Humor: Avenida Brasil

“Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.” Augusto dos Anjos

Nina e Carminha

Viajei para o interior de Minas Gerais e constatei que Débora Falabella mantém o mesmo sotaque dos tempos em que ainda morava em Belo Horizonte. Esta mania de comer as letras finais e primeiras, deixando só o sumo do interesse entre dentes é patrimônio histórico desta terra.

Na pele da malvada / boazinha Nina, a menina de boneca de pano numa das mãos e faca afiada na outra protagonizou ao lado de Adriana Esteves uma das cenas mais comentadas nos últimos dias. Digo isto pois peguei um ônibus da capital para a cidadezinha interiorana e afirmo: tudo que supera as grades e porteiras da periferia homérica é digno de nota.

Apesar do bafafá que se fez em torno do embate persuasivo entre as duas personagens, Carminha prostrando-se de empregada, e Rita embalada por uma canção de Chico Buarque de tão harmônica parecia honrar a condição humana de raiva e loucura, não foi o drama mas sim o cômico do inusitado que me impressionou.

Adriana Esteves sempre foi atriz de comédia, e talvez por isso sua vilã soe tão histérica e acima do razoável. Débora Falabella encarou a irregularidade da rotina de bandidos e bajulados, mocinhas e ignorados, como nos filmes “Dois Perdidos Numa Noite Suja” e o sucesso de renda “Lisbela e o Prisioneiro.” Advirto, é justamente a fantasia das interpretações que me concerne medo e aplausos. Já refutei a rebeldia realista desde quando percebi que esta inexistia num mundo fadado ao fantástico espetáculo do fracasso.

Tão óbvio quanto a lógica um coelho surpreende da cartola o mágico treinado, assim a comédia e o humor das cenas apalpa as gorduras e lambe os beiços do nostálgico ao sugerir tragédia humana, humilhação, risos amarelos e  forçados e vingança suja. Como de maneira contrastante vejo de pés atados José de Abreu em respeito à sonora predileção pelo inevitável rude e grunhir de cão sarnento. Extravagantemente belo.

O filho do velho, Marcello Novaes, não convence este pobre e tenebroso autor. Mas também quem há de querer convencer o que mal se sustenta em mãos amarradas para trás com a caneta na orelha? Creio repercutir o ledo engano do personagem pasmo, mas sua cara devia ser de marasmo e não deserto. Assim pretensiosamente ponho fim às linhas sobre novela que me traduz solene intenção trapaceira.

Nilo novela

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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