsáveis por provocar e escandalizar o regime com vestes, maquiagens e movimentos corporais que lhes transformavam em figuras híbridas em cima do palco. Tais gestos, porém, não teriam o mesmo impacto se não estivessem acompanhados de frases tão ou mais emblemáticas. É o caso da música “O Vira”, que aludia a universo mágico e fantástico em 1973.

“Fala” (MPB, 1973) – Luhli e João Ricardo
“Sempre me guio pelo faro, não sou nada intelectual”, se autoanalisa Ney Matogrosso, em entrevista para Leda Nagle. Uma juventude transviada se banha no chafariz do Parque Lage em saudação a Ney, que canta “Fala”, de João Ricardo e Luhli, um dos maiores sucessos do Secos e Molhados, durante o encerramento da exposição Queermuseu, censurada em Porto Alegre, no ano de 2018, quando se matou Marielle, Lula foi preso e Jair Bolsonaro acabou eleito. “Entendo a narrativa desse filme como sendo cíclica e não cronológica. O filme começa com uma gravação de 2007 e imagens que poderiam ser hoje. E termina com uma música de 1973 e imagens que podem ser amanhã”, afirma Felipe Nepomuceno, diretor do documentário “À Flor da Pele”, sobre Ney Matogrosso.

“Vendedor de Bananas” (samba-rock, 1973) – Jorge Benjor
Jorge Benjor é um dos maiores inovadores da música brasileira. Tanto que até hoje rejeita o rótulo “samba-rock” para suas composições. É algo indefinível, sem preço, em que não é possível colocar nenhuma tarja definitiva e limitadora. “Vendedor de Bananas”, outra dessas inestimáveis peças, foi lançada em 1973 por seu autor. Nela um menino, humilde vendedor de bananas, exalta a riqueza e diversidade da fruta símbolo do Brasil, demonstrando orgulho e não mais vergonha desta que foi a expressão, para muitos e durante anos, da pobreza do país. A preço de banana pode ter outra conotação quando é dita, encenada e cantada por Jorge Ben. Foi regravada pelo grupo Os Incríveis e Ney Matogrosso.

“América do Sul” (salsa, 1975) – Paulo Machado
Aquele do Michael Jackson virando zumbi, do Freddie Mercury com roupas femininas ou, ainda, o do Raul Seixas cercado por relógios são exemplos de casos em que as músicas podem ser mais lembradas pelas imagens do que pelos sons. “Thriller”, “I Want to Break Free” e “Tente Outra Vez” continuam sendo belas canções, mas fica difícil avaliar se o impacto seria o mesmo se não fosse pelos videoclipes. Primeiro videoclipe da história, “Bohemian Rhapsody”, do Queen, é assim definido por ter sido lançado, em 1975, com o objetivo de divulgar um disco, “A Night of the Opera”, o quarto da banda britânica. No mesmo ano foi ao ar, pelo programa “Fantástico”, o primeiro videoclipe brasileiro, com “América do Sul”, música de Paulo Machado cantada por Ney Matogrosso.

“Pai e Mãe” (MPB, 1975) – Gilberto Gil
Em 1975, no célebre disco “Refazenda”, Gilberto Gil aludiu a uma prática comum do seu período de infância para combater um preconceito latente na sociedade. “Pai e Mãe” retrata a diferença de relações dos filhos com o pai e com a mãe, tendo esta o privilégio e a licença do carinho e do afeto, enquanto ao outro, representante da virilidade, restava o medo travestido de “respeito”. Ao declarar a própria aproximação afetuosa com o pai, Gil também dá um largo passo a favor do amor livre, sem discriminação de gênero. Por essa conotação homossexual, a música recebeu uma interpretação ainda mais expressiva na voz do libertário e provocador Ney Matogrosso, no ano de 2006. “Eu passei muito tempo/Aprendendo a beijar outros homens/Como beijo o meu pai…”.

“Até o Fim” (MPB, 1978) – Chico Buarque
Chico Buarque se inspirou no famoso poema de Carlos Drummond de Andrade para compor a letra de “Até o Fim”, música lançada por ele em 1978. “Quando nasci veio um anjo safado/ O chato dumb querubim/ E decretou que eu tava predestinado/ A ser errado assim/ Já de saída a minha estrada entortou/ Mas vou até o fim”, dizem os primeiros versos da canção. A música ganhou um animado videoclipe protagonizado por Chico e Ney Matogrosso, que, em 1996, dedicou o álbum “Um Brasileiro” à obra do compositor de “Construção”, “Cala a Boca, Bárbara”, “Soneto”, “Roda-Viva”, “Partido-Alto”, “A Banda” e outros clássicos da canção popular brasileira. Ney há havia gravado a música em 1983.

“São Francisco” (infantil, 1980) – Vinicius de Moraes e Paulo Soledade
Em 1970, Vinicius de Moraes lançou um livro infantil baseado na trajetória bíblica da Arca de Noé. O livro conta a história dos animais que embarcaram na viagem chuvosa de 40 dias e 40 noites através de poemas bem humorados e singelos. Com o talento para manusear as palavras que ele tinha, a obra se transformou em especial da Rede Globo, exibido no dia das crianças do ano de 1980. As poesias foram musicadas por Toquinho, Tom Jobim, Paulo Soledade e outros amigos de Vinicius. E cantadas por Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, Alceu Valença, Ney Matogrosso e outros talentos da arte do canto. Devido ao sucesso do espetáculo, apresentado no ano da morte de Vinicius, um ano depois surgiu a continuação: Arca de Noé 2, com poemas tão encantadores quanto os primeiros.

“Folia no Matagal” (MPB, 1981) – Eduardo Dussek e Luiz Carlos Góes
A dupla de compositores Eduardo Dussek e Luiz Carlos Góes transfere as relações amorosas para a natureza nesta marchinha que traz no deboche e na metáfora os seus grandes trunfos a fim de vencer os moralismos e as repressões da época. “O mar passa saborosamente/a língua na areia/ (…) e lá em cima a lua, já virada em mel/olha a natureza se amando ao léu/e louca de desejo fulgura num lampejo/e rubra se entrega ao céu”. Lançada por Dussek, ganhou regravações de Maria Alcina e Ney Matogrosso, que no Festival de Montreux de 1983, a interpretou na companhia de Caetano Veloso e João Bosco.

“Homem com H” (xote, 1981) – Antônio Barros
A abordagem da homossexualidade na música brasileira data, pelo menos, da década de 1930, quando Noel Rosa compôs uma ode a Madame Satã com “Mulato Bamba”, samba lançado por Mário Reis e, depois, regravado com habilidade através do cantar langoroso de Marcos Sacramento. Na mesma década, Assis Valente compôs “Camisa Listrada”, sobre um homem que aproveita o Carnaval para liberar as fantasias e, para tal, se vale das vestimentas da mulher. Uma das canções mais emblemáticas no sentido da homossexualidade na MPB aconteceu com “Homem com H”, que só adquiriu tal status por ter sido gravada por Ney Matogrosso de forma leve e bem humorada. A sugestão para Ney cantar o xote de Antônio Barros foi dada por Gonzaguinha.

“Promessas Demais” (MPB, 1982) – Paulo Leminski, Moraes Moreira e Zeca Barreto
Em 1982, uma composição de Leminski em parceria com Zeca Barreto e Moraes Moreira chamou a atenção de ninguém menos que Ney Matogrosso, que decidiu gravá-la no disco “Mato Grosso”, do mesmo ano. Apresentada em show no Coliseu de Lisboa, em Portugal, com amplo sucesso, revelava ao mundo o Leminski compositor popular antes mesmo do poeta, já que “caprichos & relaxos”, livro de maior destaque, sairia apenas um ano depois, em 1983. Na interpretação de Ney Matogrosso ressaltam-se o delicado jogo dos combinados haicais de Leminski que compõe a música, em que o sentido de cada frase nunca está limitado a uma única leitura. É um mar de possibilidades, entre Brasil e Portugal nasce um poeta novo.

“Calúnias” [Telma, Eu Não Sou Gay] (rock, 1983) – versão de Leo Jaime
Foi gravada pela banda João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, com participação especial de Ney Matogrosso. Era uma versão de Leo Jaime para a americana “Tell Me Once Again”, foneticamente muito próxima do título em português. Só que o namorado que se assume gay para a namorada não tem nada a ver com a letra original. A versão de Ney fez tanto sucesso que a gravadora exigiu que ele a incluísse em seu disco, mesmo a contragosto do intérprete. Anos depois, quando foi lançado um box com vários álbuns de Ney, ele vetou que a faixa continuasse presente no disco “Pois É”, dizendo que ela não tinha nada a ver com a concepção do álbum.

“Pro Dia Nascer Feliz” (rock, 1983) – Cazuza e Frejat
Depois da música “Pro Dia Nascer Feliz” ser lançada por Ney Matogrosso, o Barão Vermelho experimenta, pela primeira vez, o sucesso. Mas começa a se acostumar com ele a partir de “Beth Balanço”, música criada para filme dirigido por Lael Rodrigues e protagonizado por Débora Bloch, em que os integrantes da banda fazem uma participação. No lado B do compacto estava, escondida, “Amor, Amor”, balada de Cazuza, Frejat e George Israel também interpretada no longa-metragem. O discreto acolhimento deve-se, certamente, ao estouro da canção-título. Apesar de Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, preferir “Amor, Amor”. Seja como for, “Pro Dia Nascer Feliz” segue como um sucesso atemporal.

“Êta Nóis” (toada, 1984) – Luhli e Lucina
No início da década de 1970, a carioca Heloísa Borges e a matogrossense Lúcia Helena formaram a dupla Luhli e Lucina. A partir de ritmos fortemente baseados nos tambores fabricados por elas mesmas, assimilaram influências da música caipira a sons de raiz africana, da música popular brasileira e do pop internacional. Entre os maiores sucessos da dupla, desfeita em 1996, estão “Êta Nóis”, “Bugre”, “Me Rói” e “Primeira Estrela”, regravadas por Ney Matogrosso e Rolando Boldrin. Ney, aliás, foi apresentado ao Secos & Molhados pela amiga Luhli, que o conhecia como um habilidoso artesão de peças hippies e intérprete.

“Bugre” (rock, 1986) – Luhli e Lucina
Ney Matogrosso entrou para o Secos e Molhados por indicação de sua amiga Luhli, que ele conhecia da época em que se virava como hippie com os seus artesanatos. Ela formaria uma dupla de sucesso com Lucina. Em 1986, elas deram de presente para Ney a música “Bugre”, que deu nome a seu LP daquele ano. A gravação do rock ainda contou com a participação de Arrigo Barnabé. Campeão brasileiro em 1978, o Guarani de Campinas, pela origem indígena do nome, adotou o bugre como mascote para jogar no Brinco de Ouro da Princesa.

“Na Chapada” (MPB, 1986) – Tetê Espíndola e Carlos Rennó
A voz, aliás, de um agudo característico, sempre foi um dos trunfos que permitiu a Tetê Espíndola demarcar lugar de destaque na música brasileira. É difícil pensar em algo que se aproxime, e hoje, com a maturidade, ela acresceu a eles diferentes sonoridades, indo até o grave mais firme. Não por acaso apresentou-se em dueto com o conterrâneo de estado Ney Matogrosso, quando gravou, em 1986, a música “Na Chapada”, parceria com Carlos Rennó que sucedeu ao estrondoso sucesso de “Escrito nas Estrelas”, que venceu, em 1985, o Festival dos Festivais exibido pela Rede Globo. Ney e Tetê são duas vozes peculiares.

“Mente, Mente” (pop, 1986) – Robinson Borba
Arrigo Barnabé nasceu em Londrina, no interior do Paraná. Compositor com formação erudita, ele teve fundamental contribuição para a chamada “Vanguarda Paulista”, movimento que inovou a música brasileira, a partir de sua iniciativa teatral, inspirada em histórias em quadrinhos e no dodecafonismo, para remodelar o tom da tradicional canção. Em 1986, Arrigo foi convidado para compor a trilha sonora do filme “Cidade Oculta”, de Chico Botelho, e incluiu “Mente, Mente”, de Robinson Borba, com a qual fez dueto com Ney Matogrosso. A música também consta no LP “Bugre”, gravada por Ney naquele mesmo ano.

“Dia dos Namorados” (balada, 1987) – Cazuza e Perinho Albuquerque
Composta em 1986 a música “Dia dos Namorados” ficou fora de “Só Se For a Dois”, disco lançado por Cazuza um ano mais tarde. Parceria do “poeta exagerado” com Perinho Albuquerque, a música foi então oferecida para Zezé Motta, que a cantou em shows, mas não chegou a registrá-la por falta de gravadora na época. Trinta anos depois, com o intermédio do produtor e baixista Nilo Romero a gravação feita com a voz de Cazuza foi recuperada e mais: passou a contar com a adesão de Ney Matogrosso. Não por acaso, o dueto bisa relação protagonizada pelos dois, que foram namorados. É, no entanto, o único registro musical com a voz dos dois juntos.

“Vida Louca Vida” (rock, 1987) – Bernardo Vilhena e Lobão
“Vida Louca Vida” é uma música de Lobão e Bernardo Vilhena. O primeiro é responsável pela melodia, o segundo, pela letra. Lançada por Lobão em 1987 no álbum “Vida Bandida”, estouro de vendas e prestígio que continha, entre outros, clássicos do calibre de “Rádio Blá” e a canção título, a música em questão logo se destacou pelos frementes versos e os acordes e notas que a acompanhavam e lhe davam peso. Não por acaso chamou, e muito, a atenção de Cazuza, que, ao se identificar com a letra transmitiu esse sentimento a milhares de brasileiros quando a regravou um ano depois, em 1988, no emblemático disco ao vivo “O Tempo Não Para”, oriundo do show dirigido por Ney Matogrosso, que também gravaria a música anos depois, em 2013, no álbum “Atento aos Sinais”. Tudo isso apenas prova o poder de permanência da canção por sua qualidade, e mais ainda, a admiração recíproca de Lobão e Cazuza, pois um solicitou a sua regravação e o outro consentiu ao amigo.

“O Tempo Não Para” (rock, 1988) – Cazuza e Arnaldo Brandão
Todas as músicas do espetáculo de lançamento do álbum “Ideologia” já estavam definidas quando Cazuza apresentou a Ney Matogrosso uma novidade. O antigo vocalista do grupo Secos e Molhados era o responsável pela direção, iluminação e cenografia do show. Amigos de longa data, Cazuza e Ney haviam sido namorados em meados da década de 1970. Ao se deparar com a letra arrebatadora de “O Tempo Não Para”, Ney não teve dúvidas de que a música daria nome à turnê. Parceria com Arnaldo Brandão, “O Tempo Não Para” mescla a batalha pela vida de Cazuza com as agonias de um país em constante crise. “A música é sobre essa velharia que está aí e vai passar. Vão ficar as ideias de uma nova geração”, afirmou Cazuza. Ney, Simone e Elza Soares a regravaram.

“Inclassificáveis” (rock, 1996) – Arnaldo Antunes
Arnaldo Antunes encerra a discussão teórica sobre a denominação racial do povo brasileiro com sua poesia concreta. No ano de 1996, em rock que por si só explica a conversa. “Inclassificáveis” é o nome da canção lançada no álbum “O Silêncio”, e regravada por Ney Matogrosso em 2008, quando usou a música para intitular seu disco. Arnaldo parte das três raças que inicialmente mestiçaram e mistificaram o Brasil, “preto, branco e índio”, para alcançar a gama de culturas e cores que resultou desse congraçamento, “mulatos, mestiços, cafuzos, pardos, mamelucos” até os inventados pelo próprio autor “crilouros, guaranisseis, judárabes, orientupis”, e expressões populares cunhadas pelo povo, “sararás e caboclos”, dentre muitos outros. O arremate de Antunes é certeiro e não deixa dúvidas, ou melhor, abre espaço para perguntas, questionamentos, respostas, culturas… “Somos o que somos, somos o que somos, inclassificáveis, inclassificáveis…”.

“Poema” (balada, 1998) – Cazuza e Frejat
Escritos por Cazuza aos 17 anos para sua avó paterna, os versos de “Poema” só ganharam a melodia de Frejat em 1998. No ano seguinte, Ney Matogrosso a lançaria em “Olhos de Farol”. Foi essa a primeira canção que o potiguar Zé Maria mostrou para seu futuro padrinho musical. Só em seguida, Ney conheceu as canções feitas pelo pescador. Batizado Matogrosso, o selo coloca na praça o álbum “Pescador”, que começou a nascer em Baía Formosa, litoral do Rio Grande do Norte. “Quando ouvi ‘Poema’ pela primeira vez, chorei de emoção, por isso foi a música que quis mostrar para o Ney, tinha várias outras em mente”, conta Zé Maria, que lançou o seu primeiro disco em 2017, pelo selo Matogrosso.

“Olhos de Farol” (MPB, 1999) – Flávio Henrique e Ronaldo Bastos
Nascido em Belo Horizonte no dia 20 de julho de 1968, o cantor, compositor, instrumentista, arranjador e produtor cultural Flávio Henrique, teve suas músicas gravadas por grandes nomes do cenário nacional. Em 1999, Ney Matogrosso escolheu “Olhos de Farol”, parceria do mineiro com Ronaldo Bastos, para dar título ao disco que continha músicas de Cazuza, Rita Lee, Lenine e Itamar Assumpção. Flávio Henrique compôs com Paulo César Pinheiro e Luiz Tatit e viu suas canções ecoarem por meio das vozes de Milton Nascimento, Ed Motta, Fernanda Takai e Zeca Baleiro. Ele também foi presidente da Empresa Mineira de Comunicação (EMC), à qual pertencem a Rede Minas e a rádio Inconfidência.

“Rumos e Rumores” (rap, 2019) – Vitor Pirralho
Exaltada no samba-enredo da Mangueira que valeu o título à escola de samba, a vereadora Marielle Franco voltou a ser lembrada nas imagens de “Rumos e Rumores”. Lançada pelo rapper Vitor Pirralho com participação de Ney Matogrosso, a música apela contra a destruição dos povos indígenas. Por sinal, Ney esteve no centro de uma polêmica em 2017, ao ser criticado pelo cantor Johnny Hooker, que acusava o veterano de “desdenhar da causa gay” após uma entrevista em que o antigo vocalista do Secos & Molhados rejeitava ter se tornado um representante das minorias e se definia como “um ser humano”.

Foto: Site oficial/Divulgação.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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