Milton Nascimento: “Nunca precisamos tanto de música, amor e educação”

“Não é possível adiar a vida.” Caio Fernando Abreu

Milton Nascimento começou a correr o país com a turnê “Clube da Esquina” em março, partindo de Juiz de Fora, onde ele vive atualmente. Além de capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Brasília e outras cidades mineiras, caso de Tiradentes, o esperado sucesso da empreitada o levou a extrapolar fronteiras, subindo em palcos de Paris, Berlim, Madri, Amsterdã, Lisboa, Porto, Londres, Zurique e Tel Aviv. “O carinho das pessoas nesses nove países diferentes mexeu muito comigo, a emoção é a mesma em todos os lugares. Eu nunca curti tanto uma temporada”, confessa o cantor. A ideia de revisitar o repertório dos dois álbuns duplos que formataram a identidade do movimento, que unia influências da música barroca mineira ao insurgente fenômeno dos Beatles, veio com as efemérides: os 45 anos do primeiro disco e os 40 do segundo.

1 – O que significa para você encerrar essa turnê em Belo Horizonte?
Muita gente sabe da minha relação com Belo Horizonte, afinal de contas foi o ponto de partida da minha carreira profissional, desde que cheguei na cidade, para morar no Edifício Levy, em 1962. Esse sentimento nunca saiu de mim. Mas sabe que, além de encerrar em BH, uma coisa que tem sido bastante especial para a gente é o fato de que vamos fazer esse show em pleno Mineirão. É um sonho poder viver isso num lugar tão histórico para os mineiros. E eu só tenho que agradecer a todos eles, me contaram agora que já vendemos mais de dez mil ingressos para esse show. Estou sem palavras, a emoção será muito grande.

2 – A atual turnê também tem uma característica de celebrar não só a obra do Clube das Esquinas, mas as suas grandes parcerias com nomes de peso da nossa cultura. Sobre este viés da sua trajetória, quem seriam os nomes com quem gostaria de formar novas parcerias?
Na minha vida eu nunca planejei nada específico, tudo que a gente queria era fazer música, e as coisas foram acontecendo. Com as parcerias foi a mesma coisa, um processo natural de encontros, de amizade, de vivência. A amizade sempre veio em primeiro lugar, sempre. Acho que a primeira coisa é ter vontade, alegria, desejo de fazer as coisas, enfim, tudo que vier com sentimento a gente abraça.

3 – Gostaria que você falasse da sua relação com cada um dos convidados e o que mais te encanta em cada um deles, Criolo, Flávio Venturini, Lô Borges, Maria Gadú, Maria Rita, Samuel Rosa, e Wagner Tiso?
Olha, se eu enumerar cada um deles acho que não vai ter espaço (risos). Mas posso dizer uma coisa, eu tenho muito em comum com todos, a amizade, o carinho, o respeito e, principalmente, a admiração por eles, não apenas como artistas, mas como pessoas de um coração imenso. Pode ter certeza de que todos esses amigos que estarão comigo no palco do Mineirão têm relação direta com a minha história. E sou muito feliz de tê-los ao meu lado.

4 – O Clube da Esquina, como movimento, e os dois álbuns que levam esse nome, são reconhecidos no mundo inteiro. Na sua opinião, qual a principal marca do Clube?
Sem dúvida nenhuma é a amizade. E isso é uma coisa que a gente cultiva desde o primeiro encontro. Os discos do Clube jamais existiriam se, antes de tudo, nós não tivéssemos construído um laço de amizade entre a gente. Isso dura até hoje.

5 – O que significa para você rever essas canções que foram compostas há 40 anos?
As mudanças são inevitáveis, né? Ainda mais com a passagem do tempo. Mas as músicas estão, e estarão, sempre aí. Essa essência nunca vai mudar. Eu nunca tive tanto prazer em cantar essas músicas como tenho tido agora. Tem sido um sonho maravilhoso.

6 – Em outubro você recebeu mais uma homenagem, desta vez com o Prêmio do Compositor Brasileiro, um reconhecimento da União Brasileira de Compositores (UBC) pelo conjunto de sua obra, um prêmio já atribuída a Gilberto Gil e Erasmo Carlos. A Maria Rita confessou que na homenagem a você pela UBC ficou tão emocionada que chorou. Como foi ser laureado nesse contexto?
Olha, nem sei o que dizer. Mas é uma coisa e tanto, né? Afinal, não é qualquer entidade que conseguiu reunir Dorival Caymmi, Gonzagão, Mario Lago, o maestro Radámes Gnatalli e Ary Barroso em torno do mesmo pensamento. É um sentimento ainda maior de gratidão. Além de vários grandes amigos da minha vida, como Fernando Brant e Ronaldo Bastos, que lutaram muito pelos compositores de todo o país. Fernando Brant foi um dos grandes responsáveis pelo crescimento da UBC. Sem ele, jamais teríamos avançado tanto nesse assunto. Com certeza essa é uma das maiores homenagens da minha carreira, e eu só tenho que agradecer diante de tanto carinho vindo da UBC. Foi uma noite emocionante. A UBC é uma das entidades mais importantes da cultura brasileira. E tem uma atuação gigantesca em defesa dos direitos do compositor que ajudou, e ainda ajuda, muita gente.

7 – Há pouco tempo você se emocionou assistindo a um vídeo em que cantava com Elis Regina a música “Caxangá”. Essa é uma canção cuja letra havia sido censurada e, anos depois, foi resgatada pela Elis. Anteriormente, havia sido registrada num dueto feito por você e Clementina de Jesus, com outro título. Quais lembranças você tem desse registro de “Caxangá” feito com Elis e o que acha que essa canção que afirma “Luto para viver/ Vivo para morrer/ Enquanto minha morte não vem/ Eu vivo de brigar contra o rei”, tem a dizer de mais forte sobre os dias atuais?
Elis Regina foi o grande amor da minha vida. E tudo que eu fiz e, principalmente, tudo que eu continuo fazendo até hoje é nela que eu penso. Sobre “Caxangá”, a letra é do Fernando Brant, e eu acho que cada pessoa tem seu próprio sentimento musical. E prefiro que as pessoas me digam, eu não sou muito de pensar nesse lance de significado e tal. Cada música consegue marcar as pessoas de um jeito próprio. E eu acho que “Caxangá”, na voz da Elis, tem esse poder. Por isso continua emocionando até hoje, ainda mais com essa letra do Fernando (Brant).

8 – Como nasceu a canção “Cravo e Canela”? Que memórias você tem da criação dessa composição emblemática em parceria com o Ronaldo Bastos?
Essa música foi inspirada na Dina Sfat, e foi uma época que a gente era muito ligado nela. E, assim como eu, o Ronaldo Bastos também tinha esse mesmo sentimento de amor pela Dina. Então decidimos que essa música seria pra ela.

9 – Atualmente, o Brasil vive momentos de incertezas culturais, no que se refere a disseminação de projetos, atos de censura, políticas de fomento cultural. Como percebe este momento para os artistas e também para os consumidores de cultura?
Nunca precisamos tanto de música, amor, educação e das artes em geral.

Raphael Vidigal

Fotos: João Couto/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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