Entrevista: O caminho do rap de Marcelo D2 a Hungria Hip Hop

“É preciso mais uma vez uma nova geração que saiba escutar o palrar os signos.” Ana Cristina Cesar

Encontros de astros do rap com artistas de outros segmentos ficaram comuns. Criolo gravou com Ivete Sangalo. Marcelo D2 se dedicou a cantar o samba de Bezerra da Silva. Renegado está em turnê com a Orquestra Ouro Preto. Enquanto isso, Emicida, Hungria Hip Hop e Karol Conka dividem a trilha sonora da atual temporada de “Malhação” com uma nova safra de funqueiros. “Ter uma música em novela da Globo é uma quebra de barreiras. O rap está alcançado lugares que nunca imaginamos”, afirma Hungria. Para completar, o rapper canadense Drake fez história ao se tornar o primeiro artista a bater os 50 bilhões de reproduções em streaming.

Marcelo D2

1 – Qual a importância para você de participar de um festival como o Saravá, que já traz no próprio nome uma ode às raízes negras e reúne um time de artistas como DJ Negralha, DJ Xeréu, Parceria Fina e outros, cuja trajetória esteve sempre voltada para o hip hop, reggae, rap e soul?
Esse lance de raiz é uma parada muito presente pra mim. Meu próximo trabalho, o “Amar é para os Fortes”, por exemplo, é todo produzido por um coletivo que chamamos de “mulato”. E, longe do significado pejorativo que muita gente associa ao termo, mulato é essa mistura que é indissociável ao brasileiro, é essa miscigenação de raízes que define a nossa identidade. Então, pra mim é uma honra participar da primeira edição de um festival como o Saravá. E dividir o palco com essa rapaziada é uma responsabilidade grande.

2 – Que lugar essas expressões artísticas como hip hop, reggae, rap, soul, e etc., ocupam hoje na música brasileira? Mudou muito de quando você começou sua carreira artística?
Eu tenho 25 anos de carreira, né? Então, é impossível dizer que o cenário de hoje é igual do que quando eu comecei. Até porque música é comportamento, é reflexo. Eu acredito que, como o punk, o hardcore e o rock, por exemplo, foram manifestações muito presentes nos anos 80, o hip hop e o rap são a voz da molecada hoje em dia.

3 – Como surgiu a ideia de lançar um álbum que fosse, ao mesmo tempo, um filme, e em que pé anda a produção de “Amar é Para os Fortes”?
Eu vivo, respiro, como, durmo arte. “O Amar é para os Fortes” vai ser o 10º disco da minha carreira. Eu estava cansado de fazer a mesma coisa, eu queria algo diferente. E vai ser isso, um disco para ver. A previsão de lançamento é para agora em agosto.

4 – Qual a sua relação com o cinema e o que achou da cinebiografia “Legalize Já”?
O cinema foi uma grande escola para mim. O Skunk tinha uma coleção de VHS que a gente assistia umas 18 vezes filmes como “Faster, Pussycat! Kill! Kill!”, por exemplo. “Legalize Já” é um filme de amor, é a minha história de amizade com o Skunk. Eu participei de todo o processo junto com o Johnny e o Gu Bonafé, foram 8 anos pro filme sair das nossas cabeças, do papel e ganhar vida nas telas, então eu só me emocionei em ver aquela história sendo contada de forma tão fiel e bonita.

5 – Como andam seus planos com o Planet Hemp? Projeto de inéditas?
Eu queria poder falar mais, mas eu posso adiantar que tem pedrada vindo por aí…

6 – Aos 50 anos, o que o tempo te trouxe de mais positivo?
Cara, eu já gravei 9 discos em estúdio, tô pronto pra lançar o 10º, tenho 4 filhos, já gravei com gente foda pra caralho, já rodei mais de 28 países com a minha música, tenho amigos nos 4 cantos do mundo, aos 50 to estreando como diretor e roteirista de cinema, enfim, vivi pra cacete e sigo aprendendo a respeitar as 3 regras básicas do rolé: “Não se apaixone; não seja preso; não morra”.

Hungria Hip Hop

1 – O que te inspira a compor e como é o seu processo de composição?
Fico prestando atenção em tudo o que vejo, nas pessoas que me rodeiam, pessoas novas que eu conheço, novas histórias, tudo me inspira. Eu tenho um cantinho onde vem a inspiração e de lá conto histórias minhas e do que vejo por aí.

2 – Para você, o que significa estar na trilha sonora da novela Malhação e o que isso diz sobre o momento atual do rap e do hip hop no país?
Ter uma música em novela da Globo para mim foi uma quebra de barreiras. O rap está alcançando lugares onde nunca imaginamos chegar. Estamos conseguindo cada vez mais fazer parte da vida das pessoas, sem falar de coisas ruins, levando esperança e amor para quem ouve nossas músicas.

3 – De que maneira as conexões que o rap e o hip hop têm feito com outros ritmos e segmentos como pop, samba e MPB contribuem para o movimento?
Contribui muito, é sinal de que mais pessoas estão consumindo nossa música e um público de outros segmentos está parando para nos ouvir, é gratificante. Que venham mais parcerias para somar.

4 – O hip hop nacional tinha por hábito tratar de temas sociais, e têm se dedicado cada vez mais a músicas sobre relacionamentos afetivos. Como vê essa mudança?
O rap, na verdade, ainda continua falando de temas sociais, mas agora com mais incentivos, esperança. Rap também é amor, é união, prosperidade, e, claro, denúncia, grito social, luta por sua quebrada.

5 – Quem são os seus grandes ídolos musicais e o que pensa sobre o rapper canadense Drake, que quebrou recordes dos Beatles e Michael Jackson nas plataformas digitais?
Tenho muitos ídolos, entre eles o Racionais, claro. Eu sempre escutava as músicas e hoje o Mano Brown é meu amigo, frequenta minha casa, me dá dicas, me ensina. Sobre o Drake, é muito bom ter um representante do movimento com essa força. Tem que respeitar a família do rap.

Alessandro Buzo, autor do livro “Hip-hop: Dentro do Movimento”

1 – Como vê o momento atual do rap e do hip hop e as conexões que ele têm feito com ritmos como samba, MPB, pop, axé, funk e até música orquestral?
As conexões são sempre bacanas, porque permitem à música atravessar fronteiras e ser ouvida por outros públicos. Rappin’ Hood em “Sujeito Homem 2” fez muito bem essa mistura com outros ritmos, Emicida também faz e por aí vai, acho que é bom para os dois lados.

2 – O hip hop nacional tinha por hábito tratar de temas sociais, e têm se dedicado cada vez mais a músicas sobre relacionamentos afetivos. Como enxerga essa mudança e a que atribui ela?
Eu atribuo ao fato de alguns artistas, como o Projota, Rael e outros, terem focado em serem mais pop e assim abrir o mercado, tocar nas rádios. Mas o rap nasceu do protesto e não pode abandonar isso nunca, porque o hip-hop é justamente a música que abre a cabeça do jovem periférico para além do que toca na rádio, que muitas vezes só leva a alienação, como o sertanejo atual, não tenho nada contra quem curte, mas que aliena, isso é inegável.

3 – O que pensa sobre essa discussão que invadiu a internet sobre rap raiz e rap Nutella?
Acho isso uma perda de tempo, rap é rap, seja gospel, de protesto, de amor. Só vai encontrar públicos diferentes. Taxar de Nutella é diminuir o rap e isso quem ama o movimento não deveria fazer, tem público para todo mundo, enquanto nos perdemos nessas discussões, a sofrência toma conta.

4 – Qual a importância e que papel o hip hop e o rap ocupam no cenário atual da música brasileira e quem são os grandes representantes dessa cena?
O hip-hop está com pouco espaço na mídia, como TV, por exemplo, e perdeu espaço para o funk nas periferias, até por isso alguns artistas fazem um rap mais pop. Para o rap sempre foi mais difícil por conta do preconceito, no passado era taxado de música de bandido, hoje tem o rap pop que até toca nas rádios, na TV e o de protesto que não acha mais espaço para alcançar o grande público. Hoje ainda temos os Racionais Mcs como grande nome mas, da velha guarda, quem ainda se destaca são GOG, Rappin’ Hood e outros, já os destaques mais da nova geração, não tão nova assim, são Criolo, Emicida, Rashid, Ricon Sapiência, entre outros.

5 – Qual a mudança mais significativa do surgimento do rap e do hip-hop no país para o momento atual e quem são seus grandes ídolos no rap nacional?
A pior coisa para o rap e o hip-hop foi ter perdido espaço na sua base, na periferia, na favela. O funk hoje é a música do gueto, com tudo de ruim que traz, letras péssimas e pancadões. O rap era o som da favela e hoje não é mais, essa é a pior parte, a melhor é que temos alguns artistas que souberam trabalhar as redes sociais, a internet e cresceram, tocando com frequência em outros centros e até em outros países, como o Emicida, por exemplo, que, além de romper essa barreira, é empreendedor e gera empregos. Mas são poucos os que souberam fazer esse corre bem feito. Eu gosto de muitos grupos e artistas do rap, inclusive da velha guarda e que estão sumidos da cena. Se fosse para destacar três dos que mais gosto seriam Racionais Mcs, RZO e Criolo. Mas gosto de vários outros.

Raphael Vidigal

Fotos: Site Oficial/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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