Mito do Grilo & da Onça

“Mas, testemunha de seu solo
E testemunha de seu mar,
O grilo é a maior elegia
Que a Natureza me faz.” Emily Dickinson

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Acode a savana. Nas costas o grilo pula. Sorri o tempo todo. Aprecia novela e romances. Não entendeste o insulto, sigamos. O grilo não é nenhum bicho que avoa, de hábeis pernas em verdes arbustos, com o olhar guloso para algumas plantas, vítima da maldade alheia – no caso: aranhas. Grilo é um moço feio: esbanja vitalidade. A peleja dos anos na roça dá-lhe a experiência que pelo tempo de vida falta. Tem a verdade inteira na boca: desce como uma bolacha pelo estômago de Grilo os quitutes à disposição. Aqui a cidadezinha, a pobre cidadezinha, parece relegada à orfandade, destas que não se nota, pois há sempre um grilo para lhe jogar por cima um pano: verde, amarelo, áspero.

No pano os furos: na perna o frio a castigar mendigos: barbados, astutos, cobertos por pastas que se apegaram à pele como filho de gente, filho de onça recém-desmamado que insiste em se agarrar à mama. O mendigo acende o cachimbo para suportar: por conta de veias sujas não nota o tremor que exala: além do cheiro: aquele ser: (ainda é um ser, poucos concordam): morre. Caduco, cansado, auxilia-se com uma bengala da época do cinema mudo. E sem ouvir aos outros, sem atender ao grito vindo dos pelourinhos, tropeçando, pois já não enxerga os passos, pois já não enxerga os pés descalços, nem os sapatos esquecidos numa noite de Natal (fria, distante, quando existíamos crianças e as nossas crenças eram perenes e bobas).

Embarcamos em trens de ferro para a capital e lhe abandonamos. Ninguém sabe do grilo se o conselho é ordem ou consentimento, alienação ou tem conhecimento de causa e conseqüências. A Primeira Guerra foi uma revolução, mas quantas mortes… Uma onça arrastou durante a noite o homem ou cabrito. A carne vermelha transbordou sangue e mesclou-se ao rio. Não há rio vermelho em Santa Maria. O urucum é a vida: a onça despreza, empurra para a barriga, descansa na sombra. E é escuro o medo, mas vamos ao encontro. Há um rugido de onça. Gralho ao rugido da onça. Cada vez mais perto. Minuto a minuto o grito se aproxima. Como um bafo quente na nuca, a fervura na panela úmida. As marcas de pegadas no esplendor do dia estão mais visíveis. O peso dos passos, das garras, dos rastros: vestígios.

312.2004

Raphael Vidigal

Imagens: Esculturas “Bichos”, de Lygia Clark.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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